Cultura coreana invade o futebol: tendência ou nova estratégia? (Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 19 de maio de 2026 às 11h54.
A cultura coreana tomou proporções globais e invadiu definitivamente o Brasil. O fenômeno abrange diversos segmentos que envolvem a paixão de milhões de pessoas, como o futebol, e movimenta o mercado de negócios.
Para demonstrar a dimensão desse movimento, no final deste mês de maio, o Rio de Janeiro recebe pela primeira vez a K-Content Biz Week Brasil 2026. O evento reúne as dez maiores empresas do mundo do entretenimento sul-coreano. Organizado pela agência KOCCA (dirigida por Woong Jin Park), corporação de fomento à cultura coreana, o encontro junta executivos, produtores e criadores em busca de intercâmbio e novas parcerias para a distribuição de K-dramas, K-pop e animações.
Se no campo dos negócios os primeiros passos avançam agora, no futebol a conexão acontece há alguns anos. No começo de 2026, por exemplo, viralizou uma postagem do grupo de K-pop Riize, que conta com mais de 5 milhões de seguidores no Instagram. Em um vídeo gravado antes da apresentação no Lollapalooza, em São Paulo, os integrantes aparecem em coreografias com a camisa do Santos. A banda sul-coreana esbanjou simpatia no festival e arriscou palavras em português durante o show.
Muitos desconhecem as ligações culturais e musicais que a Coreia do Sul construiu com o futebol, especialmente em relação ao Brasil. O fenômeno do K-pop teve início como música popular ainda na década de 1990. Ao longo da última década, impulsionado por investimentos do governo sul-coreano, o estilo ganhou notoriedade, virou febre entre os jovens de todo o mundo e expandiu horizontes para atletas e clubes.
Em 2025, o grupo Stray Kids, que acumula mais de 32 milhões de seguidores no Instagram, ganhou uma camisa de edição limitada em colaboração com o Tottenham. De acordo com o clube inglês, a parceria cria um produto distinto, que combina a identidade de um time de futebol à estética da boy band sul-coreana com foco no alcance global.
Essa parceria entre as duas marcas reflete uma tendência constante dentro do futebol. Esse fenômeno recebe o nome de blokecore, uma estética que combina elementos esportivos a composições urbanas e casuais.
“Collabs como essa buscam uma troca inteligente de audiência, de forma a conectar fãs de música e esporte. A ideia aproveita o fato de que as pessoas têm múltiplos interesses e sofrem influência natural de quem já conquistou sua confiança nesses universos", avalia Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM.
Alguns casos na Europa ganharam grande repercussão. Em meados de 2023, o atacante Erling Haaland, do Manchester City, e Jisoo, integrante do grupo sul-coreano Blackpink, encontraram-se em Seul durante a pré-temporada do time na Ásia. As duas personalidades trocaram presentes e participaram de uma entrevista conjunta que viralizou mundialmente.
Também em 2023, a cantora Jennie (Blackpink), que possui mais de 87 milhões de seguidores no Instagram, utilizou uma camisa do Manchester United em um videoclipe. O grupo tem parceria com a Adidas e, segundo informações de bastidores, a camisa esgotou nas lojas logo após o lançamento do vídeo.
Para fechar os exemplos europeus, as artistas do Le Sserafim vestiram camisas do Barcelona em uma ação conjunta com o Spotify, patrocinador do time catalão. A mesma banda firmou parceria com a NBA em 2024 para liderar o programa Friends of the NBA na Ásia, com participação em jogos, eventos oficiais e conteúdos exclusivos para mídias sociais.
"O que se vê de novo é a transformação gradual dos clubes de futebol em plataformas de conteúdo, com associações a públicos distintos. Veremos cada vez mais essas combinações inusitadas com artistas de gêneros consagrados e também com 'novas ondas', como os coreanos no Brasil. É provável que logo ocorra a vinculação de um clube brasileiro a atores de novelas turcas, outro fenômeno de mídia recente no país", aponta Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil.
A banda NewJeans, grupo feminino de K-pop com 12 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se um ícone no estilo blokecore. A banda colaborou com a Nike em campanhas publicitárias com uniformes de diferentes seleções patrocinadas pela marca, como a norte-americana e a sul-coreana.
"Vivemos numa época em que boa parte da juventude mundial compartilha gostos e referências. O K-Pop tomou conta da geração Z globalmente e os clubes mais atentos buscam esse tipo de collab. Afinal, essa escala permite criar conteúdos de engajamento legítimo entre artistas, atletas e público, que compartilham os mesmos símbolos de Salvador a Seul", aponta Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil.
Entre os times brasileiros, há dezenas de casos recentes que envolvem homenagens de bandas do gênero. Em 2024, o grupo NTX vestiu o uniforme do Botafogo em sua passagem pelo Brasil e repetiu o gesto em um show realizado na Filadélfia, nos Estados Unidos.
“Os torcedores aprovam essas ações, e algumas instituições utilizam o momento para buscar a internacionalização da marca. A disputa por audiência é grande e gera novas formas de consumo e de receita. Cabe um estudo das culturas de ambas as partes para criar uma conexão real e uma história forte", aponta Renê Salviano, CEO da Heatmap.
“A cultura K-pop possui um poder enorme de comunicação e influência junto ao público jovem. O futebol tem essa força também. Logo, faz sentido planejar uma ação conjunta que promove a união de duas marcas fortes", diz Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports.
O exemplo de maior alcance envolve o Guarani. A febre começou no segundo semestre de 2023, quando a cantora Gaeul, do grupo coreano IVE, apareceu em um show com a camisa do clube.
Logo depois, Hanabashi Rio, integrante japonesa da girl band NiziU, posou com o uniforme utilizado pelo Guarani em 1996, época de uma excursão do time no Japão. Na sequência, a cantora IU utilizou um casaco com o tradicional escudo da agremiação em Milão. Desde então, os modelos de camisa do clube paulista tornaram-se verdadeiros ícones fashion globais.