A alegria deixa de ser apenas tom de campanha e passa a operar como estratégia. Em um ambiente de instabilidade, marcas buscam experiências capazes de gerar vínculo, memória e preferência (ASIFE/Thinkstock)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 09h52.
Em um ambiente marcado por instabilidade recorrente, excesso informacional e fadiga emocional, um sentimento historicamente tratado como periférico começa a ocupar o centro das decisões estratégicas: a alegria.
Não como euforia publicitária. Nem como verniz otimista aplicado à comunicação. A alegria, emoção essencialmente humana, passa a ser interpretada como resposta cultural consistente a um cotidiano percebido como denso, imprevisível e, muitas vezes, exaustivo.
Essa é a tese de “The Power of Joy”, “O Poder da Alegria”, estudo divulgado pelo Strat Gang, núcleo estratégico da Publicis Media France.
Sustentado por análises sociológicas, benchmark internacional e monitoramento de tendências, o relatório propõe uma mudança relevante de lente: a alegria deixa de habitar apenas o território emocional e passa a operar como recurso cultural central e driver de negócios.
O ponto de partida é direto: em um cenário atravessado por choques sucessivos, cresce entre consumidores o desejo por leveza, reconexão social e segurança emocional. E as marcas capazes de produzir experiências genuinamente positivas ampliarão preferência, fortalecerão vínculos e gerarão impacto econômico.
A alegria deixa de ser tom de campanha e passa a funcionar como linguagem de sobrevivência.
A Publicis organiza essa leitura dentro do conceito de Joy Economy, um paradigma no qual a alegria atua simultaneamente como assinatura editorial, ferramenta de conexão social e motor de reinvenção setorial.
O alcance dela atravessa categorias inteiras, do entretenimento ao varejo, da beleza ao turismo, indicando não um ajuste tático, mas uma reorganização mais profunda na forma como valor é percebido.
O deslocamento de território da alegria ajuda a explicar, segundo a Publicis, uma inflexão silenciosa no marketing contemporâneo: durante décadas, eficiência e performance dominaram a agenda; hoje cresce a percepção de que performance sem vínculo emocional tende a ser curta.
Ou seja, resultados podem até surgir. Preferência, não necessariamente.
Alegria, nesse contexto, não simplifica o discurso. Ela produz energia social.
O relatório descreve essa emoção como um soft power moderno, capaz de fortalecer laços, estimular conteúdo gerado pelo público e criar experiências memoráveis em escala. Funciona como ponto de equilíbrio entre duas forças que organizam o comportamento atual: o desejo de proteção e a necessidade de reinvenção.
Outras pesquisas convergem nessa direção. O estudo “Consumer of the Future 2027”, da WGSN, identifica emoções positivas como um dos vetores com maior potencial de influenciar decisões de compra nos próximos anos.
A Publicis identifica duas expressões complementares desse movimento.
A primeira é a “alegria hedônica”. Ela oferece micromomentos de prazer e funciona como pausa emocional em rotinas percebidas como pesadas. Não resolve o mundo, porém, devolve respiro ao cotidiano.
A segunda é a “alegria eudaimônica”. Essa mais profunda, conecta-se a propósito, alinhamento e experiência coletiva. Não busca apenas satisfazer. Busca transformar.
Essa distinção amplia o território estratégico das marcas. Uma pode gerar leveza imediata. Outra pode construir pertencimento duradouro. As duas, quando coerentes, produzem relevância emocional.
Para Pauline Le Guilcher, líder estratégica da Publicis Media, a Joy Economy se estabelece como uma nova grade de leitura cultural e uma nova gramática visual: “Em um mundo saturado e fragmentado, afirma ela, a alegria torna-se a emoção capaz de conectar proteção e reinvenção sem cair na superficialidade”.
Alegria, logo, deixa de ser tonalidade criativa e passa a orientar posicionamento estratégico.
Embora nasça da realidade francesa, o estudo aponta para um vetor cultural mais amplo. Não sugere copiar formatos. Sugere compreender a mudança.
Três implicações merecem atenção, na minha visão:
Há, ainda, uma camada menos visível nessa transformação: quanto mais automatizado se torna o marketing, maior passa a ser a expectativa por experiências percebidas como humanas – a tecnologia acelera; a emoção ancora.
Em ambientes saturados de estímulos, consumidores buscam experiências que aliviem, conectem e façam sentido dentro de um cotidiano frequentemente percebido como pesado. É nesse ponto que a Joy Economy deixa de ser conceito e passa a ser lente estratégica. A alegria não ocupa mais o território da promessa. Passa a ocupar o território da decisão.
O que está em curso é uma mudança de expectativa social.
Marcas não crescem apenas quando são escolhidas. Crescem quando se tornam desejadas. Quando deixam de ser apenas úteis e passam a ser percebidas como significativas.
Talvez essa seja a provocação mais profunda do estudo: no próximo ciclo competitivo, a vantagem não será apenas operacional nem apenas tecnológica.
Será relacional e, cada vez mais, emocional.