Invest

Empresa que atuou no furacão Katrina agora resgata carros das enchentes no RS

Através de leilões, a Copart (C1PR34) visa mitigar os prejuízos causados às seguradoras, aos motoristas e ao meio ambiente

Copart: empresa recebeu mais de 4 mil chamados no RS para resgate de carros (Nelson Almeida/AFP)

Copart: empresa recebeu mais de 4 mil chamados no RS para resgate de carros (Nelson Almeida/AFP)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 7 de junho de 2024 às 07h00.

Última atualização em 7 de junho de 2024 às 16h01.

Tudo sobreNegócios em Luta RS
Saiba mais

Os impactos das chuvas que alastraram o Rio Grande do Sul (RS) são muitos e alguns números dão a dimensão dos estragos: 2,3 milhões de pessoas afetadas, 172 mortes nas atualizações mais recentes e cerca de 76 mil desabrigados nos dias de temporais mais fortes. Para os sobreviventes, há ainda os prejuízos materiais. Segundo estimativas da Bright Consulting, consultoria especializada no setor automotivo, os gaúchos perderam cerca de 200 mil carros na tragédia do estado.

Com o nível da água mais baixo, as imagens do amontoado de carros chocam e diversas dúvidas surgem, desde como retirar os carros das águas até se os veículos podem ser resgatados de alguma forma. É neste cenário que a multinacional americana Copart (C1PR34) chegou ao Rio Grande do Sul para resgatar os carros segurados que estão no meio das enchentes.

Com mais de 40 anos no mercado, a companhia presta serviço ao mercado securitário e acumula experiências positivas em catástrofes. Em 2005, atuou no furacão Katrina recuperando 60 mil veículos (20% dos 300 mil carros afetados). Já em 2017, esteve no furacão Harvey, e recuperou 85 mil veículos.

Adiel Avelar, CEO da Copart no Brasil, em entrevista à EXAME Invest explicou como é este processo de resgate dos carros.  “Nós trazemos esse veículo de onde estiver, seja na casa dos segurados, nos rios, nos diques ou nas garagens que foram inundadas. A partir disso, vamos, o que chamamos de processar esse veículo, ou seja, a parte operacional. Avaliamos, classificamos, higienizamos e recuperamos esse carro. Dependendo da classificação, vendemos o veículo reparado em leilões para entrar em reuso novamente, para o aproveitamento das peças em outros veículos ou para a reciclagem de alguns materiais.”

Leia também:

Protocolo Catástrofe: uma resposta eficiente em momentos de crise

Entre suas atuações, o ‘Protocolo Catástrofe’ é um dos serviços prestados pela empresa às seguradoras. Como conta Avelar, este protocolo é uma operação que envolve desde guinchos, empilhadeiras e caminhões, até geradores de energia para garantir a remoção e resgate dos veículos em condições extremas. Após a prioridade máxima, que é o resgate de pessoas e animais, o executivo  explica que eles ficam autorizados a resgatar os ativos.

“Temos toda uma estrutura. Nossos profissionais entram em uma área que não tem mais estrutura, como hotel para eles se hospedarem ou até mesmo energia elétrica. Nós temos trailers que servem de acomodações, caminhonetes 4x4, caminhões para levarem as empilhadeiras, geradores de energia, internet, a Starlink. Nós somos autossuficientes para poder ir para estes lugares.”

Além disso, há toda uma mobilização de um time especializado de operadores e motoristas preparados para atuar em situações de emergência. "Nós preparamos e treinamos esses profissionais para conseguirem atuar na linha de frente dessas catástrofes", diz Avelar. Esse time, fica em stand by pronto para entrar em ação quando há necessidade.

Para encontrar os veículos, os motoristas de guincho utilizam um aplicativo. Os profissionais colocam a placa na ferramenta e o sistema consegue identificar se há algum sinistro acionado. “A maioria dos carros nós temos a localização, mas conforme os motoristas vão entrando nas águas e passando pelos carros, eles podem digitar a placa e ver se ‘bate’ com as informações no nosso sistema."

Após a retirada dos veículos, que estão em locais como rios, áreas alagadas, eles são levados para pátios emergenciais. No caso do Rio Grande do Sul,  há 20 pátios em 15 cidades que não foram afetados pelas enchentes. A Copart utiliza cinco desses espaços para os cerca de 4 mil chamados de resgate para os carros segurados até o momento.

Em grandes catástrofes nos EUA, como os furacões Katrina, Harvey e Ian, a Copart realizou um investimento extra de US$ 25 milhões de dólares, incluindo infraestrutura, pessoal extra e apoio às comunidades durante os procolos.

Pátio emergencial no Texas World Speedway usado pela Copart para processamento dos carros danificados pelo furacão Harvey

Leilões de veículos mitigam prejuízos das seguradoras

O foco da Copart são os leilões feitos posteriormente ao resgate e reparo dos veículos. De um lado, a companhia ganha com as vendas, em que capta 1% do valor vendido. Do outro, as seguradoras conseguem recuperar parte dos valores gastos com os sinistros. O efeito final da mitigação dos prejuízos é o pagamento mais ágil das indenizações aos motoristas.

Ao abater parte dos valores gastos com os sinistros, as seguradoras também conseguem manter as apólices de seguros acessíveis. “Se não houvesse este processo, as seguradoras ficariam 100% com esse custo. Isso refletiria nas apólices de seguros, porque os cálculos de riscos iriam ser bem mais altos. Com parte dos custos mitigados, as apólices se mantêm competitivas no mercado”, diz Avelar.

A Copart processa e vende mais de 4 milhões de carros por ano, consolidando-se como um grande agente intermediário da economia circular no mundo. "O principal é que dentro desse processo, nós estamos colocando aquele veículo ou as peças dele para reuso", acrescenta o executivo.

Isso não só minimiza os prejuízos financeiros para seguradoras e consumidores, mas também contribui significativamente para a redução das emissões de CO₂, já que cada carro reaproveitado evita a emissão de mais de 7 toneladas de carbono que seriam geradas na fabricação de um novo veículo.

É perigoso comprar um carro de leilão?

Uma dúvida comum entre os compradores de leilão é sobre a segurança. Neste caso, o receio dobra já que são carros vindos de enchentes. À reportagem, a Copart explica que a empresa também segue uma série de etapas para garantir a transparência sobre a situação dos veículos.

Primeiro, os automóveis são classificados de acordo com o tipo de dano (pequeno, médio ou grande), seguindo uma legislação no Brasil que dita como e por quem eles têm que ser avaliados. “A Copart trabalha em mais de 10 países e a legislação aqui é realmente boa”, diz. De acordo com o CEO, quem avalia são peritos sem relação com as seguradoras, cadastrados pelos próprios Departamentos Estaduais de Trânsito (Detran).

Leia também:

Após a classificação, o veículo será reparado e passará por uma inspeção, desta vez pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), que irá checar se o automóvel foi reparado corretamente e pode voltar a circular. Veículos com danos pequenos ou médios podem ser colocados novamente em circulação, enquanto aqueles com danos graves são destinados a centros de desmontagem regulamentados.

Para os que serão leiloados, todas as informações sobre os danos, reparos e origem dos veículos são detalhadas nos anúncios de leilão. “Quando a gente vende esse veículo, é uma responsabilidade nossa não só da parte de compliance, mas cível e criminalmente. Então deixamos tudo transparente, informando que é um veículo de seguradora vindo de enchente. Nós também incentivamos a visitação nos pátios”, enfatiza Avelar, destacando que os valores são cerca de 50% inferiores a tabela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Acompanhe tudo sobre:LeilõesCarrosseguro-de-carroEnchentes no RSRio Grande do SulNegócios em Luta RS

Mais de Invest

Ibovespa abre em alta e esbarra nos 128 mil pontos com CPI surpreendente

CSU Digital (CSUD3) paga JCP nesta quinta-feira; veja se você tem direito

CPI dos EUA, vendas do varejo e repercussão de reforma tributária: o que move o mercado

Como um fundo gerido por robôs tem superado a crise dos multimercados

Mais na Exame