Como a inflação transformou os hábitos de consumo dos brasileiros

De compras do mês, estoques de alimentos ao consumo de marcas mais baratas, a relação histórica dos brasileiros com a inflação molda alguns dos seus hábitos de compra até hoje
Inflação: promoções de produtos perto do vencimento (os chamados “vencidinhos”) também têm ganhado mais espaço nos supermercados (Paulo Whitaker/Reuters)
Inflação: promoções de produtos perto do vencimento (os chamados “vencidinhos”) também têm ganhado mais espaço nos supermercados (Paulo Whitaker/Reuters)
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Thais CancianPublicado em 13/08/2022 às 08:03.

Desde a independência, em 1822, o Brasil já passou por nove trocas de padrão monetário e sete moedas oficiais diferentes. Dos réis ao real, a principal responsável por tantas mudanças foi a inflação, cujos picos mais conhecidos marcaram as décadas de 1980 e 1990, período de hiperinflação e sucessivas trocas de planos monetários - no ano de 1989, a taxa chegou a ultrapassar 1.900%.

Foi apenas há 28 anos, com a criação do Plano Real - o único capaz de barrar os avanços da hiperinflação no país -, que as reformas monetárias se encerraram, e o real, desde então, tem vigorado como moeda nacional.

No decorrer da história, a relação com a inflação transformou a forma como os brasileiros lidam com o dinheiro, seu poder de compra e hábitos de consumo, com parte deles perdurando até os dias de hoje. Quem nunca fez uma “compra do mês”? A origem desse hábito de consumo dos brasileiros remonta aos tempos de hiperinflação.

Considerando o atual cenário de inflação em alta, juros elevados, guerra na Ucrânia, pandemia e economia global beirando a recessão, como os brasileiros têm comprado? E como faziam compras nas décadas de 1980 e 1990? Entenda a seguir:

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Como os brasileiros faziam compras nos anos 1980 e 1990?

Ao final da década de 1980 e nos primeiros anos de 1990, o Brasil viveu um período sombrio de hiperinflação, resultado de uma série de fatores históricos, como crise mundial, desequilíbrio da balança comercial, dívidas externas e internas, endividamento público e mais - questões que culminaram no recorde de 2.400% de inflação ao ano no início da década de 1990. O cenário também foi fruto de uma sucessão de planos monetários que, na tentativa de resolver o problema, acabaram o agravando ainda mais.

Diante disso, de um dia para o outro, o dinheiro poderia se desvalorizar bruscamente, já que os preços de produtos mudavam de forma radical “da noite para o dia”. Nessa época, então, a dinâmica de estocar alimentos era bastante comum, e se tornou um hábito entre os consumidores fazer compras uma vez por mês. Assim que recebiam seus salários, muitas famílias corriam para os supermercados para encher o carrinho com tudo que seria necessário para os próximos 30 dias, com medo dos preços aumentarem demais nos dias seguintes.

“Era um período muito cruel para muitas famílias, porque a inflação altíssima penalizava o salário ao longo do mês. A variação era quase diária e corroía o poder de compra da renda das famílias. Esse cenário levou os consumidores a desenvolver certas estratégias, como estocar itens e fazer compras em maior quantidade e de forma conjunta com outras pessoas nos atacadistas para reduzir o custo unitário”, explica Julia Braga, economista e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Não à toa, fazer compras durava um dia inteiro. Etiquetas remarcando preços eram empilhadas umas sobre as outras, atestando as oscilações diárias, e a disputa por produtos deixava os comércios com prateleiras vazias em pouquíssimo tempo. Nos supermercados e postos de combustíveis, filas gigantes eram formadas.

A venda racionada também era frequente entre os comerciantes: para dar conta de atender a todos, cada um só podia levar uma garrafa de leite, por exemplo. Quando o governo determinava congelamento de preços, diversos itens desapareciam das prateleiras de supermercados, numa tentativa de forçar o descongelamento.

“A inflação chegava a algo em torno de 2 a 3% ao dia, e a maioria dos supermercados não aceitavam cartão de crédito, só durante a madrugada”, conta Roberto Kanter, professor de MBAs na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e diretor da Canal Vertical.

Foi só com a implementação do Plano Real, em 1994, que o Brasil gradualmente passou a tomar conta da inflação galopante a partir de meados dos anos 90, equilibrando as contas públicas, desindexando a economia e abrindo o país economicamente. Em 1999, a inflação encerrou o ano em 9%.

Com a taxa sob controle, o consumidor passou a fazer mais compras de reposição. Os preços mais controlados substituíram os grandes carrinhos pelas cestinhas, com compras menores, mais frequentes, mais rápidas e bem selecionadas. Nos últimos 20 anos, a renda média do brasileiro também cresceu, o que proporcionou acesso a produtos até então nunca consumidos por muitas famílias.

Inflação e preços altos: como os brasileiros têm comprado hoje?

Nos últimos anos, porém, o crescimento da inflação tem se tornado mais uma vez bastante alarmante no país. No início de julho, o Brasil atingiu o quarto lugar entre os países do G20 com maior inflação. Nos pontos de venda, os preços de itens básicos, como alimentos e produtos de higiene e limpeza, seguem aumentando, enquanto o poder de compra e o orçamento da população se retraem cada vez mais.

Com o orçamento apertado, um em cada quatro habitantes no país não consegue pagar todas as contas no fim do mês, de acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Instituto FSB Pesquisa. Conforme o levantamento, 68% dos brasileiros não conseguem guardar dinheiro, enquanto apenas 29% poupam.

Ainda neste ano, as cestas básicas, que contêm produtos alimentícios e de limpeza, estão 78% mais caras em comparação a 2019, de acordo com um levantamento realizado pela Proteste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor). A inflação sobre os preços desses bens, nos últimos 12 meses, é a segunda maior da história.

Por conta do cenário difícil, segundo outro estudo recente da Proteste, mais de 90% dos brasileiros mudaram hábitos de consumo, reduzindo despesas, recorrendo a opções mais baratas ou simplesmente cortando os gastos relacionados à energia elétrica, água, mobilidade e consumo de alimentos. Com as demandas em queda, as redes de supermercados têm trabalhado com os menores estoques dos últimos dois anos.

Diante desse cenário, muitos brasileiros têm recorrido a formas alternativas de economizar nas compras. Alguns exemplos são a preferência por feiras, onde as mercadorias custam, em média, 22% menos do que em supermercados e hortifrutis; comprar frutas e legumes da época, por terem mais oferta e, consequentemente, menor preço; e fazer cada parte dos alimentos render uma nova refeição, sem deixar desperdícios. Mesmo depois de tantos anos, também não é raro ver famílias fazendo compras do mês - ainda que não nas mesmas proporções do período de hiperinflação.

“O hábito de fazer compras mensais continuou mesmo quando a inflação já estava mais reduzida, mas, aos poucos, foi dando lugar às compras semanais. Foi só quando o atacarejo foi retomado com força que o hábito das compras mensais voltou entre os brasileiros”, explica Kanter.

A população também tem priorizado produtos de marcas mais acessíveis. De acordo com Kanter, “como um todo, a população do Brasil tem aderido menos às marcas. Os brasileiros têm priorizado produtos mais baratos e se importado menos com o renome e tradição das marcas que até então consumiam. Desde que mantenham o consumo daquele produto, a marca não tem tanto peso na decisão de compra”.

Outro hábito antigo que voltou à tona foi pechinchar. Segundo a pesquisa da CNI em parceria com o Instituto FSB Pesquisa, 68% dos entrevistados admitiram ter tentado negociar um preço menor antes de fazer alguma compra neste ano. Um total de 51% parcelou a compra no cartão de crédito, e 31% admitiram “comprar fiado”.

Promoções de produtos perto do vencimento (os chamados “vencidinhos”) também têm ganhado mais espaço nos supermercados, bem como itens que estão com as embalagens amassadas, mas sem comprometer a qualidade (conhecidos como “feinhos”).

“Para cada classe socioeconômica, a inflação tem um impacto diferente. Cada classe vai sentir as consequências da variação inflacionária de uma forma diferente. Então, existem muitas maneiras de consumir e muitos hábitos de consumo distintos no país”, finaliza o professor.

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