Juros e recessão: como o Fed está arriscando um "efeito sanfona" na política monetária

Os mercados estão prevendo que o Fed eleve as taxas para combater a inflação, gerando recessão e sendo forçado a cortar os juros
 (Brendan McDermid/Reuters)
(Brendan McDermid/Reuters)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 01/07/2022 às 17:04.

Última atualização em 01/07/2022 às 18:08.

A inflação nos Estados Unidos não para de subir, atingindo picos cada vez mais extremos. Entretanto, os rendimentos dos títulos da dívida pública americana estão em queda.

Isso, mesmo o Federal Reserve (Fed) anunciando movimentos de política monetária cada vez mais agressivos, com a previsão de uma alta de 75 pontos-base em julho.

A pergunta que muita gente no mercado se faz é: por quê?

Por que os rendimentos do Tesouro dos EUA estão se movendo na direção contrária ao dos juros?

A resposta a essas perguntas revela a verdadeira expectativa do mercado: a politica monetária agressiva do Fed hoje causará uma recessão econômica amanhã. E a recessão de amanhã, por sua vez, forçará o banco central americano a cortar as taxas depois de amanhã.

Ou seja, os investidores acreditam que mesmo se os juros vão subir no curto prazo; no médio a tendência é um novo corte. Forçado pela contingência econômica certamente negativa.

Por isso, os rendimentos dos Títulos do Tesouro americano com vencimento em dez anos caíram nos últimos 15 dias, passando de 3,48% na metade de junho para 2,98% no fechamento do último pregão do mês.

O mercado parece já ter digerido as altas de juros de 2022, e começa a antecipar cortes futuros, previstos entre 2023 e 2024.

Afinal, não é a primeira vez que isso acontece.

Mais do que profecia, um déjà vu

Entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, o então presidente do Fed, Paul Volcker, atuou exatamente da mesma forma.

O Banco Central americano elevou as taxas de forma agressiva para combater a inflação, provocou uma recessão e logo em seguida foi obrigado a voltar atrás.

O famoso "efeito sanfona" da política monetária.

Quando Volcker chegou no Fed, chamado pelo presidente Jimmy Carter para conter a inflação de quase 15%, em poucos meses elevou as taxas de juro de 10% para 20%.

Isso causou imediatamente uma recessão, que o forçou a cortar as taxas com a mesma rapidez que tinham subido, e trazê-las de volta para menos de 10% em 1980.

Só que a inflação ainda elevada o convenceu a voltar atrás, com um novo aperto monetário, trazendo as taxas de volta para 20% em 1981.

Resultado: uma segunda recessão da economia americana.

Por isso que, para o mercado, o cenário atual é mais do que uma profecia, é um "déjà vu" do "efeito sanfona" de 40 anos atrás.

Fed Funds mostram cenário sombrio

Essas previsões aparecem claras quando comparamos os futuros dos Fed Funds, ou seja, os veículos financeiros que mostram as expectativas das taxas do Fed, dos últimos dois meses.

Até o final de maio, os mercados esperavam que os aumentos das taxas de juro do Fed fossem bastante graduais.

O convencimento geral era que o atual presidente do Fed, Jerome Powell, os traria um pouco abaixo de 3% em meados de 2023, para depois os reduzir os juros gradualmente em 2024.

Um mês depois, as expectativas são bem diferentes.

Os mercados aguardam altas de juros maiores, com as taxas que deveriam ultrapassar 3,5% em março de 2023, e depois ter cortes mais pronunciados.

De fato, espera-se que hoje as taxas do Fed sejam mais baixas em 2024 do que as estimadas há apenas um mês.

Previsão de juros de longo prazo faz sentido?

Mesmo se as previsões sobre o mercado de longo prazo têm uma ampla margem de erro, elas acabam influenciando os investidores no comportamento atual.

As recentes declarações de Powell acabam corroborando a tese de um Fed intolerante com a inflação, que utilizará a arma mais poderosa possível para conter a alta dos preços, induzindo uma recessão com o aumento repentino dos juros.

Na quarta-feira, dia 29, no Fórum dos Bancos Centrais de Sintra, em Portugal, Powell admitiu quase explicitamente que sabe que "crescimento pode ser mais lento, é algo que devemos ter em conta pois nosso objectivo é baixar a inflação".

Só que muitos economistas, lembrando a lição de 1979,  estão aconselhando Powell a não cometer o mesmo erro de Volcker.

Ou seja, a sugestão é continuar com o aperto monetário até que a inflação seja realmente derrotada, e não parar nos primeiros sinais de recessão.

Ou seja, evitar de cair mais uma vez na armadilha do "efeito sanfona" na política monetária.

Até o ex-secretário do Tesouro dos EUA, o keynesiano Larry Summers, apoia uma política monetária mais dura.

"É importante que, mesmo que passemos por um período de dor, o Fed continue matando o dragão da inflação", chegou a declarar Summers.

Fed amedronta os investidores

É por isso que, neste cenário, os investidores passaram do medo da inflação para uma maior preocupação com a força da economia americana e global.

E também é por isso que os mercados de ações continuam em queda. Assim como os rendimentos dos títulos da dívida pública dos governos, que estão subindo de preço.

O medo da recessão está afetando também as cotações das commodities, que estão caindo rapidamente.

O cobre de perdeu 22,7%, o petróleo Brent 13,7%, o WTI 10,2%, o cobalto 14,4% e o lítio quase 8%.

Até que o Federal Reserve não deixe claro qual será sua estratégia de política monetária, a volatilidade continuará elevada e a incerteza sobre o futuro da economia global impactará duramente os mercados mundiais.