Ibovespa: principal índice da B3 fechou em baixa de 2,50%, aos 167.874,64 pontos (Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)
Repórter
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 17h44.
Última atualização em 11 de agosto de 2026 às 17h55.
O Ibovespa despencou nesta terça-feira, 11, e ampliou a sequência de quatro pregões de queda com uma nova sessão de forte aversão ao risco. O principal índice da B3 fechou em baixa de 2,50%, aos 167.874,64 pontos, após oscilar entre a mínima de 167.568,94 e a máxima de 172.385,51 pontos. O volume financeiro somou R$ 23,6 bilhões.
A deterioração foi disseminada, dos 78 papéis que compõem o Ibovespa, 69 terminaram o pregão em baixa, quatro ficaram estáveis e apenas cinco subiram.
O movimento refletiu principalmente a piora da percepção sobre o risco doméstico, com investidores repercutindo a combinação entre juros elevados, cenário fiscal e eleitoral, além do rebaixamento da recomendação para ações brasileiras pelo JP Morgan.A divulgação da pesquisa CNT/MDA, que mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente de Flávio Bolsonaro (PL) nos cenários de primeiro e segundo turno, também trouxe novamente as eleições para o centro das decisões dos investidores.
Ao mesmo tempo, o mercado digeriu a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) e o IPCA de julho, enquanto acompanhou a volatilidade dos preços do petróleo e das negociações envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz.
O movimento brasileiro foi mais intenso do que o observado no exterior. O dólar à vista disparou 0,98%, a R$ 5,161, depois de oscilar entre R$ 5,098 e R$ 5,178. A moeda americana se valorizou mesmo com o dólar praticamente estável no exterior, em um sinal de aumento do prêmio de risco específico do Brasil.
Para Marcos Praça, diretor de análises da ZERO Markets Brasil, a sessão foi marcada por uma reprecificação do risco doméstico.
“O mercado brasileiro teve uma sessão de forte aversão ao risco nesta terça-feira, com a combinação entre cenário eleitoral, juros elevados e piora da percepção de investidores estrangeiros provocando um sell-off nos ativos locais”.
Segundo Praça, o movimento ganhou força após a pesquisa CNT/MDA e foi reforçado pelo rebaixamento do Brasil pelo JP Morgan. “A queda da bolsa veio acompanhada pela valorização do dólar mesmo com o DXY praticamente estável, movimento consistente com uma deterioração específica do risco brasileiro e saída de recursos do mercado local”, afirma.
Um dos principais gatilhos para a piora do humor foi o relatório do JP Morgan, que reduziu sua recomendação para as ações brasileiras de overweight para neutra dentro da América Latina.
O banco citou um ambiente macroeconômico mais difícil, com juros elevados, desaceleração da atividade e questões fiscais. A instituição também passou a considerar uma pausa mais prolongada no ciclo de flexibilização monetária, o que aumenta a cautela com os ativos brasileiros.
O JP Morgan ainda reduziu sua projeção para o Ibovespa ao fim de 2026, de 190 mil para 185 mil pontos.Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, o relatório foi um dos principais fatores por trás da queda da bolsa nesta terça-feira.
“Um importante driver que leva o Ibovespa à queda hoje é um relatório do JP Morgan rebaixando o Ibovespa de overweight para neutro. Um dos principais pontos que o JP reporta em seu relatório seria a percepção de risco Brasil, comentando sobre a possível estagnação de corte de juros após setembro de 2026.”
Segundo Magno, o aumento do risco Brasil também pressionou o câmbio e os juros futuros. Ele destaca ainda a saída de recursos estrangeiros: nos dias 6 e 7 de agosto, o fluxo de capital estrangeiro ficou negativo em R$ 2,46 bilhões e R$ 2,26 bilhões, respectivamente. “A fuga de capital do Brasil e indo para países desenvolvidos” também contribuiu para a alta do dólar, afirma.
A pesquisa CNT/MDA divulgada nesta terça-feira também contribuiu para aumentar a volatilidade. O levantamento mostrou Lula liderando os cenários de primeiro e segundo turno contra Flávio Bolsonaro.
Na avaliação de Praça, o componente eleitoral voltou a ter peso relevante na precificação dos ativos justamente em um momento de maior sensibilidade do mercado às perspectivas para a política econômica e, principalmente, para a trajetória fiscal a partir de 2027.
“A pressão ganhou força depois da divulgação da pesquisa CNT/MDA, que manteve Lula com vantagem sobre Flávio Bolsonaro nos cenários de primeiro e segundo turno. O componente eleitoral voltou a entrar com força na precificação dos ativos.”
Magno também afirma que os movimentos de bolsa, dólar e juros futuros foram acentuados após a divulgação da pesquisa.
O cenário doméstico também foi influenciado pela ata da última reunião do Copom. Na semana passada, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo.
Apesar da redução, a ata divulgada nesta terça-feira mostrou que o BC não está sinalizando uma aceleração do processo de flexibilização monetária. O documento não garantiu novo corte na próxima reunião e destacou que as expectativas de inflação seguem desancoradas.
As projeções do próprio Banco Central apontam inflação de 5,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária.
Para Praça, a mensagem do Copom reforçou a percepção de que os juros poderão permanecer elevados por mais tempo.
“O Copom não garantiu novo corte da Selic na próxima reunião e destacou que as expectativas de inflação permanecem desancoradas. Segundo o Comitê, um ambiente como o atual exige uma política monetária mais restritiva e por mais tempo.”
A combinação entre IPCA mais comportado e uma postura cautelosa do BC produziu efeitos diferentes ao longo da curva de juros. Durante a tarde, o DI janeiro de 2027 operava em 13,760%, o janeiro de 2029 em 14,175% e o janeiro de 2033 em 14,515%.
O IPCA de julho subiu 0,07%, abaixo da alta de 0,16% registrada em junho, mas acima da expectativa de 0,03% do mercado. Com o resultado, a inflação acumulada no ano chegou a 3,44%, enquanto a taxa em 12 meses caiu de 4,64% para 4,44%.
O resultado, embora represente desaceleração da inflação anual, não foi suficiente para alterar de maneira significativa as expectativas para a política monetária.
“Não acredito que estes dados do IPCA vão impactar as próximas decisões de juros”, afirma Magno. Para ele, como a diferença entre o resultado efetivo e a projeção dos analistas foi pequena, o Copom deve manter um tom cauteloso e observar os próximos indicadores de inflação.
A pressão na bolsa foi generalizada, mas alguns papéis se destacaram entre as maiores altas e quedas.
Entre as blue chips, a Vale (VALE3) recuou 1,88%, enquanto a Petrobras (PETR3) caiu 1,44% e a PETR4 teve baixa de 1,35%. Os bancos também estiveram entre os principais focos de pressão, com queda forte na maioria das ações, à exceção das units do Santander.
Entre as maiores altas do Ibovespa, a CSN Mineração (CMIN3) avançou 2,01%. A Natura (NATU3) subiu 1,49%, após divulgar o balanço do segundo trimestre, enquanto Marfrig (MBRF3) ganhou 1,38%. Santander Brasil (SANB11) avançou 0,92% e Brava Energia (BRAV3) subiu 0,81%.
Natura e Brava foram apontadas como exceções positivas no pregão.
No caso da Natura, o balanço do segundo trimestre surpreendeu positivamente depois que as expectativas haviam sido reduzidas em razão de uma prévia de vendas considerada decepcionante. O Ebitda totalizou R$ 620 milhões, 14% acima do consenso, segundo Magno, beneficiado pelo maior controle das despesas operacionais.
A Brava, por sua vez, subiu após a divulgação de que o Bradesco atingiu participação de 5,99% na companhia.
Na ponta negativa, a Usiminas (USIM5) caiu 7,54%, seguida por BTG Pactual (BPAC11), com baixa de 5,80%, e RD Saúde (RADL3), que recuou 5,68%. Hapvida (HAPV3) perdeu 4,95%.
O BTG, que divulgou seu balanço na segunda-feira, registrou lucro líquido recorde de R$ 4,9 bilhões no segundo trimestre, alta de 7,2% na comparação trimestral e de 22% ante o mesmo período de 2025. Ainda assim, os papéis foram penalizados nesta terça.
“Apesar da expansão de lucro, o mercado vem penalizando as ações no dia de hoje”, afirma Magno.
A RD Saúde deu continuidade à queda da véspera e acumulou nova baixa de cerca de 6% nesta terça-feira, depois de recuar 4% na segunda.
Os preços do petróleo encerraram o pregão em alta, ampliando os ganhos da véspera, em meio às incertezas sobre uma possível reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo.
O novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, afirmou que os Estados Unidos precisam encerrar os ataques e descongelar recursos iranianos para que a passagem seja liberada. Segundo ele, eventuais entendimentos com Omã para permitir o trânsito pela região não significariam, por si só, a reabertura de Ormuz.
Mais cedo, o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, havia afirmado que Washington e Teerã estariam próximos de chegar a “algum tipo de acordo”.
A indefinição manteve elevada a volatilidade da commodity. Os Houthis do Iêmen também atacaram um navio saudita que transportava equipamentos militares em Bab-el-Mandeb.
No fechamento, o Brent para outubro subiu 1,36%, a US$ 88,91 por barril, enquanto o WTI para setembro avançou 1,30%, a US$ 83,20.A EIA também divulgou relatório apontando, de modo geral, tendência de preços mais elevados do petróleo em 2026. A agência projeta preço médio de US$ 80,88 para o WTI e de US$ 86,81 para o Brent neste ano, em um cenário que inclui uma redução significativa da produção global e interrupção de 5,5 milhões de barris por dia na produção do Oriente Médio em julho.
Para Praça, o petróleo continua sendo um importante vetor de risco externo, especialmente diante da proximidade da divulgação dos dados de inflação nos Estados Unidos.
Em Wall Street, os principais índices também terminaram o dia no vermelho, mas em magnitude muito inferior à observada no Brasil.
O Dow Jones caiu 0,34%, aos 53.791,85 pontos, enquanto o S&P 500 recuou 0,32%, aos 7.728,20 pontos. O Nasdaq perdeu 0,60%, aos 26.445,45 pontos.
As ações de grandes empresas de tecnologia ficaram entre os destaques negativos. Alphabet caiu 3,84%, Amazon recuou 2,09%, enquanto Oracle e Dell perderam 3,69% cada.