Economia

Em ata, BC indica manutenção de juros altos por mais tempo

O Comitê de Política Monetária avalia que as expectativas de inflação acima da meta exigem uma restrição monetária maior

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 08h43.

Última atualização em 11 de agosto de 2026 às 08h53.

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O Banco Central indicou nesta terça-feira, 11, que os juros devem permanecer em patamar elevado por mais tempo para assegurar a convergência da inflação à meta. Na ata de sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que as expectativas de inflação desancoradas exigem uma restrição monetária "maior e por mais tempo" do que seria necessária em outras circunstâncias.

Na última quarta-feira, 5, o Copom reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. A decisão marcou a quarta redução da Selic no ano, mas a ata reforça que o movimento não significa uma transição para uma política monetária menos restritiva de forma acelerada.

O principal motivo está nas expectativas de inflação, que permanecem acima da meta nos diferentes horizontes acompanhados pelo BC. Na pesquisa Focus, as projeções estão em 5% para 2026 e 4,2% para 2027. O centro da meta perseguida pelo BC é de 3%.

Segundo a ata, todos os integrantes do Comitê concordaram que a desancoragem das expectativas aumenta o custo necessário para controlar os preços. Para o Copom, esse cenário exige juros mais restritivos e por um período maior do que seria apropriado caso as expectativas estivessem ancoradas.

O BC também argumenta que expectativas persistentemente distantes da meta tornam o processo de desinflação mais custoso para a atividade econômica. Na avaliação do Comitê, "perseverança, firmeza e serenidade" na condução da política monetária podem contribuir para a reancoragem das projeções.

Segundo economistas ouvidos pela EXAME após a decisão na última semana, a expectativa é que ocorra mais um corte na reunião de setembro e a Selic encerre o ano em 13,75%. 

Inflação desacelera, mas riscos continuam elevados

Os dados recentes mostram alguma melhora no comportamento dos preços. A inflação cheia desacelerou, embora permaneça acima do limite superior da meta no acumulado em 12 meses. As medidas subjacentes, que ajudam a identificar a tendência da inflação ao reduzir o peso de componentes mais voláteis, também perderam força.

No cenário de referência do Copom, a inflação deve atingir 5,1% em 2026, recuar para 3,8% em 2027 e chegar a 3,2% no primeiro trimestre de 2028. Apesar da trajetória de queda, o BC considera que os riscos para a inflação continuam acima do normal e apresentam assimetria para cima.

Mesmo com a desaceleração recente dos preços, o Comitê avalia que os riscos para a inflação continuam mais elevados que o usual e apresentam assimetria para cima.

Entre os riscos citados pelo BC estão uma desancoragem mais prolongada das expectativas, maior resistência da inflação de serviços, uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada e estímulos à demanda capazes de manter a economia acima de seu potencial.

No sentido contrário, uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, uma perda de ritmo mais pronunciada da atividade global e a redução dos preços das commodities, matérias-primas negociadas internacionalmente, poderiam contribuir para uma inflação menor.

Atividade perde força, mas mercado de trabalho segue aquecido

A ata também aponta que os efeitos dos juros elevados começaram a aparecer com maior intensidade na atividade econômica. Segundo o Copom, indicadores recentes mostram desaceleração na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2026, disseminada entre componentes da oferta e da demanda.

O arrefecimento da demanda é considerado pelo BC uma etapa necessária para reequilibrar a economia e favorecer a convergência da inflação à meta. O Comitê ressalta, porém, que períodos de mudança no ciclo econômico costumam apresentar sinais divergentes entre os indicadores.

O mercado de trabalho continua como ponto de atenção. A taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos, enquanto o crescimento da ocupação perdeu força. Os rendimentos também desaceleraram na margem, mas ainda avançam em termos reais acima da produtividade do trabalho.

Copom volta a alertar para política fiscal

A condução das contas públicas voltou a aparecer entre as preocupações do Comitê. Segundo a ata, a política fiscal pode afetar a inflação no curto prazo por meio da demanda e, em uma dimensão mais estrutural, alterar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida pública e o prêmio de risco exigido pelos investidores.

O Copom voltou a afirmar que menor esforço em reformas estruturais e disciplina fiscal, aumento do crédito direcionado e incertezas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra, nível de juros que, em tese, não estimula nem contrai a atividade econômica.

Segundo o Comitê, uma taxa de juros neutra mais elevada reduz a potência da política monetária e aumenta o custo do processo de desinflação sobre a atividade.

No cenário internacional, o BC destacou as incertezas provocadas pelos conflitos no Oriente Médio e pelas dúvidas sobre a política econômica dos Estados Unidos. Para o Copom, esse ambiente pode elevar a volatilidade dos preços de ativos e das commodities e exige cautela adicional das economias emergentes.

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