Marketing

Seria o AIpocalipse uma grande campanha de marketing?

Ao aventar que a IA pode destruir a humanidade, as Big Techs também vendem potência, urgência e a ideia de que só elas podem controlar o que criaram

Globo terrestre: ameaça ou pânico? (XX/Thinkstock)

Globo terrestre: ameaça ou pânico? (XX/Thinkstock)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 11h33.

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Toda indústria precisa convencer o mercado de que seu produto importa. Com a superfestejada Inteligência Artificial não é diferente. Ela, porém, encontrou um argumento imbatível: talvez seja potente o bastante para acabar com o mundo.

A IA promete produtividade e abundância. Seus fabricantes alertam para perda de controle. O desemprego em massa assusta. A sobrevivência humana entrou na conversa.

O mesmo produto aparece como consultor, assistente, psicólogo e possível sucessor da espécie.

E se essa contradição, que parece um problema de comunicação, for justamente o que torna a campanha tão eficiente?

Bem-vindo ao Marketing do AIpocalipse, no qual o medo serve como demonstração de produto.

Raciocine comigo: se uma montadora admitisse que seu carro poderia decidir sozinho para onde levar o motorista, provocaria desconfiança. Com a IA, o alerta produz fascínio.

Quando um executivo afirma que a tecnologia poderá escapar ao controle humano, a mensagem percebida também é: ela deve ser extraordinariamente poderosa. A “IA assassina” transforma software em personagem histórico.

“Se essa máquina pode ameaçar uma civilização, imagine o que fará pela minha apresentação, minha empresa, meu time e meu bolso.”

Uns enxergam escala. Outros, disrupção. Muitos compram antes de entender. Até os governos convocam os fabricantes para explicar como o monstro deve ser contido.

O efeito contraria a advertência: mais gente tenta se juntar ao monstro do que enfrentá-lo. O medo que deveria desacelerar a adoção ajuda a acelerá-la.

Beneficiários do pânico

As empresas que lideram a corrida ganham atenção, valorização e acesso aos espaços de poder. Tornam-se intérpretes oficiais do futuro.

A regulação é indispensável. Só que testes caros e estruturas complexas favorecem quem já possui bilhões e influência. A barreira criada para conter o risco também pode conter os concorrentes.

O Marketing do AIpocalipse faz barulho, gera buzz e movimenta uma economia: a imprensa ganha audiência; os políticos ganham uma emergência; as consultorias ganham uma nova frente.

Cada campanha, keynote ou post que repete a inevitabilidade da IA presta um serviço gratuito aos fabricantes. Chamamos isso de educação de mercado.

Enquanto ventilamos a possibilidade de uma superinteligência exterminar a humanidade, para onde vão os problemas atuais? As fraudes, a concentração de poder, o uso de dados, os direitos autorais, a energia, os vieses e as decisões automatizadas que atingem pessoas reais desaparecem do enquadramento.

O futuro catastrófico rende trailer e o dano presente exige responsáveis, fiscalização e reparação.

Quanto mais discutimos o que a máquina poderá fazer amanhã, menos perguntamos quem decide o que ela faz hoje.

Antimarketing

No antimarketing, uma mensagem que parece afastar o consumidor aumenta o valor percebido. “Talvez isso seja poderoso demais”, dizem os fabricantes. Advertir sobre a própria criatura transmite prudência e excepcionalidade. Quem confessa o perigo assume os papéis de criador e guardião.

O risco pode ser real. A preocupação pode ser honesta. Isso não cancela seus efeitos comerciais.

Marketing.

Questionar essa narrativa não significa defender uma corrida sem controle. Significa rejeitar a escolha forçada entre confiar nas Big Techs e negar os perigos da tecnologia.

Antes de repetir a próxima profecia, faça três perguntas: qual parte desse AIpocalipse foi demonstrada? Quem ganha poder com essa interpretação? Que responsabilidade desaparece quando a atenção corre para o fim do mundo?

Uma conversa séria sobre segurança exige evidências, fiscalização independente e regras construídas além dos laboratórios. Também precisa separar risco de espetáculo e urgência de interesse comercial.

A IA ainda não controla o mundo. Quem a fabrica, porém, já controla boa parte da conversa sobre ela.

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