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Estrangeiro voltou à Bolsa com força total, diz João Braga, da Encore

Brasil ganha protagonismo no radar de fundos globais com ativos ainda descontados e juros em queda

João Braga: fim do excepcionalismo americano

João Braga: fim do excepcionalismo americano

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 05h30.

A entrada de capital estrangeiro na bolsa já havia sido fundamental para levar o Ibovespa a patamares recordes e fazer o índice bater a renda fixa, mesmo com juros na casa dos 15%. Mas até então, os fluxos vinham sendo pontuais, o que se traduzia em um volume de negócios ainda muito baixo. Agora em 2026, o gringo não so está ajudando a bolsa brasileira a chegar a novas marcas históricas, como também fez o giro financeiro dos negócios disparar.

Para a Encore Asset, gestora de ações onde 80% do capital administrado vem do exterior, não resta dúvidas de que, agora sim, o fluxo estrangeiro não é mais uma movimentação pontual.

"O que está acontecendo é uma quebra na narrativa do excepcionalismo americano", afirma João Braga, CEO da gestora, citando um fenômeno que vinha mantendo o capital global concentrado nos Estados Unidos, onde os recursos foram se acumulando ao longo de uma década e meia.

Para Braga, o fluxo atual para o Brasil não é só uma euforia passageira. Trata-se, segundo ele, de uma reavaliação global de alocação de capital, provocada por mudanças estruturais no mercado internacional.

"Durante cerca de 15 anos, investidores globais estiveram extremamente concentrados nos Estados Unidos, impulsionados por histórias de crescimento como Apple, juros próximos de zero e, mais recentemente, o avanço da inteligência artificial. Mas esse ciclo está sendo questionado", explica.

A lógica da realocação

Entre os fatores que motivam essa mudança está o encarecimento dos ativos nos EUA. A valorização das ações fez com que os múltiplos ficassem historicamente altos. Ao mesmo tempo, a China vem encurtando sua distância tecnológica e o cenário político americano adiciona incertezas, especialmente com o retorno de Donald Trump à presidência.

Braga afirma que o estilo de negociação do republicano — impondo e retirando tarifas ou fazendo ameaças — adiciona incerteza, e ressalta que o investidor não gosta desse cenário. 

Há também um componente técnico. “O mercado americano é como uma piscina olímpica; o Brasil, um balde", compara Braga. “Se um investidor global tira alguns baldes da piscina para colocar no Brasil, isso já gera impacto relevante nos nossos preços”.

O cenário internacional contribui: há uma predisposição por uma economia global mais aquecida, chamada run it hot pelos analistas, e uma busca menor pelo dólar, o que estimula a diversificação para mercados emergentes.

Brasil entre os emergentes

No universo emergente, o Brasil se destaca por seus ativos ainda muito descontados, mesmo com muitos chegando a patamares recordes de preço  “O país está atrasado na recuperação de preços, o que cria potencial de valorização à frente”, diz Braga.

Segundo ele, o processo já começou. O primeiro estágio do movimento é marcado pela entrada dos investidores estrangeiros via índices — no caso do Brasil, o ETF EWZ, que inclui empresas grandes como Vale, Petrobras e os grandes bancos. Em seguida, vem o movimento de stock picking, no qual os investidores começam a selecionar ações específicas com maior potencial, avaliando cada valuation individualmente.

“Estamos vendo isso acontecer agora, com estrangeiros aumentando exposição a empresas domésticas.”

Ativos ainda baratos

Mesmo com a alta recente da bolsa, Braga afirma que boa parte dos ativos brasileiros segue bastante descontada. “Alguns setores ainda estão em valuations tão baixos que poderiam dobrar de preço e continuariam baratos”, afirma.

Entre os setores que seguem com preços atrativos estão o varejo e as empresas domésticas, como Localiza e Smart Fit. Já empresas exportadoras de commodities, como a Vale, estariam mais próximas de uma precificação justa.

Juros, não eleição

Se há algo que realmente movimenta o investidor estrangeiro neste momento, não é a política. “Ninguém está discutindo eleição ainda”, diz Braga. Segundo ele, os investidores internacionais veem o cenário eleitoral como uma assimetria positiva: ou continua como está, ou melhora.

A variável mais importante, por ora, é o ciclo de queda de juros. O Brasil ainda está saindo do maior patamar de juros reais das últimas duas décadas, e isso aumenta a atratividade das ações locais, principalmente de setores ligados à economia interna.

Para Braga, o movimento estrangeiro está apenas começando. “Esse é um ciclo que pode durar anos. A grande diferença agora é que os fundamentos jogam a favor do Brasil.”

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