Copom: retomada de ciclo de alta é apenas ameaça, diz Genoa Capital

Igor Velecico, economista-chefe da gestora Genoa, defende que tom mais duro do Banco Central foi estratégia para frear euforia do mercado
Juros: Copom não deve retomar ciclo de alta, avalia gestora (Getty/Getty Images)
Juros: Copom não deve retomar ciclo de alta, avalia gestora (Getty/Getty Images)
Beatriz Quesada
Beatriz QuesadaPublicado em 26/09/2022 às 06:23.

O fim do ciclo de alta de juros no Brasil terminou na última semana, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano. A decisão foi a primeira em que a taxa básica de juros se manteve estável – foram doze altas consecutivas desde o início de 2021, levando a Selic da mínima de 2% para a casa dos dois dígitos.

A decisão do BC era amplamente esperada pelo mercado. O Copom se adiantou ao resto do mundo e começou a subir suas taxas antes de seus pares. Logo, a expectativa era de que o fim do ciclo também viesse antes, em especial considerando o cenário de deflação que o País tem vivido nos últimos meses. 

O cenário, no entanto, não é assim tão positivo. As taxas subindo no mundo todo podem impactar a economia brasileira, e, ainda que a inflação local tenha perdido força, o desafio segue longe de estar controlado. E foi para reforçar esse tom de cautela que o BC adotou um discurso mais duro no comunicado da alta.

A postura considerada mais “hawkish”, favorável a juros mais altos, veio em duas sinalizações. A primeira foi que a decisão não foi unânime, o que é incomum. Dois dos nove membros do Comitê votaram por uma alta residual de 0,25 p.p. na taxa. 

A segunda indicação foi uma advertência do Banco Central. O Copom ressaltou que a autoridade monetária se manterá vigilante e “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”.

Essa sinalização mais dura, no entanto, não passa de uma ameaça na avaliação de Igor Velecico, economista-chefe da gestora Genoa Capital. “A taxa de juros atual já está muito contracionista, não achamos que essa ameaça tem grande possibilidade de acontecer”, afirma Velecico em entrevista à EXAME Invest.

O economista avalia que o tom foi necessário para manter o mercado com pé no chão e evitar uma euforia generalizada com o fim do ciclo de alta. "O objetivo principal do BC é não deixar que o mercado antecipe possíveis cortes na taxa de juros, principalmente porque a projeção da inflação segue alta”, explica. Veja a entrevista completa abaixo:

A Genoa já esperava a manutenção da Selic em 13,75%? Em relação aos próximos passos, o posicionamento foi mais duro que o esperado?

Já esperávamos a manutenção da taxa e, do ponto de vista de diagnóstico da economia, a comunicação do Banco Central veio em linha com o que esperávamos.

Em relação aos próximos passos, entendemos que o Banco Central tentou ser o mais duro possível diante de uma decisão de estabilidade dos juros. Para usar as palavras deles, eles não vão hesitar em retomar esse ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra conforme eles estão esperando. É uma ameaça possível de se fazer, mas na prática a decisão tomada foi de encerrar o ciclo, o trabalho está feito.

Então, a possibilidade de o Banco Central voltar a subir os juros seria mais uma advertência do que uma possibilidade, certo? 

É muito mais uma ameaça considerando um evento mais extremo do que, de fato, uma preocupação de que o Copom está na iminência de voltar a subir os juros. A taxa de juros já estava razoavelmente contracionista. 

E quando olhamos para frente, isso tende a ficar ligeiramente um pouco mais contracionista nos próximos meses caso o BC mantenha os juros neste patamar. Não é uma ameaça à qual atribuímos uma probabilidade relevante.

O que poderia provocar uma mudança de cenário, tornando a advertência uma realidade?

É um evento que poderia ser provocado, por exemplo, por uma crise fiscal. No caso de um cenário fiscal que piora profundamente porque ou se interrompe processo de reformas ou porque déficits projetados para frente começam a piorar bastante, afetando o câmbio e consequentemente afetando as projeções do BC.

É um cenário que pode ser afetado pelas eleições?

Acho que menos pelas eleições e mais pela definição fiscal. Não vamos ter uma definição fiscal nos próximos 45 dias, teremos discussão de ideias, eventuais nomes de indicação para o Ministério da Economia do próximo governo. Mas tudo precisará de negociação com o Congresso, terá um tempo. Daqui até a próxima reunião do Copom, isso não deve ser uma grande preocupação.

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Houve, no entanto, um dissenso, com dois membros do Comitê votando por uma alta residual. É algo que indica uma possibilidade de retomada do ciclo de alta?

O dissenso foi um destaque porque não é comum que ocorra, pelo menos não nas decisões do Copom. Internamente sempre pode haver debate, mas em geral as decisões, quando anunciadas, são unânimes.

Quanto ao impacto, vale dizer que o dissenso não foi de diretores que achavam que o ciclo de juros tinha que se estender durante várias reuniões adicionais. O dissenso seria para um ajuste residual. Então eu diria que, para atender também a essa falta de unanimidade, o BC tentou ser o mais duro possível na sua comunicação.

Qual o objetivo do BC ao trazer um comunicado mais duro?

O principal objetivo foi segurar a reação do mercado. Mais recentemente o mercado vinha tentando antecipar as quedas de juros para o começo do ano que vem, já para o primeiro trimestre. O que não é plausível, afinal de contas, a previsão da inflação para 2023 segue alta. Na decisão anterior, a expectativa para inflação no ano seguinte era de 3,30%, hoje está em 3,50%. 

Isso gerou um certo incômodo para o Banco Central, que inclusive motivou a mudança de comunicação das últimas semanas antes da decisão.

Qual deve ser a postura do Copom para as próximas reuniões?

Agora que a decisão de manutenção foi tomada, a tendência natural é ficar com o juro parado e ir administrando a comunicação. Caso o mercado, de novo, volte a colocar cortes de juros muito mais cedo do que o BC imagina que seria o adequado.

A nossa previsão de corte é para o final do segundo trimestre, perto da quarta reunião do ano. Estamos em linha com o Boletim Focus.

Pensando na atuação do Fed e nesse ciclo de aperto monetário mais duro no exterior, como a decisão nos EUA pode acabar impactando a nossa economia?

São dois canais principais. Primeiro o dólar se aprecia no mundo depreciando, no geral, as outras moedas e afetando negativamente a inflação por conta, justamente, dessa depreciação da moeda.

Mas, ao mesmo tempo, quando o Fed sobe os juros, eles desaquece a economia americana, a maior economia do mundo, o que consequentemente desaquece a economia global e vai jogando os preços de commodities para baixo. Então, o problema de inflação importada [vinda das commodities] tende a diminuir pensando a longo prazo, ainda que aqui, no curtíssimo prazo, o câmbio possa reagir negativamente.

O Banco Central sempre olha as duas facetas desse fenômeno. A minha impressão  é que o mercado e o Banco Central tendem a dar mais peso ao lado desinflacionário do Fed subindo juntos.

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