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Big Techs em crise? Derrocada das ações 'queimou' US$ 800 bilhões em uma semana

Com a intensa queda da cotação dos papéis, as empresas de tecnologia americanas já perderam o mesmo valor de mercado do PIB da Suíça

Big Techs - Amazon (AMZO34), Apple (AAPL34), Netflix (NFLX34), Alphabeth (Google) (GOGL34), Meta (Facebook) (FBOK34) e Microsoft (MSFT34) (Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)

Big Techs - Amazon (AMZO34), Apple (AAPL34), Netflix (NFLX34), Alphabeth (Google) (GOGL34), Meta (Facebook) (FBOK34) e Microsoft (MSFT34) (Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)

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Carlo Cauti

Publicado em 28 de outubro de 2022, 11h25.

Última atualização em 28 de outubro de 2022, 11h30.

A História conheceu momentos de intensa e repentina destruição de riqueza, geralmente ligados a grandes desastres naturais. Como o Furacão Katrina, em 2005, que custou mais de US$ 173 bilhões. Ou o terremoto de Fukushima, em 2010, que provocou US$ 434 bilhões de danos. Ou o terremoto no Sichuan, na China, em 2008, que custou US$ 186 bilhões.

Entretanto, há casos em que o mercado financeiro consegue provocar una destruição de riqueza ainda maior. Como foi essa semana, onde em poucos dias as empresas de tecnologia "queimaram" mais de US$ 800 bilhões em valor de mercado. Um valor superior ao custo do desastre de Chernobyl, na União Soviética, em 1986. Ou também ao Produto Interno Bruto (PIB) de uma potência econômica como a Suíça.

Foi suficiente divulgar os resultados do terceiro trimestre que as ações das empresas, que já estavam em queda, começaram a cair ainda mais rapidamente. Somente a Meta (M1TA34), controladora do Facebook, caiu mais de 25% em poucas horas, abaixo de US$ 100 por ação. O menor valor desde 2016.

Desde o começo do ano, a Meta já perdeu sozinha US$ 700 bilhões, e a queda de seus papéis parece não ter freios. Tanto que alguns analistas já escrevem relatórios onde definem abertamente a empresa como "um gigante com pés de barro".

O início da derrocada coincide com o anúncio de Mark Zuckerberg que a empresa investiria pesado - já se foram US$ 27 bilhões - no Metaverso. A realidade virtual que o fundador do Facebook tem certeza vai substituir a realidade real em poucos anos.

O anúncio foi feito durante o Mobile World Congress de Barcelona, a mais importante feira de telefonia móvel do mundo, onde uma foto mostra Zuckerberg desfilando entre os convidados desavisados que não podiam vê-lo porque seus rostos estavam cobertos por óculos de realidade aumentada da Samsung. Uma imagem poderosa e um tanto perturbadora.

Mark Zuckerberg em Barcelona

Mark Zuckerberg no Mobile World Congress de Barcelona (Getty/Exame)

O que os investidores estão preocupados é com o lucro líquido da Meta, que caiu 52%, para US$ 4,4 bilhões. A receita também caiu 4%, pela segunda vez na história da empresa e pelo segundo trimestre consecutivo, para US$ 27,7 bilhões. As condições macroeconômicas não estão ajudando, mas também a concorrência do TikTok, as mudanças do sistema operacional da Apple que limitam a coleta de dados do usuário e o declínio da publicidade online estão contribuíram para esse resultado negativo.

Segundo um relatório recente do Itaú BBA, Zuckerberg estaria insistindo tanto no Metaverso pois controlaria "todas as três variáveis" — comportamental, transacional e estoque - desse universo virtual. Em outras palavras, teria o controle total sobre como o usuário age no Metaverso, como compra coisas no Metaverso e até mesmo o próprio Metaverso. Só que nem todo o mundo concorda que esse seria o melhor dos mundos possíveis. E por isso, após um ano, as adesões ao novo projeto ainda são muito baixas entre os usuários do Facebook.

Amazon (AMZO34), Alphabet (GOGL34) e Apple (APPL34) também sofreram no trimestre

As perdas do mercado de ações aceleraram na noite da última quinta-feira, depois que a Amazon (AMZO34) chocou Wall Street com uma previsão de receita fraca para seu importantíssimo quarto trimestre do ano, quando as compras de Black Friday, Natal e Réveillon normalmente impulsionam suas receitas.

A gigante de comércio eletrônico indicou que a receita no período provavelmente ficará US$ 15 bilhões abaixo dos US$ 155 bilhões previstos pelos analistas. O mercado não gostou, e nas negociações pós-mercado os papéis da empresa fundada por Jeff Bezos caíram 12,73%.

A Alphabet (GOGL34), controladora do Google, também registrou resultados negativos no trimestre. As receitas tiveram um aumento de 6%, para US$ 69,1 bilhões, a taxa de crescimento mais lenta desde 2013, exceto por uma breve contração no início da pandemia, e abaixo das expectativas dos analistas. Pela primeira vez, o YouTube viu sua receita de publicidade cair 2%, para US$ 7,1 bilhões. A plataforma de vídeo da Alphabet também sofre com a concorrência do TikTok, como os aplicativos da Meta.

"É um momento difícil para o mercado publicitário" resumiu Sundar Pichai, CEO do Google e de sua controladora Alphabet, que também está no olho do furacão em Wall Street.

A Microsoft (MSFT34), por outro lado, superou as expectativas com lucros e receitas, mas não as atingiu com o segmento de nuvem, que faturou cerca de US$ 20,33 bilhões, alta de 20%, mas abaixo dos US$ 20,36 bilhões esperados pelo mercado. Sinal negativo para as vendas de licenças do Windows para fabricantes de dispositivos (-15% ano a ano, o pior resultado desde 2015) devido à desaceleração do mercado de computadores.

A Amazon e a Microsoft tentaram explicar que o crescimento em seus negócios de computação em nuvem está desacelerando mais do que o esperado, já que os clientes estão mais atentos com os gastos. A notícia aumentou os temores do mercado sobre a resistência de alguns dos negócios considerados mais resilientes em um momento de desaceleração econômica, incluindo computação em nuvem e publicidade de busca do Google.

Apenas a Apple (APPL34) conseguiu manter as posições, reportando receitas e ganhos acima das expectativas dos analistas, e evitando as decepções. A notícia contribuiu para uma recuperação parcial das ações da fabricante de iPhones no final do último pregão. Isso provavelmente reflete a pouca influência dos preços sobre as vendas, graças à sua marca forte e produtos populares, e à relativa fidelidade de sua base de clientes.

Crise das Big Techs alerta os analistas

Todavia, mesmo se a empresa fundada por Steve Jobs registrou um resultado positivo, não foi suficiente para salvar o mercado financeiro americano da queda maciça do valor dos papéis das Big Techs. Uma derrocada que está preocupando muitos analistas. Não apenas pelas semelhanças com outra crise do setor tecnológico, a das pontocom, que devastou Wall Street no começo dos anos 2000, mas também pelo fato que essa queda poderia ser mais do que um momento conjuntural, e sim um sintoma da perda da bussola do crescimento das Big Techs.

Afinal, não existem garantias que o modelo de crescimento do Facebook ou do Google - que se demonstrou bem sucedido nos últimos anos - continuará sendo a melhor receita para o crescimento do faturamento e do lucro.

Há um futuro para as Big Techs. E não poderia ser diferente para empresas que faturam bilhões de dólares. Todavia, por enquanto, ele só pode ser vislumbrado.