Patrocinado por:
Databricks: empresa adia IPO (SOPA Images/LightRocket/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 16h15.
Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 16h32.
PRAIA DO FORTE - BA | Em tempos de ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) trilionárias de inteligência artificial, a maioria das empresas de tecnologia bem-sucedidas corre para a bolsa assim que consegue. A Databricks faz o oposto: levanta bilhões de dólares seguidamente, mas evita o mercado aberto há anos, mesmo tendo motivo de sobra para ir.
A companhia de dados e IA fechou, na semana passada, uma nova rodada de captação de US$ 5 bilhões, que levou seu valuation a US$ 190 bilhões. É a mais recente de uma sequência de rodadas bilionárias que somam mais de US$ 20 bilhões levantados nos últimos 20 meses e, mesmo com esse volume de capital circulando, um pedido formal de abertura de capital segue fora de cogitação no curto prazo.
"A gente não pode falar sobre o IPO, porque isso não está previsto", disse Ricardo Buffon, country manager da Databricks no Brasil, em entrevista à EXAME no IT Forum Praia do Forte 2026.
Segundo ele, a empresa é hoje uma companhia de capital fechado e pretende seguir assim no curto prazo, destacando o Brasil como um dos mercados em que a Databricks mais tem investido globalmente, com o time no país quase dobrando em 12 meses.
A trajetória da última captação, segundo o CEO e cofundador da Databricks, Ali Ghodsi, em entrevista ao TechCrunch, ilustra bem o momento da empresa e o apetite de Wall Street.
A ideia inicial era levantar apenas US$ 1 bilhão, segundo ele, mas, durante uma conferência da própria companhia em junho, a imprensa especializada noticiou que a Databricks buscava uma grande rodada de financiamento, e o interesse de investidores disparou antes mesmo de qualquer negociação formal. Só entre o grupo seleto de fundos avaliados pela empresa, a demanda chegou a US$ 15 bilhões, segundo Ghodsi.
Para não frustrar investidores de longa data, a Databricks optou por emitir mais ações e ampliar a rodada. Em julho, a empresa já havia anunciado ter atingido um valuation de US$ 188 bilhões, sem revelar o valor exato captado.
Na semana passada, veio a confirmação. Foram US$ 5 bilhões levantados junto a cerca de duas dezenas de investidores, liderados pela gestora Coatue e com participação de nomes como Blackstone, MGX, fundos ligados à T. Rowe Price e a estreante Sixth Street Growth, elevando o valuation a US$ 190 bilhões.
Antes dessa rodada, a avaliação da empresa era de US$ 134 bilhões, patamar atingido em dezembro de 2025, numa captação de mais de US$ 4 bilhões na Série L, um salto de mais de 40% em cerca de oito meses.
A Databricks hoje opera com receita anualizada de US$ 7 bilhões, crescendo 80% ao ano e com fluxo de caixa positivo, segundo Ghodsi. Só o produto principal da empresa, um data warehouse em nuvem, responde por US$ 1,5 bilhão desse total, ainda crescendo 100% ao ano.
Mesmo com esses números, o executivo afirma que IA é uma área cara de sustentar: a companhia mantém contratos multibilionários com os três grandes provedores de nuvem — AWS, Microsoft Azure e Google Cloud — além de um time de 100 pesquisadores dedicados à pesquisa em IA, área extremamente disputada no mercado de tecnologia.
Parte do novo capital também deve financiar aquisições. Nas últimas semanas, a Databricks comprou a startup Electric, criadora do banco de dados leve PG Lite, além de ter adquirido neste ano a empresa de cibersegurança em IA Panther e as startups LakeWatch e Antimatter.
O IPO da Databricks já vem sendo adiado há alguns anos. Em 2024, ao anunciar uma captação recorde de US$ 10 bilhões, Ghodsi chegou a dizer que seria "burrice abrir capital naquele ano", citando a instabilidade de um ano eleitoral nos Estados Unidos, juros altos e inflação como motivos para esperar. Analistas do setor já projetavam, na época, que o IPO poderia acontecer em 2025 ou 2026 — prazo que também não se confirmou.
Agora, o adiamento tem outro motivo: o excesso de empresas de tecnologia disputando espaço na fila de IPOs. Segundo a agência de dados PitchBook, mais de 600 empresas americanas hoje reúnem critérios para abrir capital, mais que o dobro do número registrado em 2021, somando cerca de US$ 1,5 trilhão em valor de mercado privado.
Desse total, 170 são companhias de IA, um salto de 2,4 vezes em relação a três anos atrás. Bancos de investimento descrevem os bastidores da preparação para 2026 como "avassaladores", segundo a Bloomberg, com nomes como SpaceX, Anthropic e a própria Databricks classificados como candidatos a "mega-listagens" no ano.
Ghodsi já afirmou publicamente que ainda pretende abrir o capital da Databricks um dia, mas, por ora, prefere manter o crescimento fora dos holofotes do mercado público e, com investidores dispostos a colocar bilhões em suas próprias condições, não há pressa.