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Grupo Marista: saúde fica mais eficiente com IA (Grupo Marista/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 15h36.
Última atualização em 21 de agosto de 2026 às 16h21.
PRAIA DO FORTE - BA | Quando uma operadora de saúde recusa pagar parte de uma cobrança hospitalar, o episódio tem nome técnico: glosa. Para o hospital, é um problema recorrente e caro, e cada recusa exige que a equipe administrativa monte um recurso, reúna documentos e negocie com a operadora, às vezes por meses, para reaver um valor que já foi gasto no atendimento.
Foi esse processo que um projeto de inteligência artificial tentou destravar dentro da rede hospitalar do Grupo Marista. A meta era melhorar o processo em 20% a 30%. O resultado surpreendeu até a equipe que tocou o projeto: um ganho de 300%.
O Grupo Marista talvez não seja um nome conhecido fora de Curitiba, mas o tamanho da operação é relevante. É uma organização católica, fundada em 1817, que hoje mantém dois hospitais na cidade (o Marcelino Champagnat e o Cajuru, referência em atendimento pelo SUS), a universidade PUC-PR e a editora de material didático FTD, presente em salas de aula de todo o país. Juntas, as frentes faturaram R$ 2,8 bilhões no último ano fiscal, o suficiente para colocar o Marista entre os grandes grupos privados de educação e saúde do Brasil, mesmo sendo uma organização sem fins lucrativos.
Em entrevista à EXAME no IT Forum Praia do Forte 2026, Silvio Mendonça, diretor de Tecnologia e Transformação Digital do grupo, contou como a IA vem sendo usada nas três frentes da organização: saúde, educação superior e FTD, e por que a área de saúde é, ao lado da educação, a que ele considera mais perto de passar por uma transformação estrutural.
Silvio Mendonça, diretor de Tecnologia e Transformação Digital do grupo Marista: para ele, saúde tem mais a ganhar com uso de IA (LinkedIn/Reprodução/Fundo gerado por IA/Exame)
EXAME: Há quanto tempo o Grupo Marista usa IA de forma mais estruturada, e como começou esse processo?
A gente está nesse processo há uns três anos, mais ou menos, desde quando começamos a usar isso de forma mais forte.
Começamos entendendo os potenciais, vendo as ferramentas e os modelos disponíveis, e criando os princípios de uso e a governança sobre a utilização — as políticas de uso dentro do grupo. Isso foi evoluindo e começamos a fazer provas de conceito para testar se as ferramentas atendiam à nossa necessidade do dia a dia.
EXAME: Como funciona o Centro de Excelência de IA que vocês criaram?
O presidente criou esse centro dentro do grupo para consolidar todas as iniciativas e ajudar as pessoas a endereçar os problemas e achar a solução usando inteligência artificial. Hoje todas as áreas participam dele. Conseguimos democratizar bastante a utilização da IA no grupo.
EXAME: O grupo tem três frentes de missão — saúde, educação superior e a editora FTD. Cada uma foi trabalhada de um jeito diferente?
Sim, cada frente tem sua especificidade.
A saúde tem uma, a universidade outra, a FTD outra.
Cada uma teve um nicho atacado no início para ver como trabalharíamos a inteligência artificial ali, além da parte corporativa como um todo. Identificamos muitos processos que poderiam ser automatizados ou melhorados usando IA, e também nos nossos próprios produtos — como as plataformas educacionais da FTD.
EXAME: Quantas pessoas já passaram por esse processo de capacitação em IA dentro do grupo?
Já atingimos mais de duas mil pessoas letradas em IA, que já têm acesso a ferramentas para ajudar no dia a dia de trabalho e colocar a IA a serviço da produtividade e da melhoria da experiência.
EXAME: Você citou um case dentro do hospital que considera o mais expressivo. Pode detalhar como ele funciona?
É um case em que usamos múltiplos agentes de IA conversando entre si para ajudar o médico e toda a área de back-office do hospital a diminuir o número de glosas [cancelamentos ou recusas de pagamento, parciais ou totais, feitos pelas operadoras de planos de saúde sobre os valores cobrados por atendimentos e procedimentos realizados pelos hospitais] com as operadoras — trazendo um fluxo mais fluido entre pedidos, internações e as operadoras, e melhorando o ciclo de receita.
Dona do colégio mais antigo de São Paulo fatura R$ 2,2 bilhões e não vai parar de comprar escolasA gente imaginava um ganho de 20% a 30%, e ele deu 300%. Mostra o potencial que a IA tem no nosso dia a dia.
EXAME: Isso também libera tempo para os profissionais de saúde?
Sim, ajuda os profissionais a terem mais tempo para fazer o que é mais importante, que é cuidar das pessoas dentro do hospital. Isso melhora também o resultado do hospital como um todo.
EXAME: Do lado da saúde, você mencionou que pacientes já chegam ao médico depois de consultar chatbots. Como isso muda a relação médico-paciente?
Hoje as pessoas já vão ao médico depois de falar com o ChatGPT ou com outra IA — perguntam sobre os exames, o que a ferramenta acha, e chegam ao consultório quase com um diagnóstico.
Isso vai potencializar o médico, um profissional que já tem o conhecimento da medicina, ajudando bastante no diagnóstico e a entender melhor o contexto do paciente, além de automatizar tarefas administrativas que hoje tomam tempo do médico. Mas o humano sempre tem que estar no controle — principalmente quando falamos de saúde e de educação, porque estamos falando de vidas.
EXAME: Do lado da educação, existe uma política sobre quais ferramentas de IA os alunos podem usar?
Eu não cuido diretamente dos colégios — cuido da FTD, que provê material didático, metodologia e plataformas digitais para as escolas. A nossa linha é potencializar muito mais o professor, para que ele ajude o aluno a ter uma individualização maior, do que aplicar a IA diretamente no aprendizado neste momento, que ainda está caminhando e se regulando.
É um grande potencializador para atender dificuldades específicas, como déficit de atenção ou neurodivergência, mas hoje a IA ainda é complementar — estamos caminhando para o que chamamos de adaptive learning, o aprendizado adaptativo, com muito cuidado, porque estamos falando de formação de crianças.
EXAME: Que ferramentas já estão em uso na FTD?
Temos processos de correção de questões e de redação, e uma ferramenta chamada Flui, que verifica a fluência de leitura da criança — como ela lê, como interpreta o texto, como está evoluindo na língua.
Também temos o FTD com Você, que ajuda escolas e professores da rede pública a criar planos de aula e atividades dinamicamente.
A FTD atinge cerca de 16 milhões de alunos, então temos um cuidado grande para que a tecnologia entregue um resultado efetivo no aprendizado, e não gere mais distração do que aprendizado.
EXAME: Com cada funcionário querendo usar sua própria ferramenta de IA, qual é o maior desafio de governança hoje?
É a questão do "bring your own AI" — como cada área departamental vai encontrar uma ferramenta no mercado e trazer isso para dentro da corporação.
O desafio do CIO é fazer com que a área de tecnologia não seja um bloqueador, e sim um viabilizador. Hoje seguimos uma governança mais rígida: as pessoas usam ferramentas homologadas pelo grupo, como o Gemini Enterprise ou o Copilot da Microsoft, ou soluções que passam pelo Centro de Excelência de IA e são homologadas, garantindo segurança e que os dados não treinem modelos públicos sem essa proteção.
EXAME: Como vocês medem se o investimento em IA está realmente compensando?
Trabalhamos com FinOps para calcular quanto estamos gastando e se isso está trazendo retorno.
Chamamos isso de ROA, o retorno da automação — medimos quanto um processo custava antes e quanto custa depois da implementação.
O custo de IA parece barato até você começar a escalar em nível corporativo: você não fala mais de mil tokens, fala de bilhões. Por isso a gente foge do hype — o hype já passou, há mais de um ano. Agora é hora de colocar a IA para funcionar de verdade e entregar o valor que promete.
EXAME: Além do retorno financeiro, que outros ganhos vocês enxergam com o uso de IA?
Tem uma medida de qualidade de vida, de redução de estresse, até de redução de burnout — a IA pode ajudar bastante nisso. Não podemos usá-la como um exocérebro, para nos substituir em tarefas que deveríamos fazer; isso cria um problema.
Temos que usá-la para nos potencializar. O Grupo Marista tem como fundamento o carisma de Maria, uma coisa mais relacional, com as pessoas no centro de tudo — e a IA tem que seguir isso.
*A jornalista viajou a convite do IT Forum