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Inferência em IA: por que a tecnologia pode enfrentar um novo gargalo nos próximos anos (Magnific/Reprodução)
Jornalista
Publicado em 21 de agosto de 2026 às 16h10.
A expansão da inteligência artificial está criando um novo desafio para empresas de tecnologia: processar cada vez mais solicitações sem elevar na mesma proporção o custo e o consumo de energia.
Esse desafio está relacionado à chamada inferência, etapa em que um modelo já treinado utiliza o que aprendeu para gerar respostas.
É o que acontece quando um profissional pede a uma ferramenta de IA para resumir um documento, escrever um código ou analisar dados.
A diferença é que, enquanto o treinamento prepara o modelo, a inferência acontece continuamente. Quanto maior o número de usuários e tarefas, maior a quantidade de processamento necessária.
E é justamente essa escala que pode transformar a inferência em um dos principais gargalos da inteligência artificial. Quanto mais pessoas e empresas utilizam IA, maior é o número de inferências que precisam ser realizadas.
O treinamento é a fase em que o modelo aprende padrões a partir de grandes volumes de dados. É uma operação extremamente pesada, que pode exigir milhares de chips trabalhando simultaneamente.
A inferência acontece depois. É quando o conhecimento adquirido pelo modelo é utilizado para executar uma tarefa.
Uma comparação simples ajuda a entender a diferença: treinar é preparar o profissional; inferir é executar o trabalho. Um modelo pode ser treinado uma vez, mas realizar milhões ou bilhões de inferências posteriormente.
Isso muda a forma como as empresas precisam pensar em infraestrutura. Não basta ter um modelo poderoso. É necessário garantir que ele consiga atender usuários com baixa latência, ou seja, sem demora perceptível, e com custo operacional viável.
A popularização de chatbots foi apenas uma parte do problema. Sistemas de IA estão sendo incorporados a buscadores, softwares corporativos, atendimento ao cliente, programação e agentes capazes de executar tarefas em várias etapas.
Modelos que utilizam raciocínio também podem consumir mais recursos porque geram mais tokens antes de apresentar uma resposta. Tokens são pequenas unidades de texto processadas pelos modelos de linguagem.
Um estudo publicado em 2026 na revista Joule, com pesquisadores da Microsoft, estimou que consultas longas de raciocínio podem consumir mais de dez vezes a energia de consultas comuns. Em um cenário com bilhões de solicitações diárias, pequenas diferenças por consulta podem representar uma demanda significativa por eletricidade.
A infraestrutura também precisa lidar com memória, redes de comunicação, chips especializados e sistemas de refrigeração. Segundo o relatório de 2026 do Stanford Institute for Human-Centered AI, a capacidade global de computação para IA cresceu 3,3 vezes por ano desde 2022, impulsionada tanto pelo treinamento quanto pela inferência.
Para uma companhia que usa IA internamente, o desafio aparece principalmente quando a utilização aumenta.
Uma ferramenta que atende 100 funcionários pode funcionar com uma determinada estrutura. Se passar a ser utilizada por 10 mil pessoas, o volume de processamento muda completamente.
Nesse cenário, empresas precisam avaliar:
Um relatório do Uptime Institute publicado em 2026 aponta que a economia da inferência depende fortemente da utilização da infraestrutura, enquanto fatores como latência, localização dos dados e governança também influenciam a escolha de onde executar os modelos.
O crescimento da demanda já influencia o mercado de semicondutores. Empresas estão desenvolvendo processadores voltados especificamente para executar modelos de IA, em vez de depender apenas de chips tradicionalmente utilizados para treinamento.
A Nvidia, por exemplo, passou a destacar a inferência como uma oportunidade central de sua estratégia de infraestrutura. Outras empresas também desenvolvem arquiteturas específicas para acelerar a geração de respostas.
Em agosto de 2026, a startup americana Etched, especializada em chips para inferência, alcançou uma avaliação de US$ 21 bilhões após uma rodada de US$ 700 milhões. O movimento mostra como investidores e empresas estão direcionando capital para a infraestrutura necessária para colocar modelos de IA em produção.
A evolução da inteligência artificial não depende apenas de modelos mais inteligentes. Eficiência computacional passa a ter importância crescente.
Para profissionais, isso significa que conceitos como inferência, latência, tokens, processamento em nuvem e custo por tarefa tendem a fazer parte das decisões relacionadas à adoção de IA.
Na prática, uma empresa que pretende implementar um agente de IA, por exemplo, precisa considerar não apenas se o sistema consegue executar a tarefa. Também precisa calcular quantas vezes ele será acionado, quanto processamento cada operação exige e qual será o custo para manter o serviço funcionando.
O próximo desafio da inteligência artificial, portanto, pode estar menos relacionado à capacidade de criar modelos e mais à capacidade de executá-los em escala.