Inteligência Artificial

O sistema que fez a OpenAI valer US$ 500 bilhões

OpenAI criou um circuito fechado em que investimento vira contrato, fornecedores viram sócios e o risco se propaga por toda a cadeia da IA

OpenAI: um circuito fechado em que capital, computação e contratos giram entre os mesmos atores (Imagem gerada por IA/Freepik)

OpenAI: um circuito fechado em que capital, computação e contratos giram entre os mesmos atores (Imagem gerada por IA/Freepik)

Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 15h22.

À primeira vista, parece que a OpenAI, dona do ChatGPT, levanta dinheiro para gastar em computação.

Na prática, acontece o contrário. Ela gasta computação para levantar dinheiro. Investidores entram como sócios e saem como fornecedores. Fornecedores entram como parceiros e saem como clientes. O capital circula, mas raramente sai do sistema.

Foi assim que a empresa de Sam Altman construiu um modelo de crescimento pouco convencional. Em vez de separar quem investe, quem vende infraestrutura e quem consome tecnologia, a OpenAI passou a reunir todos esses papéis na mesma engrenagem.

O dinheiro entra como aporte e retorna como pagamento por chips, nuvem e data centers. Muitas vezes para as mesmas empresas que fizeram o investimento inicial.

Esse arranjo permitiu à OpenAI ampliar sua capacidade computacional em ritmo acelerado, mesmo sem apresentar lucro recorrente. Assim, a empresa faz parceiros se tornarem peças de um sistema interdependente — e passou a operar menos como uma startup tradicional e mais como o centro de uma nova economia da IA.

O modelo ganhou forma com a Microsoft. Entre 2019 e 2023, a empresa investiu cerca de US$ 13 bilhões na OpenAI e se tornou sua fornecedora exclusiva de nuvem.

Na prática, parte relevante desse capital voltou para a própria Microsoft como consumo de infraestrutura no Azure, usada para treinar e operar os modelos.

O arranjo resolveu dois problemas ao mesmo tempo. A OpenAI garantiu capacidade computacional em escala antes de gerar caixa suficiente.

A Microsoft conquistou um cliente âncora e acelerou sua estratégia de IA corporativa, integrando os modelos da OpenAI a produtos como Office e serviços empresariais.

Quando o gargalo vira ativo

Com a expansão dos modelos, o centro de gravidade passou dos data centers para os chips. A Nvidia, que domina o mercado de processadores para IA, tornou-se um elo crítico.

A empresa anunciou planos de investir até US$ 100 bilhões na OpenAI, enquanto segue como principal fornecedora das GPUs usadas pela companhia.

Assim, se criou um ciclo. O capital ajuda a financiar a expansão da OpenAI; a expansão aumenta a demanda por chips; a venda de chips reforça o caixa da Nvidia.

Para reduzir o risco de dependência, a OpenAI passou a diversificar fornecedores, firmando acordos com a AMD e desenvolvendo chips próprios em parceria com Broadcom e TSMC.

A lógica circular avançou para os data centers. A Oracle se comprometeu a investir centenas de bilhões de dólares na construção de instalações dedicadas à OpenAI em vários estados americanos.

Em contrapartida, a OpenAI assinou contratos de longo prazo para uso dessa capacidade, garantindo previsibilidade de demanda.

Com a CoreWeave, especializada em computação para IA, o vínculo foi ainda mais estreito.

A OpenAI fechou contratos bilionários, recebeu participação acionária e viu a empresa usar esse capital para comprar chips da Nvidia. A computação adquirida retorna ao sistema para treinar os próprios modelos da OpenAI.

Esse arranjo ajudou a levar a OpenAI a uma avaliação próxima de US$ 500 bilhões sem abertura de capital e sem lucro recorrente.

Em 2025, a empresa realizou a maior venda secundária já registrada em uma companhia privada, permitindo liquidez para funcionários e atraindo investidores como SoftBank, Thrive Capital e fundos soberanos do Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, a OpenAI assumiu compromissos de mais de US$ 1 trilhão em gastos com infraestrutura ao longo da próxima década, amarrando sua expansão a contratos de longo prazo com parceiros estratégicos.

Analistas apontam semelhanças com o modelo de “vendor financing” da bolha da internet, quando fornecedores financiavam clientes para sustentar crescimento artificial.

No caso da OpenAI, a interdependência amplia o risco sistêmico: uma desaceleração na adoção da IA pode atingir simultaneamente chips, nuvem, data centers e valuation. Um bug no sistema.

Acompanhe tudo sobre:OpenAIChatGPT

Mais de Inteligência Artificial

OpenAI contrata Ruoming Pang, da Apple, e acirra disputa por talentos na IA

Accenture fecha acordo com francesa Mistral AI para adotar serviços de IA no corporativo

Google Gemini pode solicitar um Uber ou pedir comida para você com novos recursos de IA

OpenAI condiciona aporte bilionário da Amazon a metas e possível IPO