Inteligência Artificial

Nvidia banca seus próprios clientes para crescer. E se eles quebrarem?

Após fechar 2025 com alta de 31% e um pico de US$ 5 trilhões em valor de mercado, a Nvidia se consolida como a gigante da IA — mas enfrenta sinais de alerta

CEO e cofundador da Nvidia Jensen Huang: empresa teve bom ano, mas deve passar por desafios em 2026 (Reprodução)

CEO e cofundador da Nvidia Jensen Huang: empresa teve bom ano, mas deve passar por desafios em 2026 (Reprodução)

Publicado em 24 de dezembro de 2025 às 06h00.

A Nvidia (NVDA) deve terminar 2025 como o maior símbolo da corrida global por inteligência artificial — com ações em alta, lucros recordes e um valor de mercado que chegou a ultrapassar US$ 5 trilhões, algo inédito na história das empresas listadas.

O desempenho que consolidou a fabricante de chips comandada por Jensen Huang como a principal engrenagem da nova economia digital também expõe riscos crescentes ligados à concentração de clientes, ao endividamento do ecossistema de IA e à sustentabilidade desse ritmo de crescimento.

No acumulado do ano até a segunda-feira, 23, as ações subiram cerca de 31%. O número impressiona, mas esconde um percurso volátil: entre janeiro e abril, o papel chegou a cair aproximadamente 33%, refletindo o temor de uma bolha em inteligência artificial, dúvidas sobre o retorno dos investimentos bilionários em data centers e o impacto das restrições dos Estados Unidos à exportação de chips avançados para a China.

A partir do segundo trimestre, a narrativa virou. A recuperação foi impulsionada por três fatores: a retomada parcial das vendas do chip H20 ao mercado chinês, a aceleração do gasto das big techs em infraestrutura de IA e resultados financeiros que superaram as expectativas de Wall Street trimestre após trimestre. Em julho, a ação já havia mais do que dobrado em relação às mínimas do ano.

Em 29 de outubro, após uma apresentação do CEO Jensen Huang, a Nvidia se tornou a primeira companhia do mundo a atingir uma capitalização de mercado de US$ 5 trilhões, ainda que brevemente. A empresa encerrou 2025 na faixa de US$ 4 trilhões após recuo nas semanas seguintes.

Fundamentos sólidos

O crescimento do valor de mercado não veio dissociado dos fundamentos. No ano fiscal de 2025, encerrado em janeiro, a Nvidia registrou US$ 130,5 bilhões em receita, um salto de 114% em relação ao ano anterior. O lucro por ação avançou 147%, para US$ 2,94, enquanto as margens brutas se mantiveram próximas de 75%, patamar raríssimo para uma empresa de hardware.

Ao longo do ano, a empresa continuou acelerando. No terceiro trimestre fiscal, reportou US$ 57 bilhões em receita, sendo US$ 51,2 bilhões apenas em data centers, área diretamente ligada à inteligência artificial. O lucro líquido trimestral chegou a US$ 31,9 bilhões, e a companhia indicou que toda a sua capacidade de GPUs para nuvem estava praticamente vendida.

Segundo Jensen Huang, a carteira de encomendas para os chips das arquiteturas Blackwell e Rubin soma cerca de US$ 500 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 350 bilhões ainda não foram entregues, equivalente a mais de um ano de faturamento garantido.

Apesar da força dos números, a estrutura de receitas levanta alertas. Mais de 50% das vendas vêm de apenas três clientes, amplamente identificados por analistas como Microsoft, Amazon e Google.

Meta, Tesla e a xAI, de Elon Musk, também figuram entre os grandes compradores. E esse nível de concentração preocupa o próprio Huang. A história da indústria de semicondutores mostra que fornecedores de hardware tendem, com o tempo, a perder poder de barganha e ver seus produtos se tornarem commodities.

Para evitar esse destino, a Nvidia adotou uma estratégia inédita em escala: financiar parte do seu próprio ecossistema de demanda.

Quando vender chips vira engenharia financeira

Nos últimos meses, a Nvidia estreitou relações com empresas que querem competir com os grandes hyperscalers tradicionais. Dois nomes concentram as atenções: OpenAI e CoreWeave.

No caso da OpenAI, criadora do ChatGPT, a Nvidia se comprometeu a investir até US$ 100 bilhões em participação acionária, ajudando a viabilizar um plano de construção de data centers com até 10 gigawatts de capacidade. O CEO Jensen Huang afirmou que o projeto equivale a entre 4 milhões e 5 milhões de GPUs, aproximadamente o que a Nvidia embarcará em um ano. Parte relevante desse valor retorna à própria Nvidia na forma de compras de chips.

Já com a CoreWeave — uma ex-mineradora de criptomoedas que se reinventou como operadora de infraestrutura de IA — a Nvidia fechou um acordo de US$ 6,3 bilhões que obriga a fabricante a comprar qualquer capacidade computacional não vendida pela empresa até abril de 2032.

A Nvidia detinha cerca de 24,3 milhões de ações da CoreWeave ao fim do segundo trimestre, equivalentes a aproximadamente 5% do capital.

Para críticos, esse modelo configura uma forma de "acordos circulares" que inflam artificialmente os gastos com IA. "A Nvidia está, essencialmente, comprando demanda", resumiu Jay Goldberg, da Seaport Global, o único analista de Wall Street com recomendação de venda para o papel.

Lisa Shalett, CIO do Morgan Stanley Wealth Management, reforça que o risco está menos na Nvidia e mais nos clientes que ela ajuda a sustentar. "São empresas mais frágeis, que estão se endividando pesado com a expectativa de um retorno que ainda não se provou", afirmou.

O peso da dívida e a grande incógnita da IA

A preocupação não é à toa. A OpenAI, por exemplo, registrou perdas de US$ 13,5 bilhões no primeiro semestre, com receita de apenas US$ 4,3 bilhões, e projeções indicam prejuízos acumulados de dezenas de bilhões até o fim da década. Para financiar sua expansão, a empresa deve recorrer massivamente à dívida.

Se o crescimento da receita com IA não acompanhar o ritmo dos investimentos, o setor pode enfrentar excesso de capacidade, data centers subutilizados e pressão sobre preços, cenário que acabaria respingando na Nvidia, mesmo com sua posição dominante.

Ainda assim, o otimismo prevalece. De 41 analistas que cobrem a ação, 39 recomendam compra, um mantém posição neutra e um recomenda venda, com preço-alvo médio próximo de US$ 255 para 2026, o que implicaria valorização adicional de cerca de 40%.

O que vem pela frente

Para 2026, o mercado aposta na transição para a arquitetura Vera Rubin, que promete 3,3 vezes mais desempenho do que a geração atual Blackwell, além da expansão da IA corporativa para além das grandes plataformas de nuvem. A arquitetura Rubin utilizará memória HBM4 e será fabricada pela TSMC em processo de 3 nanômetros, com lançamento previsto para o terceiro trimestre de 2026.

Há também a possibilidade de reabertura mais ampla do mercado chinês, que poderia adicionar US$ 2 a 5 bilhões por trimestre em receitas. Huang confirmou em outubro que a participação de mercado da Nvidia na China caiu de 95% para zero devido às restrições de exportação.

O dilema permanece: a Nvidia construiu um império apoiado em uma aposta histórica na inteligência artificial. Enquanto a narrativa do crescimento sem limites se sustentar, a máquina segue girando. Mas se o retorno desses investimentos bilionários demorar a aparecer, a pergunta deixará de ser se a Nvidia é invencível — e passará a ser quem pagará a conta se a promessa da IA não se cumprir no ritmo esperado.

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