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Z.Ai: empresa teve prejuízo nos últimos meses (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 08h39.
A Z.AI (nome internacional da chinesa Zhipu AI) é hoje uma das empresas mais valorizadas do setor de inteligência artificial (IA) da China, avaliada em mais de US$ 100 bilhões — e, ao mesmo tempo, uma das que mais perde dinheiro.
A companhia fechou 2025 com receita de 724 milhões de iuanes (cerca de US$ 105 milhões), alta de 132% em relação ao ano anterior, mas viu o prejuízo líquido ajustado saltar quase 60%, para 4,7 bilhões de iuanes. É o retrato mais nítido da guerra de preços que hoje define o mercado chinês de modelos de IA.
Diferentemente de rivais como DeepSeek e Xiaomi, que vêm cortando agressivamente os preços cobrados por token — a unidade usada para medir e cobrar o uso de modelos de IA — para ganhar participação de mercado, a Z.AI fez o caminho contrário ao elevar os preços de sua API em 83% no primeiro trimestre deste ano.
Mesmo assim, o volume de chamadas à plataforma cresceu 400% no mesmo período. A receita recorrente anualizada (ARR) do serviço de modelo como serviço (MaaS) da empresa saltou para 1,7 bilhão de iuanes no início de 2026 — ante 500 milhões de iuanes três meses antes, e apenas 28 milhões de iuanes um ano antes.
O salto de demanda coincidiu com o lançamento do GLM-5.2, em junho, o primeiro modelo de código aberto chinês a entrar na mesma faixa de desempenho dos líderes ocidentais em benchmarks de programação.
O modelo pontuou 74,4 no FrontierSWE, próximo dos 75,1 do Opus 4.8, da Anthropic, e acima dos 72,6 do GPT-5.5, da OpenAI — dado divulgado pela própria empresa, sem validação independente publicada.
A Z.AI estreou na Bolsa de Hong Kong em janeiro deste ano, com preço de HK$ 116,20 por ação, levantando cerca de HK$ 4,17 bilhões (a demanda de investidores de varejo superou a oferta em mais de mil vezes). Desde então, as ações dispararam quase 1.600%, chegando a uma máxima intradiária de HK$ 1.993, com valor de mercado superando HK$ 880 bilhões (cerca de US$ 112 bilhões) em maio.
A trajetória, porém, está longe de ser linear. Em 2 de julho, as ações da empresa despencaram quase 17% em um único pregão. Seis dias depois, com o fim do período de lock-up — restrição que impede investidores iniciais de vender ações por um prazo determinado após o IPO —, cerca de HK$ 46 bilhões em ações antes travadas foram liberadas para negociação, e o papel subiu 13% na sequência. A empresa aproveitou essa recuperação para emitir US$ 4 bilhões em novas ações em menos de 24 horas.
Mais recentemente, uma nova onda de lançamentos de concorrentes chineses derrubou as ações da Z.AI em 7,7% em um único pregão, reflexo do temor renovado do mercado com a pressão de preços sobre a receita da empresa.
A Z.AI integra o que analistas chamam de "Big Four" da IA chinesa, ao lado de DeepSeek, MiniMax e Moonshot AI — cada uma seguindo uma estratégia distinta diante da mesma pressão competitiva. A DeepSeek aposta na estrutura de custo mais barata do mercado, mas ainda não fechou um modelo de negócio claramente lucrativo.
A MiniMax foi a primeira das quatro a atingir operação autossustentável, com margem bruta em melhora constante. A Moonshot AI dobrou sua receita recorrente anualizada, para US$ 200 milhões, em apenas dois meses.
Já a Z.AI aposta na comercialização. Segundo o CEO Zhang Peng, a empresa usa a própria Anthropic como referência de comparação para sua estratégia comercial, e projeta "crescimento exponencial" para o negócio de modelos hospedados em nuvem.
Boa parte do faturamento da Z.AI hoje não vem de consumidores comuns, mas de implantações privadas sob medida.
Cerca de 73,7% da receita da empresa vem de instalações locais (on-premises) vendidas a estatais e instituições financeiras chinesas — um modelo de negócio mais parecido com o de uma fornecedora de infraestrutura corporativa do que com o de um serviço de IA de consumo em massa.
O caso da Z.AI ilustra um dilema comum às gigantes chinesas de IA hoje:crescer receita rapidamente já deixou de ser suficiente para tranquilizar o mercado.
Mesmo com avanço tecnológico reconhecido e adesão crescente de clientes corporativos, a empresa segue no centro do ceticismo recorrente sobre companhias de IA que acumulam prejuízos bilionários sustentados por avaliações de mercado extremamente elevadas — um padrão que se repete entre boa parte das "tigres de IA" chinesas, hoje sob escrutínio redobrado por operarem com ações listadas publicamente.