Amazon: empresa adota estratégia de tokenmaxxing, mas funcionários burlam sistema de avaliação (picture alliance/Getty Images)
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Publicado em 12 de maio de 2026 às 14h43.
A Amazon criou uma ferramenta interna de inteligência artificial chamada MeshClaw para ampliar a produtividade de funcionários e incentivar o uso cotidiano de IA entre desenvolvedores. A iniciativa, porém, acabou estimulando um comportamento oposto ao esperado: trabalhadores passaram a executar tarefas irrelevantes apenas para aumentar métricas internas de uso da tecnologia.
O sistema funciona como um agente de IA integrado ao ambiente corporativo da companhia. Entre as funções estão organização de caixas de entrada, disparo de processos de desenvolvimento de software e interação com plataformas como o Slack, aplicativo de comunicação corporativa. A estratégia da empresa ficou conhecida internamente como tokenmaxxing, termo usado para definir a maximização do consumo de tokens — unidades que medem processamento em modelos de IA generativa.
Segundo reportagem do jornal Financial Times, a Amazon passou a exibir o uso dessas ferramentas em placares internos acessíveis a gestores. A companhia também estabeleceu que ao menos 80% dos desenvolvedores deveriam utilizar ferramentas de IA semanalmente. O acompanhamento público dos indicadores criou uma disputa informal entre equipes e pressionou funcionários a elevar artificialmente os números.
“A pressão para usar essas ferramentas é enorme. Tem gente usando o MeshClaw só para fazer o número subir”, afirmou um funcionário ouvido pelo FT. Outro trabalhador relatou que o monitoramento constante criou “incentivos perversos”, sobretudo em equipes mais competitivas.
O episódio não é isolado. Em novembro do ano passado, Jamie Siminoff, vice-presidente de produto da companhia e fundador da startup Ring, declarou abertamente que o uso de IA passaria a ser critério formal de promoção. "Vamos promover com base em como você está integrando IA ao seu trabalho", afirmou o executivo. Quando um indicador vira régua de carreira, ele deixa de medir o que deveria medir.
O MeshClaw foi inspirado no OpenClaw, ferramenta que viralizou ao permitir que qualquer pessoa rodasse agentes de IA diretamente no próprio computador.
A versão interna da Amazon vai além ao permitir implantações de código. Um memorando interno obtido pelo FT chegou a descrever o sistema com entusiasmo quase literário, dizendo que ele "sonha durante a noite para consolidar o que aprendeu" e "monitora seus processos enquanto você está em reunião".
A Amazon não está sozinha nessa armadilha. Na Meta, trabalhadores se engajaram em uma disputa interna para descobrir o campeão de gerar mais tokens em menos tempo. No início de abril, mais de 60 trilhões de tokens foram gerados para motivar funcionários em um ranking chamado Claudeonomics.
Com a maximização, o Vale do Silício busca incentivar que trabalhadores se profissionalizem cada vez mais na "arte" de geração de tokens. Andrew Bosworth, CTO da Meta, comentou publicamente em fevereiro que engenheiros sêniores devem gastar o mesmo que ganham na produção de tokens de IA.
O mesmo pensamento é partilhado por Jensen Huang, CEO da Nvidia: ele chegou a dizer que ficaria decepcionado caso um engenheiro com salário equivalente a US$ 500 mil fosse incapaz de gastar ao menos a metade disso em tokens de IA.