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O presidente dos EUA, Donald Trump, brinca com o CEO da Meta, Mark Zuckerberg (L), enquanto ele recebe líderes de tecnologia para um jantar no State Dining Room da Casa Branca em Washington, DC, em 4 de setembro de 2025. (Foto de SAUL LOEB/AFP) (Foto de SAUL LOEB/AFP via Getty Images) (SAUL LOEB/Getty Images)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 16h21.
Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 16h50.
O momento é delicado para o governo Donald Trump. Agentes de inteligência artificial já navegam na internet, operam softwares e escrevem código com supervisão humana cada vez mais limitada, e já escaparam do controle humano numa série de incidentes recentes de alto perfil.
Nas mãos de um agente hostil, essas mesmas ferramentas poderiam identificar vulnerabilidades ou automatizar ataques cibernéticos numa velocidade que ultrapassa as defesas existentes. É nesse contexto que uma ligação telefônica de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, à Casa Branca reacendeu a disputa interna sobre como, e se, os Estados Unidos vão criar um órgão regulador para inteligência artificial.
Não é a primeira vez que o processo de formulação de política de IA do governo sofre um solavanco de última hora vindo do Vale do Silício.
Em maio, David Sacks, investidor de tecnologia e assessor da Casa Branca, então à frente da pasta de IA e criptomoedas do governo, ligou para Trump para a assinatura de uma ampla ordem executiva sobre IA e o convenceu a adiá-la, decisão que, na época, atendia à pressão direta de executivos de tecnologia contrários a um regime de testes obrigatórios para modelos avançados.
As conversas individuais de Trump com executivos de tecnologia nos últimos meses viraram, na prática, parte informal do processo de formulação de políticas, capazes de desacelerar ou redirecionar iniciativas já desenvolvidas dentro do governo, por vezes irritando autoridades graduadas da Casa Branca.
A ligação de Zuckerberg não encerrou a ideia de um novo órgão regulador do setor, que segue em consideração, mas escancarou, mais uma vez, o quanto o rumo da regulação de IA nos Estados Unidos depende de relações pessoais entre o presidente e um punhado de bilionários da tecnologia.
É um padrão de aproximação que a EXAME já vinha documentando desde o início do segundo mandato: depois de anos afastado da Casa Branca durante o governo Biden, sob ameaças de regulação e até de desmembramento da Meta, Zuckerberg passou a frequentar Washington e Mar-a-Lago, e chegou a comprar uma mansão de US$ 23 milhões perto da casa do vice-presidente JD Vance.
A Casa Branca, segundo analistas, avalia dois caminhos. O primeiro é um regulador nos moldes da Finra, entidade que supervisiona corretoras e o mercado financeiro americano, um órgão com poder de fiscalização real sobre o setor.
O segundo é uma entidade com muito menos participação do governo, inspirada na Motion Picture Association (MPA), a mesma que administra o sistema voluntário de classificação etária de filmes nos EUA (as classificações "livre" ou "16 anos", por exemplo) — modelo defendido publicamente por Sacks.
Em agosto, Zuckerberg publicou um ensaio expressando ceticismo em relação à supervisão governamental rígida sobre novos modelos de IA, argumentando que, embora governo e empresas devam colaborar de perto, qualquer política que atrase o lançamento de um modelo, mesmo que por um mês, "adicionaria risco significativo à liderança americana" frente à China.
Sacks, que deixou o cargo de "czar" de IA e criptomoedas do governo em março, mas segue influente, é abertamente contra a criação de um regulador estatal. Em podcast, comparou a proposta a "um DMV para IA", referência ao órgão de trânsito americano, sinônimo de burocracia lenta, no qual modelos "entrariam numa fila, esperando para fazer o teste deles".
Em episódio de 21 de agosto de seu podcast All-In, ele detalhou o sistema alternativo, que segundo ele tem o apoio de Elon Musk: um regulador de IA nos moldes da MPA.
"O que a MPA fez, naquela época, foi promover padrões que impediram uma ação governamental mais intrusiva e pesada", afirmou Sacks, comparando a autorregulação do cinema, criada nos anos 1960 para evitar censura estatal — ao que ele propõe agora para a inteligência artificial.
A diferença entre os dois modelos não é apenas técnica. Um regulador nos moldes da Finra teria poder de exigir testes, auditar sistemas e aplicar sanções — o tipo de fiscalização que ajudaria a mitigar riscos como os episódios recentes de agentes de IA escapando de ambientes de teste e comprometendo sistemas de terceiros.
Já um modelo à la MPA depende inteiramente da boa vontade das próprias empresas em seguir padrões que elas mesmas ajudam a redigir — historicamente, o tipo de arranjo que tende a favorecer quem já domina o mercado.