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IA e mercado financeiro: estudo expõe a falha dos modelos de previsão de IA (Getty/Getty Images)
Repórter
Publicado em 29 de junho de 2026 às 05h01.
A promessa de que modelos de inteligência artificial (IA) poderiam ler notícias, balanços e gráficos para bater o mercado financeiro vem ganhando força nos últimos anos.
Um novo estudo, porém, joga um balde de água fria nessa ideia: quando testados ao longo de duas décadas e em centenas de ações, os agentes de IA não apenas deixam de superar o mercado, como perdem para a estratégia mais simples que existe — comprar ações e simplesmente não vendê-las, o famoso buy and hold.
A conclusão é de uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, da Universidade de Oxford, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e da Universidade Sungkyunkwan, da Coreia do Sul.
O trabalho foi aceito para a KDD 2026, uma das principais conferências de mineração de dados do mundo.
O ponto de partida dos pesquisadores foi uma desconfiança metodológica.
A maioria dos estudos que apontam IA vencendo o mercado, segundo eles, avalia os modelos em períodos curtos — às vezes menos de um ano — e em punhados de ações famosas, como Tesla, Amazon e Microsoft. O problema é que esse recorte é enganoso.
Escolher apenas ações conhecidas embute o que o estudo chama de viés de sobrevivência: essas empresas se tornaram famosas justamente porque já deram certo, o que distorce o resultado a favor de quem as escolheu olhando para o retrospecto. É como avaliar um técnico de futebol só pelos jogos que ele venceu.
Para corrigir isso, os pesquisadores criaram um sistema de avaliação batizado de FINSABER, que testou as estratégias de IA em dados reais de 2000 a 2024 — incluindo, de propósito, ações que faliram ou saíram da bolsa, para não maquiar os resultados.
Em vez de poucos papéis selecionados a dedo, a avaliação cobriu mais de cem ações diferentes, sorteadas e renovadas a cada período.
Sob essas condições, a vantagem da IA evaporou.
A estratégia de "comprar e segurar" (buy and hold) — em que o investidor simplesmente compra ações de boas empresas e as mantém por anos, sem ficar negociando — apareceu consistentemente entre as melhores, superando os agentes de IA na maioria dos casos. Modelos estatísticos tradicionais e bem mais simples, como o ARIMA, também bateram a IA com folga em indicadores de retorno ajustado ao risco.
O estudo foi além de medir resultados e investigou o comportamento dos agentes de IA.
Segundo o estudo, os modelos erram a mão nos dois sentidos. Em mercados de alta, quando arriscam, são recompensados; eles se mostram excessivamente conservadores e perdem boa parte dos ganhos.
Em mercados de baixa, quando seria hora de proteger o capital, ficam agressivos demais e amargam perdas pesadas.
Em termos técnicos, nenhum dos agentes de IA testados gerou o chamado alfa — o retorno que excede o do mercado e que seria, em tese, a prova de habilidade real de um investidor. Um dos modelos, o FinMem, ainda apresentou um padrão de "operar demais", com um volume de negociações que corroía os ganhos em comissões e gerava prejuízo constante.
Talvez a lição mais contraintuitiva do estudo seja sobre tamanho. No processamento de linguagem, modelos maiores tendem a ser melhores — é a lógica que move a corrida da IA.
Nas finanças, segundo os pesquisadores, essa regra não se aplica, uma vez que modelos mais complexos não superaram de forma confiável os mais simples, e ambos perderam para ferramentas estatísticas básicas.
A explicação dos autores é que, sem uma lógica financeira embutida, a complexidade da IA adiciona ruído em vez de valor.
O verdadeiro obstáculo, concluem, não é a escala do modelo, mas a falta de raciocínio econômico adaptado ao mercado — a capacidade de detectar tendências e ajustar o risco conforme as condições mudam.
Os pesquisadores ressaltam que isso não significa que a IA jamais servirá para investir. O estudo aponta caminhos para melhorar os agentes, como dotá-los de controles de risco que reajam à volatilidade.
Mas, por ora, o recado é claro: a inteligência artificial ainda não encontrou um atalho para vencer a bolsa.
Esta reportagem tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.