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Como a inteligência artificial já define o preço nas prateleiras dos supermercados (Magnific/Reprodução)
Jornalista
Publicado em 8 de julho de 2026 às 17h21.
Por décadas, mudar o preço de um produto no supermercado exigia um funcionário, uma impressora e horas de trabalho manual. Esse processo está sendo substituído por sistemas de inteligência artificial que calculam e atualizam valores em segundos.
A mudança é possível graças à combinação entre etiquetas eletrônicas de prateleira e softwares que analisam dados de estoque, demanda e concorrência em tempo real.
Os sistemas de precificação inteligente cruzam diferentes variáveis simultaneamente: volume de clientes na loja, nível de estoque, proximidade do vencimento dos produtos, preços praticados pela concorrência e até fatores externos, como clima e sazonalidade.
Um exemplo prático: um supermercado pode reduzir automaticamente o preço de um iogurte próximo do vencimento justamente no horário de maior movimento, aumentando a chance de venda e evitando desperdício.
As chamadas ESLs (Electronic Shelf Labels, ou etiquetas eletrônicas de prateleira) são painéis digitais alimentados por bateria que substituem o papel. Elas recebem atualizações de preço direto de um sistema central, sem necessidade de troca manual.
Walmart, Kroger e Whole Foods estão entre as redes americanas que já substituem etiquetas de papel por versões digitais. A previsão é que o Walmart instale a tecnologia em cerca de 2.300 lojas, cobrindo mais de 120 mil itens por unidade.
No Brasil, o movimento também avança. A Selbetti Tecnologia já opera etiquetas eletrônicas em milhares de lojas no país, seguindo uma tendência liderada globalmente por redes como Carrefour, Tesco e Walmart.
Segundo a empresa, 85% dos contratos fechados neste ano pela sua unidade de varejo foram justamente de etiquetas eletrônicas, com meta de chegar a 100 lojas equipadas até o fim de 2026.
Para o varejo, o principal argumento é operacional: iniciativas estruturadas de precificação inteligente podem gerar incremento de margem entre 2% e 5%, um resultado relevante em um setor que opera com rentabilidade historicamente pressionada.
Por outro lado, a mesma tecnologia que corrige preços em segundos alimenta um debate nos Estados Unidos. Estados como Rhode Island, Maine e Arizona já apresentaram projetos de lei para limitar o uso das etiquetas digitais, temendo que sejam usadas para cobrar valores diferentes de acordo com perfil ou horário de compra — prática conhecida como surveillance pricing (precificação por vigilância).
Redes como o Walmart afirmam publicamente que mantêm o mesmo preço para todos os clientes de uma mesma loja, independentemente de quem compra ou em qual horário.
No Brasil, esse debate ainda é incipiente, mas tende a crescer conforme mais redes adotarem o sistema. Na prática, o consumidor já pode notar prateleiras mais dinâmicas — com telas digitais no lugar do papel — mesmo sem perceber diretamente o algoritmo por trás da mudança.
Entender como esses sistemas funcionam ajuda o público a acompanhar um debate que deve ganhar força também no varejo nacional nos próximos anos.