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Satya Nadella, CEO da Microsoft: executivo lançou críticas sobre o modelo de IA mais incensado do momento (Leandro Fonseca/Exame)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 18 de julho de 2026 às 09h31.
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, criticou as restrições impostas pelo Claude Fable, modelo avançado de inteligência artificial da Anthropic, e afirmou que alguns dos bloqueios do sistema “não fazem sentido”. A declaração foi feita durante uma conversa com engenheiros responsáveis pelo Copilot, segundo a CNBC, que teve acesso a uma cópia da fala.
Nadella questionou por que uma ferramenta voltada à criação de conteúdo seria tão “controlada editorialmente”. Na avaliação do executivo, o modelo estaria recusando solicitações que poderiam ser atendidas sem representar riscos relevantes.
O alvo das críticas é o Fable 5, lançado pela Anthropic no início de junho. Na ocasião, a empresa afirmou que havia trabalhado para reduzir os chamados “falsos positivos”, situações em que um sistema de segurança bloqueia por engano uma solicitação legítima.
Três dias depois do lançamento, entretanto, a Anthropic suspendeu temporariamente o acesso ao modelo para cumprir uma diretriz de controle de exportações do governo dos Estados Unidos. O serviço foi restabelecido em 1º de julho, acompanhado de salvaguardas mais restritivas.
A própria Anthropic admitiu que a nova configuração poderia barrar uma proporção maior de pedidos inofensivos do que a versão anterior do sistema. Em uma página de suporte, a empresa informou que perguntas relacionadas a determinados aspectos da criação de modelos de grande escala poderiam ser encaminhadas a uma versão mais antiga da tecnologia.
Usuários já relatavam nas redes sociais que o Fable recusava solicitações consideradas legítimas antes mesmo da declaração de Nadella. A Microsoft não comentou o episódio, enquanto a Anthropic não havia respondido ao pedido de posicionamento citado na reportagem original.
A crítica chama atenção pela dimensão da relação comercial entre as duas companhias. Em novembro, a Microsoft investiu US$ 5 bilhões na Anthropic. Em contrapartida, a desenvolvedora de inteligência artificial assumiu o compromisso de gastar US$ 30 bilhões com a infraestrutura de computação em nuvem Azure.
Ao questionar publicamente as limitações do Fable, Nadella atingiu um dos parceiros mais estratégicos da atual expansão da Microsoft no mercado de inteligência artificial.A Microsoft também lançou neste ano o Copilot Cowork, assistente de produtividade corporativa desenvolvido com modelos da Anthropic. Já o Claude Code, ferramenta de programação da startup, ganhou espaço entre desenvolvedores e usuários com menor experiência técnica.
A declaração de Nadella faz parte de um movimento mais amplo das empresas de tecnologia para diminuir a dependência de um número reduzido de laboratórios de inteligência artificial. Executivos do setor procuram modelos mais baratos, especializados ou disponíveis em código aberto.
Na quinta-feira seguinte à declaração, a startup chinesa Moonshot AI anunciou um modelo de código aberto que, segundo a própria companhia, teria desempenho superior ao de lançamentos recentes da Anthropic e da OpenAI. A comparação, porém, depende dos testes e critérios adotados por cada desenvolvedora.
Nadella também afirmou que o mercado de inteligência artificial não deveria ficar concentrado em poucos fornecedores de capacidade computacional. Ao tratar do tema, citou declarações do CEO da Palantir, Alex Karp, sobre a importância de as empresas “possuírem os meios de produção” da tecnologia que utilizam.
A estratégia aparece no Microsoft Foundry, plataforma que reúne mais de 11 mil modelos de diferentes fornecedores, incluindo Anthropic e OpenAI. O catálogo também oferece tecnologias desenvolvidas internamente pela Microsoft, entre elas um modelo voltado à programação anunciado em junho.
Ao ampliar o número de modelos disponíveis, a Microsoft tenta ganhar poder de negociação e evitar que produtos como o Copilot dependam exclusivamente de uma única empresa de inteligência artificial.A busca por alternativas ocorre enquanto a relação da Microsoft com a OpenAI passa por um processo de distanciamento. A tensão aumentou após a demissão e a recontratação de Sam Altman, CEO da OpenAI, em novembro de 2023. Nadella foi informado da mudança com pouca antecedência.
Em abril, a OpenAI anunciou que passaria a disponibilizar seus modelos em outras infraestruturas de computação em nuvem, incluindo a AWS, da Amazon. A decisão reduziu a exclusividade operacional da Azure, embora Microsoft e OpenAI continuem mantendo uma relação financeira e tecnológica relevante.
A participação da Microsoft no braço com fins lucrativos da OpenAI estava avaliada em US$ 135 bilhões em outubro, segundo os dados citados no texto original. O valor ajuda a dimensionar a importância da parceria, mas também evidencia os riscos associados à concentração dos investimentos da companhia.
O momento é sensível para os investidores. As ações da Microsoft acumulam queda de 17% no ano, enquanto o índice Nasdaq registra alta de 11% no mesmo período. Parte da preocupação está relacionada ao impacto de modelos capazes de produzir software sobre os negócios tradicionais da empresa.
Ao mesmo tempo, a Microsoft investe dezenas de bilhões de dólares por trimestre na ampliação de data centers, centros físicos que concentram servidores e equipamentos de processamento. A companhia precisa demonstrar que esses gastos poderão gerar receita suficiente, mesmo em um mercado no qual os modelos se tornam mais baratos e acessíveis.