Inteligência Artificial

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A IA é mais perigosa para a humanidade do que para o seu emprego, diz futurista Neil Redding

Em entrevista à EXAME, Neil Redding, o "near futurist" afirmou que modelos de IA que fugiram dos laboratórios são mais prejudiciais do que a possibilidade de a tecnologia tomar empregos de humanos

Neil Redding: para futurista, IA deve ter mais impacto na humanidade do que no trabalho (DeMATO Productions/Divulgação)

Neil Redding: para futurista, IA deve ter mais impacto na humanidade do que no trabalho (DeMATO Productions/Divulgação)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 15h55.

Última atualização em 20 de agosto de 2026 às 16h04.

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*PRAIA DO FORTE - BA | Prever o futuro não depende mais de uma bola de cristal — às vezes, o problema é que ninguém está pronto para o que ele revela. Em entrevista à EXAME no IT Forum Praia do Forte 2026, o consultor Neil Redding, autointitulado "o futurista a curto prazo", afirmou que a inteligência artificial (IA) representa um risco maior para a humanidade do que para os empregos das pessoas.

Segundo ele, o temor generalizado de que a tecnologia vá extinguir postos de trabalho é exagerado; o perigo real está em sistemas que sustentam serviços essenciais, como energia, transporte e defesa, e que já se mostraram vulneráveis a ataques.

Redding também defende que a IA deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a atuar como uma espécie de participante do trabalho, o que exige uma nova forma de liderança dentro das empresas, o que ele chama de orquestração, em oposição ao tradicional comando-e-controle. "Um participante é muito mais flexível. A IA consegue identificar e solucionar problemas, ferramentas não fazem isso", afirma.


EXAME: O senhor usa a palavra "participante" para descrever a IA — não ferramenta. Por quê?

Ferramentas são construídas para tarefas específicas. Você entra no mindset da funcionalidade delas. Um participante é muito mais flexível. A IA consegue identificar e solucionar problemas, ferramentas não fazem isso.

Com a chegada dos agentes que operam por longos períodos, faz cada vez mais sentido pensar na IA dessa forma. Assim como um humano, você explica o que quer fazer e ela consegue entender.

Uso esse termo para abrir a mente das pessoas: essa tecnologia é fundamentalmente diferente do que estamos acostumados.

Quando você traz alguém novo para o time, essa pessoa pode ser boa em coisas que você nem imaginava. Com a IA é igual.

EXAME: Muito se fala sobre a IA substituir os trabalhadores humanos. Você acredita que isso vai acontecer?

Alguns, sim. Mas o melhor jeito de pensar é que quem consegue desenvolver uma relação com a tecnologia e entender o que ela faz vai se tornar cada vez mais valioso.

É uma promoção — você sobe de nível e passa a orquestrar agentes de IA em vez de executar tarefas. A grande mudança é que os trabalhadores estão migrando de "fazedores" para decisores.

E isso é mais poderoso. Os trabalhos que correm mais risco são os que não enxergam as oportunidades que a tecnologia abre.

EXAME: O Brasil tem burocracia lenta e hierarquias corporativas rígidas. Isso torna o "clock drift" — a defasagem entre o ritmo da IA e o das organizações — um problema impossível de resolver por aqui?

É um problema estrutural, sim. O clock drift é a linha tênue entre o que a IA consegue fazer e quão rápido as organizações conseguem acompanhar. Muitas empresas têm razões legítimas para serem mais burocráticas.

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Em uma democracia como o Brasil, você busca consenso — e isso já é desafiador por si só. A saída é a orquestração: criar contexto para que a IA entenda o que é importante para a organização, e construir uma dinâmica coletiva entre IA e humanos.

EXAME: O senhor acredita que estamos próximos de atingir a superinteligência?

Acho que sim. Mas hesito porque não sei se vamos reconhecê-la quando aparecer. Talvez golfinhos e polvos já sejam mais inteligentes que nós em alguns aspectos — e não saberíamos.

Com a IA pode ser igual. Talvez não consigamos nos comunicar com ela no nível em que opera. A superinteligência voltada para o crescimento humano precisa ser medida por critérios que ainda estamos aprendendo a definir.

EXAME: Qual é o maior exagero que o senhor ouve sobre IA — e o que está sendo subestimado?

O maior exagero é que a IA vai eliminar todos os empregos. Não vai. Quando surgiram as máquinas a vapor, achamos que ninguém mais trabalharia na construção. Nos últimos 80 anos, a tecnologia foi tomando espaço no trabalho, e sempre encontramos novas funções para ocupar.

O que está sendo subestimado é o risco real da IA como ameaça à humanidade. Por exemplo, às vezes acontecem apagões elétricos generalizados. Eu moro em Nova York, e já vivi apagões de vários dias, em toda a cidade — ninguém consegue andar de metrô, ligar a luz de casa, o ar-condicionado ou o aquecedor.

Toda essa infraestrutura é bastante vulnerável. Basta um pequeno ponto de falha para que tudo desmorone. Sei que o Brasil também tem apagões às vezes. Os sistemas já são frágeis — e existem sistemas que controlam a defesa nacional, o sistema financeiro, tudo isso.

E estamos aprendendo que os modelos são capazes de descobrir vulnerabilidades críticas de segurança em praticamente qualquer software. E  o software roda tudo. Acho provável que vejamos apagões em larga escala se repetindo em diferentes tipos de sistemas — e é provável que a situação da OpenAI e da Hugging Face se repita em uma escala maior, mais arriscada, no curto prazo.

Toda essa infraestrutura é vulnerável. Poucos momentos de falha são suficientes para que alguém mal-intencionado se aproveite, e os modelos de IA são capazes de mapear quase tudo sobre os softwares que sustentam esses sistemas.

EXAME: E o que o senhor acredita que deve ser feito para evitar isso?

Por isso é essencial colocarmos salvaguardas eficazes em torno desses modelos. Já estamos vendo isso acontecer: existem modelos capazes de invadir todo tipo de sistema.

Minha previsão otimista é que o fato de termos criado o que Yuval Harari chama de "inteligência alienígena" vá motivar a humanidade a se unir.

E a minha esperança — e, na medida em que eu possa influenciar isso, minha intenção — é que líderes dos Estados Unidos, da China, do Brasil e de todas as outras nações se juntem para garantir uma IA segura e disponível para todos, em todos os países. E a parte da segurança envolve colocar as salvaguardas certas, as barreiras certas, para prevenir esse tipo de invasão. Acho que é uma questão de coordenação.

*A jornalista viajou a convite do IT Forum

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