O jovem brasileiro não desiste do estágio na entrada. Ele entra empolgado, mas desiste no segundo mês, diz estudo (Kar-Tr/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 11h26.
Por Diego Cidade, fundador da Academia do Universitário
O jovem brasileiro não desiste do estágio na entrada. Ele desiste no segundo mês.
Essa é a principal descoberta da Pesquisa Jovens Talentos 2026, o maior estudo já feito sobre a experiência do estagiário no Brasil, obtido com exclusividade pela coluna. O levantamento, batizado de Raio-X do Estágio Brasileiro, foi conduzido pela Academia do Universitário, empresa que opera programas de estágio de companhias como Volkswagen, Ipiranga e Vibra, em parceria com o executivo de RH Kiko Campos. Foram ouvidos 4.991 estagiários de empresas públicas e privadas, medindo 18 aspectos da experiência ao longo de até dois anos de contrato.
O padrão encontrado se repete em empresas de todos os portes e setores. Aos 30 dias de casa, o estagiário está encantado: o NPS, indicador que mede a disposição de recomendar a empresa, marca +9,8. Aos 60 dias, despenca para −1,6, território em que há mais detratores do que promotores. A recuperação leva até dois anos e nunca devolve o entusiasmo da chegada.
Os autores batizaram o fenômeno de penhasco dos 60 dias.
"O onboarding brasileiro virou um evento de boas-vindas, com kit, semana de integração e foto pro LinkedIn. Só que experiência não é evento, é processo. Quando a festa acaba e a rotina começa, o jovem descobre que está sozinho. O penhasco é isso: o intervalo entre a promessa e a gestão", afirma Diego Cidade, fundador e CEO da Academia do Universitário.
O segundo achado do estudo talvez seja o mais desconfortável para os RHs. Dos 18 itens avaliados, que vão de clareza de responsabilidades a qualidade da liderança, nenhum atinge o patamar considerado saudável, de 75% de avaliações favoráveis. Todos ficam na faixa intermediária de atenção, entre 60% e 75%.
Em outras palavras: o estágio brasileiro é uniformemente mediano. Competente em tudo, excelente em nada.
Os pontos mais bem avaliados são de acolhimento: "o ambiente permite aprender mesmo quando erro" lidera, com 68,3% de favorabilidade. Os piores são justamente os que a Geração Z declara mais valorizar: "recebo feedbacks que me ajudam a melhorar" (63,3%) e "vejo possibilidades reais de continuidade na empresa" (62,4%), o item mais fraco de todo o estudo.
A síntese dos autores: o estágio brasileiro acolhe bem, projeta mal e quebra previsivelmente aos 60 dias.
"O dado desmonta o discurso de que a nova geração é que não quer nada. O jovem chega com NPS de encantamento. É a gestão da experiência que o perde, num momento que a maioria das empresas nem monitora", diz Cidade.
O estudo revela um paradoxo na relação com os gestores. O item "posso pedir ajuda quando tenho dúvidas" tem o vínculo mais forte de toda a pesquisa. Ao mesmo tempo, o feedback estruturado é o segundo item mais fraco.
"A porta do gestor está aberta, mas o feedback não a atravessa. O estagiário tem acesso ao líder e não tem retorno sobre a própria evolução. Como a experiência depende de com qual gestor o jovem caiu, criamos uma loteria: dois estagiários da mesma turma vivem estágios opostos na mesma empresa", avalia Kiko Campos, coautor do estudo. Executivo com mais de 20 anos de RH, Campos liderou a integração do Grupo BIG no Carrefour, uma operação de 150 mil pessoas, e o primeiro Modelo Global de Liderança da Vale, que alcançou 120 mil pessoas em 12 países. Eleito entre os 150 líderes de RH mais influentes do Brasil e premiado como Most Admired HR em 2024, é autor do livro "O Novo Código da Mudança".
Há ainda um recorte que surpreende: nas empresas privadas, o NPS é +12,0, contra +3,5 nas públicas. Melhor, mas longe do patamar de excelência (+50). O problema do setor privado, apontam os autores, não é insatisfação: é indiferença.
O pano de fundo dá a dimensão econômica do problema. O Brasil tem cerca de 20,1 milhões de estudantes aptos a estagiar, e apenas 6% conseguem uma vaga, segundo a ABRES. Ao mesmo tempo, o mercado efetiva de 40% a 60% dos estagiários, o que faz do estágio o funil de contratação júnior mais barato do país.
O paradoxo: o sistema efetiva quase metade de quem entra, mas não conta isso a quem está dentro. Resultado: o item "vejo futuro aqui" é o mais fraco da pesquisa, e quem fica mais tempo é quem menos enxerga continuidade (65,8% de favorabilidade aos 30 dias, 60,4% aos 24 meses).
"Efetivar um estagiário formado dentro de casa custa uma fração de contratar um analista júnior no mercado. As empresas estão sentadas no pipeline mais eficiente que existe, tratando ele como custo administrativo", afirma Cidade.
O levantamento aponta quatro movimentos práticos para as empresas: