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Pesquisadores alertam que a IA pode reduzir o esforço cognitivo quando substitui, em vez de complementar, o processo de aprendizagem
Redatora
Publicado em 28 de junho de 2026 às 07h02.
Receber uma resposta pronta em poucos segundos mudou a forma como milhões de pessoas estudam, pesquisam e trabalham. Mas essa praticidade começou a despertar uma nova preocupação entre pesquisadores: será que recorrer à inteligência artificial para resolver praticamente qualquer dúvida pode reduzir a capacidade de aprender?
Estudos publicados nos últimos meses sugerem que o uso passivo dessas ferramentas pode diminuir o esforço cognitivo, afetando habilidades como memória, pensamento crítico e retenção do conhecimento.
Um dos estudos que mais repercutiram foi conduzido pelo MIT Media Lab, em 2025. Conhecida como Your Brain on ChatGPT (em tradução livre: Seu cérebro com o ChatGPT) a pesquisa acompanhou participantes durante atividades de escrita divididos em três grupos: um utilizou apenas o próprio raciocínio, outro pôde recorrer à internet e o terceiro utilizou inteligência artificial.
Os pesquisadores observaram diferenças significativas na atividade cerebral entre os grupos. Segundo os resultados, quem utilizou IA apresentou menor conectividade em regiões associadas ao processamento cognitivo durante a realização das tarefas.
Os próprios autores, porém, fazem uma ressalva importante: o estudo não conclui que a inteligência artificial cause danos ao cérebro. O que foi observado foi uma redução do esforço mental durante atividades em que parte do raciocínio foi delegada à tecnologia.
A pesquisa introduz o conceito de cognitive debt — ou dívida cognitiva. A ideia descreve uma situação em que a facilidade oferecida pela IA reduz o exercício de processos mentais importantes.
Segundo a neurologista Juliana Khouri, ouvida pela CNN Brasil, "quanto maior a ajuda externa, menor a ativação cerebral".
Isso acontece porque o cérebro tende naturalmente a economizar energia quando encontra uma solução pronta, deixando de fortalecer circuitos ligados à memória, atenção e elaboração de ideias.
Outro conceito citado pelos especialistas é o de cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. O fenômeno não surgiu com o ChatGPT — calculadoras, GPS e mecanismos de busca já faziam parte desse processo.
A diferença é que a IA passou a assumir tarefas muito mais complexas, como estruturar argumentos, resumir documentos e produzir textos completos.
Para o neurocirurgião Hugo Dória, o impacto depende da forma de utilização. "Se utilizada como substituição do pensamento, ela empobrece o processo cognitivo. Se utilizada como extensão do pensamento, ela pode potencializar o aprendizado."
Essa conclusão também aparece em uma pesquisa conduzida pela Microsoft Research e pela Universidade Carnegie Mellon. Os pesquisadores identificaram que usuários que confiavam automaticamente nas respostas da IA dedicavam menos esforço para verificar informações ou construir um raciocínio próprio.
Em contrapartida, aqueles que utilizavam a ferramenta como apoio — questionando, refinando e validando as respostas — mantinham maior engajamento intelectual.
Educadores começam a defender uma mudança na forma como a inteligência artificial é incorporada ao aprendizado. Em vez de proibir seu uso, a proposta é ensinar quando e como utilizá-la.
Entre as práticas recomendadas estão tentar resolver um problema antes de consultar a IA, comparar diferentes respostas, verificar fontes e utilizar a ferramenta para revisar ou aprimorar ideias já desenvolvidas, em vez de delegar toda a produção do conteúdo.
A preocupação, portanto, não é formar uma "geração ChatGPT", mas evitar que a facilidade substitua competências fundamentais.
Assim como aconteceu com outras tecnologias ao longo da história, o impacto da inteligência artificial dependerá menos da ferramenta e mais da forma como as pessoas escolhem utilizá-la.