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Stablecoins são estáveis ou não? Eis a questão

Conceituados como ativos de baixo risco, as stablecoins passam por prova de fogo com desastre do UST e o momento exige separar o joio do trigo

Stablecoins são criptomoedas com valor estável, que podem acompanhar o preço de outro ativo, como o dólar (Yuichiro Chino/Getty Images)

Stablecoins são criptomoedas com valor estável, que podem acompanhar o preço de outro ativo, como o dólar (Yuichiro Chino/Getty Images)

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Felippe Percigo

29 de maio de 2022, 10h04

Por Felippe Percigo*

O imbróglio das stablecoins, ou criptomoedas de valor estável, provou mais uma vez que, quando o alerta é acionado com atraso, pode haver vítimas. Teve que rolar um desastre, um dos grandes do mundo cripto, para a gente voltar algumas casas e resgatar o questionamento que simplesmente ficou negligenciado lá atrás: quão seguras são as moedas estáveis? Dezenas de bilhões de dólares precisaram ser sucateados para que, por fim, levássemos mais a sério a importância do lastro.

Acho super mão na roda ter stablecoins em carteira, são práticas, cumprem bem o seu papel como moeda, agilizam a vida de quem opera no mercado, desburocratizam e barateiam movimentações antes demoradas e custosas, como fazer remessas para fora, podem funcionar como proteção em tempos de alta volatilidade, além de vir com outras muitas funcionalidades de fábrica.

Toda essa praticidade acabou conduzindo a uma adoção acelerada e hoje o market cap das stablecoins chega a cerca de 170 bilhões de dólares. Agora, vamos pegar a praticidade e aliar à estabilidade, parece que temos o cenário perfeito. Só que não.

Como são poucos os que têm o olhar treinado para identificar as falhas, os usuários em geral acabaram por entrar numa investida faminta por todo tipo de stablecoins, indiscriminadamente, recorrendo inclusive a aplicações completamente arriscadas para multiplicar de forma rápida os seus investimentos. Fica realmente muito difícil resistir, especialmente quem não tem muito conhecimento, às diversas promessas de altos rendimentos que alguns aplicativos DeFi oferecem hoje.

As stablecoins, como qualquer outra moeda, precisam ser utilizadas para que tenham valor real, deve haver demanda e isso parte de uma lei básica dos mercados. No caso do UST, a stablecoin da blockchain Terra que colapsou e foi a zero, a demanda foi totalmente construída a partir do staking do Anchor Protocol, que prometia pagar juros de 19,5% ao ano, mas que se provou uma dinâmica insustentável.

O resultado foi uma corrida bancária que terminou em uma “espiral da morte”. Como o “lastro” do UST era LUNA, cujo valor dependia basicamente da confiança dos investidores nesta criptomoeda, quando a rede dá sinais de fragilidade, essa confiança desaparece. E, então, o que acontece? O “lastro” vai junto. Estava feito o desastre.

Nessa matéria, eu sou mais old school. Ainda que sacrifique, em algum nível, a descentralização, minha fé em uma stablecoin está diretamente ligada ao ativo que serve de suporte a ela. As moedas estáveis lastreadas, como são classificadas o USDC e o USDT, pareadas na proporção de 1 para 1 com o dólar, são capazes de oferecer mais segurança ao investidor.

Essa categoria precisa ter por trás todo um aparato de reservas que justifique as emissões, um sustentáculo de ativos do mundo real, sem a subjetividade da stablecoin não colateralizada, como era o UST.

(Mynt/Divulgação)

A vigilância sobre as emissoras de moedas estáveis atreladas ao dólar tem sido endurecida e, por causa da crise da blockchain Terra, as companhias foram praticamente obrigadas a repensar a falta de transparência sobre suas reservas. Esse foi o caso da Tether, responsável pelo USDT, a stablecoin de maior capitalização de mercado, que já teve problemas com a justiça americana, pagou multa e precisou se ajustar para dar garantias sobre os ativos que servem de lastro para a moeda.

Imediatamente após o episódio do UST, a Tether foi a público apresentar documentos que mostravam o corte de parte dos títulos comerciais de suas reservas para ampliar a participação de dinheiro em espécie, a fim de amansar os críticos da criptomoeda e elevar a confiança dos investidores nesse momento de turbulência. Em maio do ano passado, apenas 3% do lastro do USDT eram em dinheiro. Esse total passou, agora, para quase 84% (dinheiro e “equivalentes”).

O USDC também entrou na linha. Em agosto do ano passado, depois de ser colocada na parede, a emissora Circle garantiu que a stablecoin seria lastreada 100% por dinheiro e títulos do tesouro americano de curto prazo. E, desde então, foi cultivando a simpatia do investidor. Com a queda do Terra, o USDC foi a que mais ganhou fatia de mercado, caindo, inclusive, nas graças das baleias. Muitas decidiram substituir o USDT em carteira por USDC para mitigar o risco.

Além das stablecoins algorítmicas e das atreladas ao dólar (ou outros ativos do mundo real), existem as moedas estáveis lastreadas em outras criptomoedas ou cripto-colateralizadas. Nessa modalidade, o mercado tem uma grande força na minha opinião, que é a DAI, da MakerDAO.

Neste caso, como a reserva de criptomoeda de suporte também está sujeita à alta volatilidade, essas stablecoins são supercolateralizadas, ou seja, o valor dos ativos digitais mantidos em estoque é superior ao valor das stablecoins emitidas. No caso da DAI, as reservas excedem em 150% o valor das moedas estáveis cunhadas.

Ela é utilizada em peso por um tipo específico de investidor, que é entusiasta da descentralização e prefere negociações peer-to-peer. Um relatório recente do braço cripto da Andreessen Horowitz mostrou que a DAI é a mais usada on-chain como pagamento em comparação com o seu market cap, superando as stablecoins USDT e USDC. Ambas, apesar de líderes de mercado, com volumes de negociações maiores, têm suas movimentações concentradas em exchanges centralizadas, não em trocas ponto a ponto na blockchain.

Existem muitos protocolos que planejam lançar stablecoins próprias e, pelo andamento do mercado, apesar do susto, projetos da modalidade ainda devem pipocar por aí para competir pela atenção dos investidores. Nessa expansão, estão incluídas, claro, as versões algorítmicas, que têm seus críticos, mas também seus admiradores. O importante é que, antes de investir, os fundamentos sejam examinados sem afobação. Prefira sempre optar por estudar antes de optar por qualquer outra coisa.

*Felippe Percigo é um investidor especializado na área de criptoativos, professor de MBA em Finanças Digitais e educa diariamente, por meio da sua plataforma e redes sociais, mais de 100.000 pessoas a investirem no universo cripto com segurança.

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