Marta, diretora de Cyber & Tech Insurance da Howden Brasil
Redatora
Publicado em 8 de junho de 2026 às 19h00.
Marta Helena Schuh costuma dizer que a inteligência artificial é “a nova energia, a nova eletricidade”. A comparação ajuda a dimensionar a mudança, mas também traz um alerta.
Para ela, a IA vai transformar rotinas, automatizar tarefas e fazer empresas “desaprenderem” processos manuais. Ao mesmo tempo, cria uma nova camada de risco que ainda está sendo compreendida por executivos, conselhos e áreas técnicas.
“Não tem como colocar o gênio de volta na lâmpada. Ele já saiu e agora a gente vai ter que lidar com ele”, afirma Marta, diretora de Cyber & Tech Insurance da Howden Brasil.
Reconhecida entre as mulheres mais influentes em cibersegurança nas Américas, Marta atua na quantificação e avaliação de riscos cibernéticos em grandes empresas no Brasil. Seu trabalho consiste em traduzir para a alta liderança o impacto financeiro e operacional de incidentes digitais — de vazamentos de dados à paralisação de sistemas críticos.
A trajetória de Marta começou longe dos grandes centros financeiros. Natural de Horizontina, no Rio Grande do Sul, ela deixou o Brasil ainda jovem, aos 16 anos, após ganhar uma bolsa de estudos na Inglaterra. Por lá, estudou Business e iniciou a carreira em instituições financeiras como AIB e Société Générale, onde teve contato com gestão de riscos.
Foi nesse período que passou a olhar para uma dimensão ainda pouco discutida nas empresas: os riscos intangíveis. “Passei a perceber que dado era um ativo e que muitas vezes a gente não sabia como quantificar esse valor”, diz.
Depois de quase 12 anos na Inglaterra, decidiu voltar ao Brasil em 2014. Na época, ouviu de muita gente que estava fazendo o caminho inverso ao esperado, porém, ela via oportunidade. “Muitas coisas que eu tinha visto lá ainda não estavam sendo implementadas aqui”, ela conta.
No Brasil, passou a estruturar discussões sobre quantificação de riscos digitais e transferência desse risco para o mercado segurador. Desde então, soma mais de uma década atuando na interseção entre tecnologia, cibersegurança, seguros e estratégia corporativa.
O dia a dia de Marta passa por empresas de diferentes setores: instituições financeiras, indústrias, operações portuárias e negócios altamente dependentes de tecnologia. Embora cada organização tenha suas particularidades, os riscos digitais podem ter semelhanças — e impactos profundos.
Parte de seu trabalho é justamente tornar essa resposta compreensível para conselhos, executivos e gestores.
Em momentos de crise, a atuação ganha outra urgência. Marta conta que já foi acionada para apoiar empresas em incidentes capazes de parar operações relevantes, e diz que nessas situações é preciso ajudar a organizar a crise, reduzir danos e acelerar a retomada.
Marta, diretora de Cyber & Tech Insurance da Howden Brasil
“Quando isso acontece, a gente entra para complementar a gestão de crise junto ao cliente. É ser o maestro daquela orquestra que está completamente desorganizada”, Marta traz.
A chegada da inteligência artificial tornou esse cenário ainda mais complexo. Segundo Marta, a tecnologia traz ganhos evidentes de produtividade, mas também novos riscos associados à velocidade, à escala e ao uso pouco estruturado dentro das organizações.
“A IA veio para transformar. Mas, apesar de trazer grandes facilidades, ela traz novos riscos”, afirma.
Para ela, um dos maiores desafios é reconhecer que todos ainda estão aprendendo. “Eu também sou aprendiz nessa jornada em relação à IA. A gente precisa ser humilde para perceber que essa tecnologia vai muito além da percepção que nós temos atualmente da capacidade dela”, conta.
Durante muito tempo, lembra Marta, a tecnologia foi vista apenas como ferramenta de melhoria operacional. Hoje, a percepção mudou. A dependência tecnológica cresceu, e os riscos associados passaram a fazer parte da agenda estratégica.
“Antes, a percepção era que a tecnologia vinha apenas para melhorar. Hoje se entende que existem riscos atrelados a isso”, ela fala.
Foi nesse contexto que Marta buscou o ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, da Saint Paul. O programa é voltado à executivas C-Level, diretoras e mulheres que desejam atuar em conselhos de administração, com formação em governança corporativa, estratégia, riscos, ética, transformação digital, organizações data-driven e inteligência artificial.
Marta diz que procurava uma formação que a conectasse mais diretamente à realidade do empresariado brasileiro. “Eu não queria mais um curso que me desse só percepções na teoria. Eu gostaria de realmente ouvir as pessoas que estão na cadeira e entender na prática”, ela fala.
O programa, segundo ela, funcionou não apenas como uma formação técnica, mas como um processo de crescimento.
Essa experiência também ajudou a ampliar sua leitura sobre o mercado brasileiro. Depois de uma parte importante da carreira no exterior, Marta buscava compreender melhor as diferenças culturais, econômicas e de gestão no país.
Entre os módulos do ABP-W, o internacional foi um dos que mais a marcou. A experiência em Cape Town, na África do Sul, ampliou sua visão sobre governança, vieses culturais e o papel humano das organizações.
“Foi realmente um divisor de águas”, afirma. “Muitas vezes, dentro do empresariado, a gente esquece de olhar para comunidade, para o fator humano. O módulo me fez olhar para questões que vão além da sopa de letrinhas”, Marta complementa.
Para uma executiva que atua cercada por tecnologia, esse ponto é central. A cibersegurança, lembra Marta, não depende apenas de ferramentas, sistemas ou estruturas de proteção. Depende também de cultura, comportamento, liderança e tomada de decisão.
“A tecnologia foi criada para os humanos utilizarem. Então, a gente precisa entender a questão cultural das pessoas, não só para aquilo que é bom para o lado corporativo, mas também para o fator humano”, ela diz.
A frase resume uma parte importante da sua visão sobre liderança: não basta dominar a técnica. É preciso compreender pessoas.
“Bons líderes não são só aqueles que tecnicamente atendem. Eles precisam entender as pessoas, saber liderar as pessoas. Certamente o curso me ajudou a me tornar uma melhor líder”, finaliza.