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Redação Exame
Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 10h00.
Quando o Bitcoin surgiu, em meio à crise financeira global de 2008, ele representou uma ruptura conceitual profunda: não se tratava apenas de uma nova moeda digital, mas de uma crítica estrutural ao modelo de confiança centralizada que sustentava o sistema financeiro.
O blockchain introduziu a possibilidade de registrar valor de forma distribuída, imutável e verificável, sem depender de uma autoridade única. Esse foi o ponto de partida de uma transformação que, à época, parecia restrita ao universo das criptomoedas. Anos depois, o Ethereum ampliou essa visão ao incorporar contratos inteligentes, transformando o blockchain em uma infraestrutura programável.
Ainda assim, durante mais de uma década, o debate público permaneceu concentrado nas criptos, abrindo diálogos sobre preços, ciclos especulativos, promessas de descentralização e conflitos regulatórios. Hoje, porém, o ecossistema entra em uma nova fase de maturidade. A pergunta que passa a orientar o setor não é mais se as criptomoedas sobreviverão, mas o que vem depois delas.
As criptomoedas cumpriram um papel essencial ao provar que a tecnologia funcionava em escala global. Demonstraram que era possível criar ativos digitais escassos, transferíveis e resistentes à censura. No entanto, o próprio amadurecimento do mercado expôs limitações claras desse modelo como eixo central da inovação financeira.
A volatilidade elevada, a dificuldade de integração com sistemas financeiros tradicionais e a insegurança jurídica em muitos mercados restringiram seu uso como base estrutural da economia digital. Isso não significa que as criptos perderam relevância. Elas continuam sendo parte importante do ecossistema.
O foco da inovação, por sua vez, mudou, já que o blockchain deixou de ser vista apenas como o motor de moedas digitais e passou a ser reconhecida como uma infraestrutura tecnológica genérica, capaz de sustentar uma ampla gama de aplicações financeiras, institucionais e corporativas. O centro de gravidade se desloca do ativo especulativo para os sistemas que permitem registrar, transferir e liquidar valor de forma eficiente e confiável.
Isso acontece porque toda tecnologia que atinge maturidade tende a se tornar invisível. Poucos usuários refletem sobre protocolos de rede ao realizar um pagamento digital ou acessar um serviço online. Sendo assim, o mesmo processo começa a ocorrer com o blockchain: em sua próxima fase, ela deixa de ser percebida como um produto isolado e passa a operar nos bastidores, como uma camada estrutural de registro, automação e confiança.
Nesse contexto, o valor do blockchain não está em sua visibilidade, mas em sua capacidade de orquestrar processos complexos de forma segura, auditável e integrada. Registros imutáveis, contratos autoexecutáveis e rastreabilidade contínua passam a ser funcionalidades incorporadas a sistemas financeiros e produtivos. Para o usuário final, pouco importa se há ou não um blockchain por trás da operação; o benefício está em processos mais rápidos, menos custosos e mais confiáveis.
A inflexão mais relevante do ecossistema ocorre quando instituições tradicionais passam a adotar a tecnologia. Bancos, infraestruturas de mercado, seguradoras e grandes empresas não se movem por entusiasmo tecnológico, mas por eficiência operacional, controle de riscos e conformidade regulatória. Quando esses atores entram em cena, o blockchain precisa atender a novos requisitos: interoperabilidade com sistemas legados, governança clara, proteção de dados e capacidade de auditoria.
Esse movimento redefine completamente o papel da tecnologia. O blockchain deixa de ser percebida como uma alternativa ao sistema financeiro e passa a funcionar como infraestrutura complementar. Em vez de substituição, ocorre integração. Sistemas tradicionais e redes distribuídas passam a coexistir, cada um explorando suas vantagens específicas. O resultado é um ecossistema híbrido, no qual inovação e estabilidade caminham juntas. Outra transformação central no “depois das criptos” é a ampliação do conceito de ativo.
Se, no início, o blockchain estava associada quase exclusivamente a moedas digitais nativas, hoje ela é utilizada para representar direitos, obrigações, créditos, garantias e contratos. Esses ativos digitais não surgem para substituir o mundo real, mas para torná-lo mais eficiente, transparente e automatizado. Essa mudança altera profundamente a lógica de mercado. O foco deixa de ser a valorização de um ativo isolado e passa a ser a digitalização de processos.
O blockchain torna-se uma ferramenta para reduzir fricções, automatizar liquidações e melhorar a governança de fluxos financeiros já existentes. Em vez de criar novos mercados puramente especulativos, ela reorganiza mercados tradicionais sob uma lógica digital.
Como perspectiva, o que vem depois das criptos não é uma nova moeda ou protocolo específico, mas um conjunto de características que sinalizam maturidade. Interoperabilidade entre sistemas, confidencialidade de dados, governança clara e regulação como elemento habilitador passam a ser fatores centrais. A inovação deixa de ocorrer à margem do sistema e passa a acontecer dentro dele, em diálogo contínuo com instituições e reguladores.
Essa nova fase exige também uma mudança de mentalidade. Em vez de rupturas totais, o mercado passa a valorizar soluções que se integram ao mundo real. O blockchain assume um papel pragmático: menos discurso disruptivo e mais eficiência estrutural. Para finalizar, as criptomoedas foram o catalisador de uma transformação muito mais ampla. Elas abriram caminho para que o blockchain fosse testada, questionada e aprimorada.
Agora, o futuro da tecnologia não está em sua visibilidade, mas em sua capacidade de se integrar silenciosamente à infraestrutura econômica e institucional. O que vem depois das criptos é um cenário em que o blockchain opera como base de novos sistemas financeiros, conectando inovação tecnológica à realidade regulatória. Um futuro menos barulhento, mas muito mais estrutural — e justamente por isso, mais transformador.
*André Carneiro é CEO da BBChain.
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