Dez anos após o lendário título da Premier League em 2016, as raposas amargam um prejuízo de 71,1 milhões de libras (Eddie Keogh Livepic)
Repórter
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 16h51.
Em campo, a Premier League é a liga que mais teve gastos na janela de contratações nesta atual temporada, com 2,3 bilhões de euros, bem a frente de seus concorrentes, como Itália (815,6 milhões de euros), Alemanha (555 milhões de euros), Espanha (543,1 milhões de euros) e França (382,8 milhões de euros), de acordo com dados do Transfermarkt. Fora das quatro linhas, dois clubes país vivem dias de intensa movimentação.
Nesta sexta-feira, o Liverpool anunciou oficialmente a aquisição de uma participação de investimento no clube por parte de Jeff Bezos, fundador da Amazon. O bilionário norte-americano se juntará a Umit Bhatia, ex-presidente-executivo do Queens Park Rangers, sob o guarda-chuva da aliança "1892 Holdings". A nova aliança, que reúne, ao lado de Bezos, o bilionário brasileiro Eduardo Saverin, cofundador da rede "Facebook", comprará um terço das ações do clube inglês.
Já o Leicester City foi oficialmente colocado à venda por seus proprietários tailandeses, o grupo King Power. Após contratar o Citigroup para buscar compradores, o clube tenta estancar uma forte crise financeira e esportiva.
Dez anos após o lendário título da Premier League em 2016, as raposas amargam um prejuízo de 71,1 milhões de libras e o rebaixamento para a League One (a terceira divisão inglesa). De acordo com o The Athletic , os donos pedem 222 milhões de libras. O valor pedido pelos proprietários está muito acima do que se pagou por clubes do mesmo patamar. Em 2021, o Ipswich Town foi negociado por 40 milhões de libras enquanto disputava a League One, a terceira divisão da Inglaterra.
Na Inglaterra, praticamente todos os grandes clubes do futebol inglês já foram vendidos e operam hoje sob o modelo de corporações controladas por capital estrangeiro, fundos de investimento bilionários ou consórcios multinacionais.
“A nova corrida do futebol inglês deixa claro uma mudança de patamar. O grande capital migrou da compra de jogadores para a compra de participações nos clubes. Com a Premier League batendo recordes de receitas comerciais e atração de investidores globais, o atleta deixa de ser apenas a ponta final do investimento e passa a ser o ativo essencial que sustenta a valorização bilionária dessas instituições”, analisa Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management, empresa que administra a carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo.
"A Premier League vive um momento em que, mesmo com receitas crescentes de patrocínio e direitos de transmissão, os clubes da liga mais rica do mundo enfrentam dificuldades para se manterem lucrativos diante do aumento dos custos operacionais, da inflação salarial e da pressão nos custos exercida pelo já alto, mas ainda crescente alto nível de competitividade esportiva que a Liga apresenta de forma recorrente, ano após ano", afirma Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças no futebol.
Este fenômeno começou a ganhar forma em 2003, quando o magnata russo Roman Abramovich comprou o Chelsea. Desde então, o ecossistema do futebol britânico mudou radicalmente. Hoje, os clubes deixaram de ser associações comunitárias e passaram a ser ativos estratégicos globais.
Os investidores dos Estados Unidos lideram a compra de clubes em Inglaterra, controlando mais de metade das equipas da primeira divisão, casos principais do Manchester United, comprado pela família Glazer em 2005 por cerca de 790 milhões de libras, e do Arsenal, que pertence 100% ao norte-americano Stan Kroenke (através da KSE). Ele iniciou a compra de ações em 2007 e concluiu a aquisição total em 2018.
Já o Chelsea, após as sanções impostas a Abramovich, foi vendido em 2022 ao consórcio liderado pelo norte-americano Todd Boehly e pelo fundo Clearlake Capital por 4,25 mil milhões de libras.
Outros clubes sob gestão dos EUA são Aston Villa (V Sports), Fulham (Shahid Khan), Bournemouth (Bill Foley) e Crystal Palace (que conta com John Textor como um dos principais acionistas).
"A corrida por participações societárias na Premier League sinaliza que o futebol superou o modelo tradicional de liga para se consolidar como uma plataforma global de entretenimento. Os grandes investidores não estão comprando apenas a tradição de campo, mas sim o poder de atração de público, a força da marca e a capacidade de gerar receitas comerciais e de mídia recordes", declara Veridiano Pinheiro, Diretor Executivo da FutPro Expo.
Outra mudança de patamar financeiro mais agressiva ocorreu com a entrada de fortunas vindas do Médio Oriente, elevando os clubes ao estatuto de ferramentas geopolíticas.
O Manchester City transformou-se numa potência global após ser vendido em 2008 ao Sheikh Mansour, membro da família real dos Emirados Árabes Unidos, que gere o clube através do City Football Group.
Já o Newcastle, em 2021, foi comprado pelo Public Investment Fund (PIF), o fundo soberano da Arábia Saudita, tornando-se instantaneamente um dos clubes mais ricos do planeta.