Lionel Messi e Cristiano Ronaldo movimentam bilhões de dólares com suas presenças dentro de campo. (Reprodução) (Instagram/Reprodução)
Redator na Exame
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 15h26.
RESUMO | A permanência em atividade de Cristiano Ronaldo e Messi na reta final de suas carreiras não é apenas uma escolha pessoal, mas uma exigência de um ecossistema bilionário de direitos de transmissão e patrocínios, enquanto ambos perseguem a marca histórica dos 1.000 gols oficiais.
O futebol contemporâneo opera sob uma lógica na qual o valor de mercado de um atleta de elite ultrapassa as quatro linhas do gramado. A permanência em atividade de figuras geracionais como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi deixou de ser apenas uma escolha pessoal fundamentada na paixão pelo esporte. Trata-se de uma exigência estrutural de um ecossistema financeiro global que movimenta dezenas de bilhões de dólares anualmente.
Marcas globais, detentores de direitos de transmissão, ligas nacionais em expansão e plataformas de apostas e entretenimento estruturaram seus modelos de negócio em torno da presença física desses atletas em campo. O término de suas carreiras representa um risco direto de desvalorização de ativos, quebrando contratos e acordos de licenciamento de imagem que sustentam tanto clubes quanto competições inteiras ao redor do planeta.
Essa dependência financeira cria um descompasso evidente entre a biologia e as exigências do capital esportivo. Enquanto a idade avançada impõe limitações físicas naturais, a engrenagem corporativa do esporte pressiona pela continuidade da exposição do atleta, transformando o ocaso de suas carreiras em um processo de desgaste gerido por obrigações contratuais e cifras astronômicas.
A transferência de Lionel Messi para a Major League Soccer (MLS) e a ida de Cristiano Ronaldo para a Saudi Pro League ilustram a simbiose comercial entre o atleta em reta final de carreira e ligas emergentes. Nos Estados Unidos, a chegada de Messi à franquia Inter Miami em 2023 redesenhou o modelo financeiro da liga norte-americana por meio de acordos diretos com a Apple — detentora do pacote global de transmissão via Apple TV — e com a Adidas.
O contrato estipulou que parte do rendimento financeiro do jogador está vinculada diretamente ao crescimento de assinantes da plataforma de streaming e à comercialização de material esportivo, gerando um salto no faturamento operacional da competição.
De forma análoga, o desembarque de Cristiano Ronaldo no Al Nassr funcionou como parte de uma estratégia estatal de reposicionamento econômico na Arábia Saudita. O contrato do português, avaliado em cerca de 200 milhões de euros anuais (aproximadamente R$ 1,22 bilhão), remunera o papel de embaixador global e alavanca os direitos de transmissão da Saudi Pro League para dezenas de territórios internacionais.
Nesse modelo de negócio, a interrupção da carreira de qualquer um dos dois atletas acionaria perdas de incentivos comerciais que afetam o balanço financeiro de corporações multinacionais. A indústria do entretenimento esportivo carece, no curto prazo, de substitutos capazes de gerar o mesmo retorno de atenção midiática e conversão de receitas, criando uma pressão sistêmica para que permaneçam em campo.
Os contratos de transmissão de grandes torneios internacionais e ligas nacionais são precificados com base em projeções de audiência que despencam na ausência de astros globais. Os detentores de direitos de TV operam com margens apertadas e dependem de jogos de alto apelo comercial para atrair anunciantes e manter assinantes em pacotes pay-per-view.
Quando ligas como a MLS ou a Saudi Pro League negociam pacotes globais de exibição embalados pela narrativa da busca por esses recordes milenares, a presença de Messi e Cristiano Ronaldo funciona como cláusula de garantia de valor de mercado (floor value).
A saída desses atletas sem um sucessor de equivalente apelo midiático resulta em renegociações contratuais com deságios severos na renovação de direitos, penalizando diretamente o fluxo de caixa das equipes.
Além da motivação pessoal por recordes, há uma forte pressão de ligas, patrocinadores e detentores de direitos de transmissão que dependem da presença deles para manter faturamentos multibilionários.
A perseguição à marca histórica de 1.000 gols oficiais atua como o principal combustível esportivo e midiático que justifica a continuidade de suas carreiras em alto nível.
A chegada de Messi ao Inter Miami impulsionou diretamente os contratos globais de streaming com a Apple e a venda de produtos licenciados pela Adidas.
O clube e o governo saudita utilizam o astro como embaixador global para valorizar os direitos de transmissão da liga nacional e atrair investimentos internacionais.