Yellen: sem empresas, países serão incapazes de cumprir metas climáticas

Durante a Cúpula do Clima, líderes afirmaram que capital privado é necessário para acelerar a transição verde, especialmente em países em desenvolvimento
Janet Yellen, secretária do Tesouro dos Estados Unidos: país trabalha em parceria com G20 para faciltar investimentos verdes (Christopher Aluka Berry/Reuters)
Janet Yellen, secretária do Tesouro dos Estados Unidos: país trabalha em parceria com G20 para faciltar investimentos verdes (Christopher Aluka Berry/Reuters)
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Maria Clara Dias

Publicado em 22/04/2021 às 13:53.

Última atualização em 22/04/2021 às 14:04.

A ação efetiva de empresas e injeções de capital consideráveis para acelerar os planos de transição climática são essenciais para que o mundo alcance de fato a neutralidade em carbono, afirmou Janet Yellen, secretária do Tesouro dos Estados Unidos, durante a cúpula do clima, encontro mundial convocado pelos Estados Unidos, que acontece nesta quinta-feira, 22, e sexta-feira, 23, e reúne quase 40 chefes de Estado por videoconferência.

Yellen já havia afirmado publicamente que o comprometimento financeiro de empresas será fundamental para que os Estados Unidos alcancem as metas climáticas dentro da próxima década, conforme relatou o jornal americano The New York Times. Agora, a secretária defendeu a “colaboração pública” para a criação de novos mecanismos de incentivo a investidores que miram projetos de infraestrutura verde e energias renováveis. Do contrário, segundo ela, os Estados Unidos, bem como outras nações, serão incapazes de atingir as metas de redução de emissões até 2030 e neutralidade em carbono até 2050.

O debate envolveu também o enviado especial para o clima dos Estados Unidos, John Kerry; o diretor do Conselho Econômico dos Estados Unidos, Brian Deese e Kristalina Georgieva, diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Yellen defendeu o investimento massivo em soluções climáticas, e ressaltou que é de interesse coletivo o financiamento para uma transição verde em países em desenvolvimento. O desafio, porém, é conciliar a missão de nações para a redução das emissões — ao mesmo tempo que enfrentam desafios econômicos (como o da covid-19) com a obrigação de governos em criar mecanismos capazes de atrair investimentos dos principais representantes do setor privado.

Um novo plano de ação para estreitar as informações climáticas divulgadas por companhias em seus balanços financeiros está sendo elaborado pelo governo democrata, disse Yellen. “Vamos focar na gama completa de nossas ferramentas e experiência para criar respostas concretas e inovadoras para essas questões”, disse. Segundo Yellen, a Secretaria do Tesouro também solicitou um montante de 1,2 bilhão de dólares do orçamento nacional para a composição do Green Climate Fund em 2022.

Kerry afirmou que governos, por conta própria, não serão capazes de atingir o valor necessário para essa transição. “Temos uma lacuna de financiamento em esforços climáticos que irá de 1 trilhão a 2 trilhões de dólares por ano, até o ano de 2030”, disse. “Nenhum governo no mundo é capaz de colocar esse financiamento em prática”.

O czar defendeu mudanças efetivas nos custos de implementação e também nos mecanismos oferecidos para países em desenvolvimento, especialmente aqueles mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas. O argumento foi defendido pelo primeiro-ministro da Jamaica,  Andrew Holness, que afirmou que o preço de 5 dólares por toneladas de carbono, por exemplo, não é “justo ou realista”. Holness foi um dos quatro líderes convidados para o painel, junto do presidente do Congo, Félix Tshisekedi; do presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, e da primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern.

A demanda por produtos financeiros que recebem o selo “verde” está crescendo, à medida que títulos green bonds se tornam mais populares mundialmente. O desafio, porém, está na inconsistência das informações, o que torna mais difícil a decisão de investidores por ativos sustentáveis.

Uma economia mais verde, segundo Yellen, depende diretamente de informações mais transparentes do setor financeiro. Yellen também citou a parceria com o G20 para a criação de novos critérios para a divulgação de informações sustentáveis para atrair novos investimentos em projetos de infraestrutura nos países que compõem o bloco econômico.

O desejo dos Estados Unidos é de se reafirmar como líder global no assunto. Para além da cúpula climática, Biden reforça o interesse ao estabelecer, recentemente, uma nova taxação para carbono, com valor sete vezes superior ao imposto pela gestão do ex-presidente Donald Trump. Com a valorização do ativo, torna-se mais fácil incentivar investidores a abandonar ativos ligados a combustíveis fósseis — algo visto como ponto-chave para destravar a economia limpa global.

Contexto brasileiro

Em ação simultânea aos debates da Cúpula do Clima, um grupo de 49 empresas anunciou hoje, 22, a mobilização de 12,7 bilhões de reais para a preservação ambiental do Brasil até o final de 2021. O movimento, coordenado pela Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham), envolve companhias de diversos países, como Estados Unidos, Brasil, Alemanha e México, que juntas mobilizam mais de 82 ações de preservação e defesa do meio ambiente.

 

Entre as brasileiras está a processadora de açúcar e etanol Raízen, que desenvolveu uma tecnologia para produção de etanol de segunda geração (feito a partir do bagaço e palha da cana-de-açúcar). O novo processo, segundo a empresa, reduz a emissão de carbono em até 30%. Na lista também está a Cargill, que investe em programas de proteção e monitoramento da cadeia de abastecimento de soja no Cerrado.

Outras empresas como ADM, AES Brasil, Claro, Cosan, Duratex, Grupo Carrefour Brasil, JBS, KPMG, Marsh, Reservas Votorantim, Sabin, Santander, Siemens e UBS Banco Brasil também fazem parte do movimento, chamado de “Brasil pelo Meio Ambiente”.