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Primeiro turno das eleições acontece em 4 de outubro (Ricardo Stuckert/PR/Agência Senado/Montagem/Flickr)
Repórter de ESG
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 09h00.
Última atualização em 19 de setembro de 2026 às 09h20.
A menos de um mês do primeiro turno das eleições de 2026, a crise climática ainda ocupa um espaço limitado nos planos de governo dos candidatos à Presidência mais bem posicionados nas pesquisas.
É o que revela uma análise do Observatório do Clima, ao mostrar que apenas um dos seis avaliados apresenta propostas consideradas robustas para clima e meio ambiente.
O levantamento examinou os programas de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, candidatos que registram mais de 1% das intenções de voto.
A organização avaliou 28 temas da agenda socioambiental, distribuídos por oito eixos: mudanças climáticas, energia, desmatamento, proteção de povos e comunidades tradicionais, agricultura sustentável, mineração e infraestrutura, governança ambiental e climática e oceano e zona costeira.
O programa de Lula foi classificado como "o mais consistente na área", com 16 compromissos positivos e detalhados no documento. No outro extremo, o plano de Flávio Bolsonaro reúne apenas um compromisso positivo e sete propostas classificadas pelo Observatório como antiambientais.
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Segundo a organização, a análise considerou não apenas o conteúdo apresentado à Justiça Eleitoral, mas também a atuação política anterior dos candidatos. A comparação, portanto, confronta as promessas de campanha com decisões, projetos e medidas adotadas por eles no exercício de cargos públicos.
“Clima e meio ambiente têm uma atenção muito aquém do necessário”, afirma Suely Araujo, coordenadora de Políticas Públicas do OC. Para a especialista, a exceção é o plano do atual presidente, embora existam pontos de preocupação na área de energia.
Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, complementou que a agenda ficou mais evidente no país desde a última eleição, principalmente depois das enchentes históricas no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia.
“Assim, é lamentável ver como alguns candidatos simplesmente ignoram o assunto em seus planos de governo ou, pior, chegam até mesmo a negar a existência das mudanças climáticas", afirma.
Entre os seis programas analisados, somente o de Lula menciona expressamente o cumprimento da meta climática brasileira, conhecida como NDC, e o Acordo de Paris.
O documento dedica um capítulo à pauta ambiental e dá destaque à adaptação climática, com propostas para torná-la um eixo permanente do planejamento público, preparar estados e municípios para o calor extremo e aprimorar a prevenção e a resposta a desastres.
O plano também propõe fortalecer a Defesa Civil, ampliar a segurança hídrica, proteger mananciais e criar protocolos para populações afetadas ou deslocadas por eventos extremos. Na mitigação, cita a NDC brasileira, que estabelece redução de 59% a 67% das emissões líquidas até 2035, além de instrumentos de financiamento como o Fundo Clima e o Ecoinvest.
Na avaliação do Observatório, porém, o programa apresenta uma contradição na política energética. Ao mesmo tempo que defende fontes renováveis, eletrificação do transporte público e substituição gradual dos combustíveis fósseis por biocombustíveis, o texto exalta recordes de produção de petróleo e gás e propõe investimentos em refino, campos maduros e infraestrutura de gás natural.
O programa ainda prevê zerar o desmatamento líquido até 2030, fortalecer a fiscalização e ampliar iniciativas de agricultura de baixo carbono. O OC chama atenção para o uso da palavra “líquido”, por não ficar claro qual nível de perda de vegetação nativa poderia ser compensado. Outro ponto e atenção é a falta de uma agenda estruturada para oceanos e zonas costeiras e de menções a justiça climática e racismo ambiental.
Já o plano de Flávio Bolsonaro contém um capítulo sobre meio ambiente, mas não menciona a crise climática, a NDC brasileira nem o Acordo de Paris. Também não estabelece metas de redução de emissões ou políticas de adaptação, segundo o levantamento.
Na energia, o documento propõe ampliar a infraestrutura de petróleo e gás, modernizar o refino, expandir o escoamento do gás do pré-sal e liberar o fraturamento hidráulico, conhecido como fracking. Para o Observatório, essas medidas ampliariam a dependência de combustíveis fósseis.
O candidato promete zerar o desmatamento ilegal até 2029. A análise ressalta, no entanto, que a meta não abrange a supressão de vegetação autorizada pela legislação e contrasta com a atuação parlamentar de Flávio Bolsonaro, que foi coautor de uma proposta para retirar a obrigatoriedade de reserva legal em imóveis rurais.
O plano traz medidas consideradas positivas pelo OC, como a consolidação do Cadastro Ambiental Rural e incentivos à biomassa no Plano Safra.
Por outro lado, não apresenta uma política para reduzir as emissões da agropecuária e propõe conceder automaticamente licenças ambientais quando o órgão responsável não decidir dentro do prazo, uma previsão que, segundo a análise, contraria a legislação atual.
O programa de Augusto Cury reconhece as mudanças climáticas e apresenta propostas ligadas à prevenção de enchentes, infraestrutura resiliente, seguro rural e modelagem climática.
O Observatório considera, contudo, que essas medidas estão dispersas e não formam uma estratégia nacional vinculada ao Plano Clima, à NDC ou ao Acordo de Paris.
Na área energética, Cury propõe transformar o Brasil na “maior potência mundial em energia limpa”, colocar o país entre os três maiores exportadores de hidrogênio verde até 2035 e alcançar uma matriz energética 90% limpa até 2040.
O documento não estabelece, porém, uma trajetória para a redução dos combustíveis fósseis e prevê zonas industriais voltadas a petróleo, gás e petroquímica.
O plano também inclui agricultura de precisão, bioinsumos, integração lavoura-pecuária-floresta e recuperação de áreas degradadas.
Na leitura da organização, faltam metas de redução do desmatamento, instrumentos de implementação, fontes de financiamento e uma estrutura clara de governança ambiental.
O programa de Renan Santos não menciona a agenda climática nem apresenta metas de redução de emissões, políticas de adaptação ou referências à NDC, ao Acordo de Paris e ao Plano Clima. Também não estabelece uma estratégia de combate ao desmatamento.
Na energia, o documento propõe ampliar a transmissão elétrica, explorar o hidrogênio verde, retomar Angra 3 e estudar a fusão nuclear. Ao mesmo tempo, prevê um polo petroquímico abastecido por gás natural, sem definir metas ou prazos para reduzir o uso de combustíveis fósseis.
O plano defende a expansão da mineração e da infraestrutura e propõe criar um marco para exploração mineral em terras indígenas.
Segundo a análise, o texto não estabelece salvaguardas como consulta livre, prévia e informada às populações afetadas. Também sugere ampliar o uso do licenciamento ambiental especial para acelerar "projetos considerados estratégicos".
Ronaldo Caiado reconhece que as mudanças climáticas intensificam secas, enchentes, ondas de calor, incêndios e perdas agrícolas. Seu plano apresenta medidas de adaptação e prevenção de desastres, mas não estabelece metas de redução de emissões nem menciona a NDC brasileira ou o Acordo de Paris.
O documento defende energias renováveis, biocombustíveis e eletrificação do transporte público. Em paralelo, trata o petróleo como “pilar da matriz” e o gás natural como “motor da indústria”, com propostas para abrir novas fronteiras de exploração e ampliar a infraestrutura de gás e de refino.
Entre os pontos positivos identificados pelo OC estão a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária-floresta, o combate à grilagem e ao garimpo ilegal e medidas de rastreabilidade na mineração.
A organização aponta como fragilidades a ausência de prazo para zerar o desmatamento e o tratamento do licenciamento ambiental principalmente sob a ótica de tempo, custo e previsibilidade.
Romeu Zema reconhece que o Brasil está exposto a eventos climáticos extremos e propõe atrair investimentos privados para obras de contenção, monitoramento e resposta a desastres.
Para o Observatório, entretanto, o plano não esclarece como essas medidas seriam implementadas e não menciona NDC, Acordo de Paris, Plano Clima, justiça climática ou racismo ambiental.
A análise também contrapõe as propostas ao histórico do candidato em Minas Gerais. Segundo o documento, os recursos estaduais destinados à prevenção dos impactos das chuvas caíram 96% entre 2023 e 2025, de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões.
Na energia, Zema defende leilões regulares para exploração de petróleo e gás e a ampliação das exportações, além de incentivos a energia limpa, biocombustíveis e hidrogênio verde.
O plano propõe ainda acelerar licenciamentos para obras estratégicas, simplificar procedimentos ambientais e eliminar o que chama de restrições e burocracias que limitam investimentos.
Para o OC, a ênfase na flexibilização de regras não é acompanhada por propostas de fortalecimento dos órgãos ambientais ou por salvaguardas socioambientais para os projetos de infraestrutura e mineração.
Em nota, o Observatório informou que enviou as análises às coordenações das seis campanhas e se colocou à disposição dos candidatos para contribuir com o aprimoramento das propostas sobre clima e meio ambiente.