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De reciclagem a agrofloresta: como a Heineken faturou R$ 560 milhões com negócios de impacto

Criado há dois anos com investimento inicial de R$ 150 milhões, ecossistema reúne marcas, energia renovável e circularidade. “É uma operação financeiramente sustentável”, diz VP à EXAME

Rafael Rizzi, vice-presidente do Grupo HEINEKEN: “Quanto maior o impacto, maior o retorno para o ecossistema" (Divulgação)

Rafael Rizzi, vice-presidente do Grupo HEINEKEN: “Quanto maior o impacto, maior o retorno para o ecossistema" (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 18 de setembro de 2026 às 14h00.

Última atualização em 19 de setembro de 2026 às 08h35.

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Ser uma das maiores compradoras e vendedoras de embalagens de vidro do Brasil colocou o Grupo Heineken diante de um dilema que precisava de solução: parte das garrafas termina nas ruas, praias e aterros ou é descartada de forma inadequada após grandes eventos, em uma cadeia na qual a reciclagem ainda enfrenta entraves econômicos e logísticos.

Foi a partir de desafios como esse que a gigante de bebidas começou a estruturar o HEINEKEN Spin, ecossistema de negócios de impacto lançado em maio de 2024. A proposta é desenvolver operações que enfrentem problemas ambientais e sociais, mas que também gerem receita e consigam se sustentar sem depender continuamente de novos aportes. 

“Nascemos com a missão de ser parte da solução, e não do problema”, afirma Rafael Rizzi, que assumiu em junho de 2026 a vice-presidência de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos do Grupo HEINEKEN e lidera a iniciativa, em entrevista exclusiva à EXAME.

Criado com um investimento inicial de R$ 150 milhões, o ecossistema acumulou mais de R$ 560 milhões em faturamento nos primeiros dois anos.

O valor representa a receita conjunta das diferentes operações, e não o lucro. A companhia não abre o resultado líquido, mas afirma que todas as frentes já atingiram o ponto de equilíbrio e que a operação se consolidou como lucrativa.

Para o VP, o diferencial do Spin em relação a um projeto tradicional de sustentabilidade está na formação de um ecossistema em que uma frente ajuda a financiar a outra.

Negócios com retorno mais rápido sustentam iniciativas de longo prazo, enquanto parceiros alimentam o ecossistema da HEINEKEN, estruturado em quatro pilares: marcas de impacto, circularidade, energia renovável e agricultura regenerativa.

Um quinto pilar, ainda mantido em sigilo, está em desenvolvimento e deverá ser anunciado pela companhia em breve.

“Se eu faço um projeto de apoio à reciclagem, quanto maior o volume reciclado, mais caro ele fica. Se é um negócio, acontece o contrário: quanto mais volume reciclado, mais eu ganho. Todo mundo ganha", exemplifica Rizzi.

A lógica do ecossistema também envolve dividir responsabilidades. Enquanto a HEINEKEN contribui com escala, estrutura comercial e acesso aos pontos de venda, os parceiros trazem sua expertise.

++ Leia mais: Sem água, sem cerveja: como uma fábrica da Heineken virou uma das mais eficientes do mundo

“Cada um coloca aquilo que tem de melhor, sua fortaleza e seu talento. A gente sabe que não consegue fazer nada sozinho”, afirma o VP.

De onde vêm os R$ 560 milhões?

Embora reúna operações em diferentes estágios de maturação, o Spin tem hoje nas marcas de impacto sua principal fonte de faturamento.

Baer Mate, Mamba Water e Praya triplicaram de faturamento nos últimos dois anos e ampliaram sua distribuição de 10 mil para mais de 60 mil pontos de venda.

O crescimento foi impulsionado pela estrutura comercial e logística da HEINEKEN, presente em aproximadamente 1 milhão de estabelecimentos no país.

Essa capilaridade permitiu acelerar a distribuição das bebidas e ampliar o portfólio com lançamentos como a Praya Lager Sem Glúten e a Mamba Water Protein, suplemento alimentar líquido com 20 gramas de proteína de colágeno e BCAAs.

Segundo Rizzi, as marcas são atualmente o principal motor financeiro do ecossistema e ajudam a financiar iniciativas que precisam de mais tempo para apresentar retorno.

O impacto também acompanha a expansão comercial. A Praya mantém a plataforma Proteja Sua Praya, que apoia o Programa Brasileiro de Reservas de Surf em São Paulo, Espírito Santo, Santa Catarina e Alagoas. As ações já mobilizaram mais de 1.300 voluntários e removeram mais de duas toneladas de resíduos de praias, rios e restingas.

A Mamba Water, por sua vez, atua na ampliação do acesso à água potável. Para cada lata vendida, a marca se compromete a disponibilizar um litro de água a comunidades com acesso limitado ao recurso.

Desde o início do projeto, mais de 51,8 milhões de litros foram disponibilizados, com impacto sobre quase 4 mil pessoas no Ceará, no Pará e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

“Não fazemos uma doação pontual com um caminhão-pipa. Instalamos uma estação de tratamento e essa estrutura fica por pelo menos dez anos na comunidade, gerando água para aquela população”, explica o executivo.

Uma agrofloresta é a principal aposta 

Embora energia e reciclagem já gerem retorno financeiro mensal, é na agricultura regenerativa que a HEINEKEN concentra uma de suas principais apostas de longo prazo.

A diferença está no tempo de maturação: enquanto a venda de energia e a reinserção do vidro na cadeia produzem receita desde as primeiras operações, uma floresta precisa de anos para crescer e começar a gerar resultados.

É nesse intervalo que a retroalimentação do ecossistema fica mais evidente. Parte dos recursos gerados pelas frentes mais maduras é direcionada ao HEIFOREST, projeto de agrofloresta desenvolvido em parceria com a empresa Rizoma no entorno da cervejaria da companhia em Itu, no interior de São Paulo.

“A floresta só vai dar retorno daqui a cinco anos. Depois, esse lucro poderá ser reinvestido em outras frentes. Por isso é um ecossistema”, acrescenta o VP.

A iniciativa prevê a restauração de mais de 800 hectares anteriormente ocupados por pastagens e plantações de cana-de-açúcar. Até agora, mais de 65 espécies arbóreas foram plantadas em uma área superior a 600 hectares.

Floresta da Heineken na Fábrica de Itu

O sistema também inclui o cultivo orgânico de limão, que deverá ser comercializado e gerar receita para a operação.

O principal benefício ambiental esperado é favorecer a recarga hídrica de Itu, região historicamente marcada pelo estresse hídrico. Para a Heineken, a proteção do recurso também está diretamente ligada à sobrevivência do negócio.

“Precisamos ter água para produzir cerveja”, afirma o executivo.

O projeto também deverá contribuir para a remoção de carbono. A companhia estima que a iniciativa poderá evitar aproximadamente R$ 53 milhões em gastos com compensação de emissões ao longo de 20 anos e gerar até R$ 37 milhões em benefícios econômicos. 

Como o vidro volta para a cadeia

Se as marcas concentram a maior parcela do faturamento, a circularidade oferece o exemplo mais concreto de como a companhia pretende transformar um problema ambiental em uma operação economicamente sustentável.

Por meio do projeto HEINEKEN Glass, a empresa recolhe embalagens em pontos de consumo e encaminha o material para centros nos quais o vidro é separado por cor, limpo, triturado e consolidado em grandes volumes. Os cacos são então vendidos às vidreiras, podendo virar novas garrafas.

Desde o início, mais de 9,5 mil toneladas de vidro foram coletadas, o equivalente a 47,5 milhões de garrafas long neck de 250 mililitros reintegradas à cadeia produtiva.

A operação não recebe somente embalagens das marcas do grupo. Segundo Rizzi, o objetivo é recuperar o vidro independentemente do fabricante e aproveitar a posição de privilégio ocupada pela companhia entre bares, cooperativas, operadores logísticos e vidreiras.

“Entendemos que podemos olhar para a cadeia como um todo. Tenho o bar, que é meu cliente, e a vidreira, que é minha parceira. Faltava fechar o elo entre o consumo e a volta desse vidro para a produção”, afirma.

Nesse processo de reciclagem, a Heineken entra com o acesso aos pontos de venda e o relacionamento com as fabricantes de embalagens, enquanto parceiros especializados ficam responsáveis por etapas como coleta, transporte e comercialização do vidro.

Como a energia renovável já dá retorno

A frente de energia também já apresenta resultado positivo e combina geração eólica com o fornecimento de eletricidade produzida em usinas solares.

O ecossistema conta com um parque eólico com 14 geradores e capacidade de gerar cerca de 28 megawatts de energia e o programa Heineken Energia Verde, em que a marca viabiliza a conexão entre a oferta e a demanda de energia, com parceiros como a Ultragaz.

Desde a criação do Programa Heineken Energia Verde, mais de 190 milhões de quilowatts-hora foram entregues. Segundo a companhia, a adesão ao programa já proporcionou uma economia estimada de R$ 37 milhões nas contas de luz dos participantes.

“Energia e reciclagem já estão no azul, mas ainda têm uma relevância menor do que as marcas. A agricultura está de acordo com o plano, mas sempre teve um prazo mais longo, pelo próprio tempo da natureza”, explica o VP.

Modelo pode ser replicado em outros mercados

Idealizado no Brasil em 2023 e lançado no ano seguinte, o Spin já despertou o interesse de operações da empresa em outros países. Ainda não há uma expansão internacional definida, mas a Heineken afirma ter realizado conversas sobre a possibilidade de aproveitar partes do modelo em outros mercados.

“A ideia e a implementação vieram do Brasil. Já tivemos conversas com outros países interessados, mas, por enquanto, é um projeto nosso. Pode haver algo no futuro”, diz o executivo.

No país, além do quinto pilar ainda não divulgado, a companhia avalia incorporar novos projetos às quatro frentes existentes e criar outras áreas de atuação.

O plano é crescer sem abandonar a premissa que deu origem ao ecossistema: fazer com que o retorno financeiro mantenha os negócios em movimento e amplie o impacto produzido por cada um.

“Queremos estabelecer negócios que resolvam o problema, mas que andem e tenham vida própria, além de serem economicamente sustentáveis. Senão, em qualquer cenário de crise, vai faltar dinheiro e ele não vai para a frente”, conclui o VP.

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