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United Way dribla desgaste do ESG e aposta no Brasil para ampliar impacto

Organização com quase 14 décadas trabalha a primeira infância e juventude sem aplicar receita pronta para diferentes mercados. À EXAME, CEO e VP globam contam mais da estratégia que norteia a operação no Brasil

United Way: Aos 25 anos no país, a operação brasileira ganha peso numa rede que tenta equilibrar escala global e respostas locais

United Way: Aos 25 anos no país, a operação brasileira ganha peso numa rede que tenta equilibrar escala global e respostas locais

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 10 de agosto de 2026 às 17h42.

Última atualização em 11 de agosto de 2026 às 10h00.

Em um momento em que expressões ligadas a sustentabilidade passaram a enfrentar resistência em parte do ambiente político e empresarial, a United Way, organização de impacto social, diz perceber uma mudança menos no trabalho desenvolvido pelas empresas e mais na maneira como essas iniciativas são apresentadas.

“ESG e DEI são termos que passaram a ser malvistos agora”, afirmou Sonya Anderson, vice-presidente executiva da Rede Internacional da United Way, durante conversa com a EXAME em São Paulo. DEI é a sigla em inglês para diversidade, equidade e inclusão.

A discussão impacta a atuação da United Way, rede internacional de organizações comunitárias presente em 35 países e com mais de 1,1 mil unidades locais. Criada há 139 anos em Denver, Colorado, a organização concentra seus programas em educação e oportunidades para jovens, saúde e bem-estar, segurança financeira e resiliência das comunidades, frente que inclui respostas a desastres e ações relacionadas a clima e meio ambiente.

No Brasil, a organização acaba de completar 25 anos, motivo principal da visita das líderes da organização. Aqui, o foco está principalmente na primeira infância e na inclusão de jovens no mercado de trabalho.

Segundo Anderson, a reação dos parceiros corporativos tem seguido dois caminhos. Enquanto algumas organizações recuaram de iniciativas associadas diretamente a essas agendas, outras optaram por manter programas semelhantes, mas deixaram de utilizar os mesmos rótulos.

“Alguns dizem: ‘Não podemos mais considerar isso como parte da nossa estratégia’. Outros dizem: ‘Vamos continuar fazendo esse trabalho como parte das nossas prioridades estratégicas, mas não vamos chamá-lo por esses nomes’”, disse.

Nesse cenário, a United Way tem buscado tornar mais explícita, na relação com parceiros corporativos, a conexão entre investimento social, dados e resultados empresariais. Para Anderson, empresas que pretendem contar com trabalhadores qualificados e preparados para tomar decisões, por exemplo, precisam considerar os investimentos necessários para a formação dessa mão de obra.

A estratégia passa por reduzir a dependência de argumentos baseados apenas em compromissos institucionais e apresentar os programas a partir das necessidades identificadas em cada território. “É menos sobre sentimentos, menos sobre quem você acha que merece, e mais sobre onde está a maior necessidade.”

A organização afirma não ter identificado, ao menos em sua rede internacional, uma ruptura significativa de relações corporativas provocada pelo afastamento público de empresas em relação a agendas de diversidade.

O cenário, no entanto, levou a United Way a repensar como apresenta seus projetos a financiadores. Uma das expressões usadas internamente é “do well and do good”, ou conciliar resultados de negócio e impacto social.

“Isso nos levou a pensar muito mais cuidadosamente sobre como falamos desse trabalho”, afirmou Anderson.

Uma rede global com decisões locais

A United Way estrutura sua atuação em quatro frentes: oportunidades para jovens, comunidades saudáveis, segurança financeira e resiliência comunitária. Esta última inclui a resposta a emergências e desastres e passou a incorporar também iniciativas ligadas a meio ambiente e clima.

Apesar da estrutura global, a definição sobre quais problemas enfrentar é descentralizada.

“O ponto central é: do que essa comunidade precisa?”, afirmou Rosie Allen-Herring, presidente e CEO interina da United Way Worldwide. “A atuação é muito adaptada às necessidades de cada comunidade específica.”

A lógica também determina como os programas são distribuídos entre as regiões.

Na América Latina, onde a organização está presente em 11 países, além de três no Caribe, há maior concentração de iniciativas ligadas ao acesso e à qualidade da educação e à primeira infância. Na Europa, segundo Anderson, o trabalho tende a se concentrar mais no ensino fundamental e médio. Na Ásia, tecnologia e inovação aparecem com mais frequência nos programas educacionais.

O Brasil ocupa uma posição particular nessa divisão. Além da primeira infância, a operação brasileira desenvolve projetos voltados a jovens em situação de vulnerabilidade e com menor acesso ao mercado de trabalho.

No Brasil, primeira infância e juventude se encontram

A United Way chegou ao Brasil há 25 anos, criada a partir de um grupo formado por brasileiros e americanos. A missão estabelecida para a operação local foi gerar oportunidades para as novas gerações.

O foco em primeira infância e inclusão de jovens no mundo do trabalho não é casual, segundo Gabriella Bighetti, CEO da United Way Brasil. Para ela, são períodos decisivos do desenvolvimento humano e que ainda recebem menos investimentos e cobertura de políticas públicas do que o necessário.

Os dois grupos também se cruzam do ponto de vista social. Na primeira infância, segundo Bighetti, parte importante das crianças atendidas vive em famílias lideradas por mulheres negras, muitas delas responsáveis sozinhas pelos filhos e pela casa.

Entre os jovens fora do mercado de trabalho e sem formação, a organização também encontra predominantemente jovens negros.

A separação entre os programas, portanto, é mais institucional do que familiar.

“Na vida real, a jovem que está desempregada também pode ser a mãe da criança de zero a seis anos”, afirmou Bighetti. “Então, focamos nessas pessoas e entendemos que cuidar de quem cuida e cuidar da criança ao mesmo tempo é muito poderoso para conseguirmos tirar aquela família da extrema pobreza.”

A operação brasileira adota ainda um modelo diferente do encontrado em parte do investimento social privado no país.

A United Way Brasil faz parte do GIFE, Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, mas não está vinculada a uma única organização. Funciona como uma associação formada por diferentes organizações e pessoas físicas.

Hoje, segundo Bighetti, cerca de 250 instituições e 3 mil pessoas fazem parte da United Way no país. “Não há uma empresa com um interesse empresarial específico, ou uma família com um interesse próprio”, afirmou. “Estamos reunidos em torno desse interesse comum.”

Brasil entra em projetos globais

Dentro da rede internacional, a United Way considera a operação brasileira uma das mais consolidadas. O país participa de um consórcio global relacionado ao desenvolvimento de oportunidades para jovens e também integra projetos multinacionais financiados por parceiros corporativos.

A organização também incluiu o Brasil em uma pré-proposta apresentada ao Departamento de Estado dos Estados Unidos para apoiar trabalhos relacionados à primeira infância.

“Praticamente sempre que temos uma oportunidade em que queremos reunir vários países, vamos procurar o Brasil”, afirmou Anderson.

Segundo a executiva, a sede global também atua na conexão das unidades nacionais com potenciais financiadores, empresas e fundações. Parte dessa função envolve usar contatos estabelecidos em eventos internacionais para aproximar organizações locais de novas fontes de recursos.

Em um caso recente, Anderson afirmou ter encontrado representantes de uma fundação sediada no Brasil durante uma conferência. A organização já havia mantido contato anteriormente com a equipe brasileira. O encontro levou a uma nova reunião entre as partes para avaliar a retomada da relação.

Esse tipo de articulação integra uma tentativa da United Way Worldwide de combinar uma rede global de financiamento e relacionamento com autonomia para que cada unidade defina prioridades locais.

Para entender o Brasil, perguntas antes das respostas

Essa lógica apareceu também fora das respostas formais da entrevista.

Durante boa parte da entrevista com a reportagem da EXAME, Allen-Herring inverteu os papéis e fez perguntas sobre o país. Quis entender como funciona o acesso à educação no Brasil, como brasileiros chegam às universidades públicas e aos institutos federais, o que é o ENEM e outros programas que facilitam a entrada da população no ensino superior.

Quis saber quais são as condições de moradia e os programas de financiamento habitacional, mas também como é a realidade da renda. Também perguntou sobre o custo de vida em São Paulo e sobre as diferenças no acesso da população negra a serviços básicos.

As perguntas se estenderam além dos programas mantidos pela United Way e mostraram uma tentativa de compreender as condições que cercam as populações atendidas pela organização no país.

Isso se conecta à principal diferença que a própria rede procura estabelecer entre uma organização global e uma estrutura centralizada: estar presente em dezenas de países não significa importar para cada um deles uma política definida nos Estados Unidos.

No Brasil, segundo Bighetti, as decisões são tomadas localmente, pela equipe e pelo conselho da organização. “Não vem dos Estados Unidos uma determinação de que aquilo que funciona lá precisa funcionar aqui”, afirmou.

A descentralização também coloca uma limitação para qualquer tentativa de reproduzir automaticamente soluções entre países. A United Way afirma buscar projetos que possam ser adaptados e replicados, mas parte do trabalho começa justamente pela identificação das diferenças entre cada território.

Em uma rede presente em 35 países, o desafio passa a ser encontrar o que pode ser compartilhado sem tratar problemas distintos como se fossem iguais.

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