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Carlos Nobre, Natasha Santos, Cara Williams e Gerrity Lansing: especialistas e executivos debateram resultados e desafios da COP30 no primeiro painel da Brazil House (BRAZIL HOUSE 2026/Divulgação)
EXAME Solutions
Publicado em 20 de janeiro de 2026 às 10h31.
Última atualização em 20 de janeiro de 2026 às 13h47.
A pergunta que abriu as discussões na Brazil House, em Davos, na Suíça, foi direta e incômoda: a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) entregou o que prometeu?
Mediado por Gerrity Lansing, sócio e chefe de alternativas globais do BTG Pactual, o painel reuniu visões do setor corporativo e da ciência para avaliar resultados e lacunas da conferência, realizada no fim do ano passado, em Belém, no Pará.
Para Cara Williams, head global de clima e sustentabilidade da consultoria Mercer, a resposta depende do ângulo de análise. Na avaliação dela, os governos ficaram aquém do esperado, mas a cooperação entre setor privado e ONGs avançou. “Vimos pela primeira vez projetos concretos chegando à mesa, com foco em reduzir risco e escalar investimentos”, afirmou.
A análise mais dura veio de Carlos Nobre, cientista climático, co-chair do Science Panel for the Amazon e conselheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
“Estamos muito próximos de atingir 1,5 °C de aquecimento de forma permanente até 2030. Esperávamos que essa COP fosse tão decisiva quanto o Acordo de Paris, em 2015.” Na visão de Nobre, não foi o que aconteceu.
À medida que o debate avançou, o foco se deslocou da diplomacia para o dinheiro. Williams destacou que a palavra da vez para investidores é adaptação. “Mitigação já está mais desenvolvida, com mercados de carbono mais acessíveis. O desafio é criar oportunidades em adaptação que ofereçam retorno financeiro e impacto positivo”, disse.
Segundo ela, o risco agora é o pêndulo migrar totalmente da mitigação para a adaptação — um movimento que, para investidores institucionais, pode parecer mais confortável, mas não resolve o problema estrutural.
Na agricultura, a leitura foi semelhante. Natasha Santos, head de sustentabilidade e engajamento estratégico da Bayer Crop Science, afirmou que a COP30 marcou a primeira vez em que o tema da adaptação deixou de ser marginal.
“Finalmente conseguimos falar de adaptação sem constrangimento”, disse. Para ela, medir resiliência — e não apenas produtividade — será decisivo para atrair financiamento. “Se conseguimos medir estabilidade de safra ao longo do tempo, isso pode ser mais valioso do que ganhos pontuais de produtividade.”
Santos detalhou investimentos em ciência aplicada, tecnologia e finanças para tornar a agricultura tropical mais resiliente, incluindo parcerias com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) no desenvolvimento de calculadoras de carbono. “Não é filantropia nem CSR (Responsabilidade Social Corporativa). É a saúde do nosso negócio e a sobrevivência econômica dos agricultores”, afirmou.
Do lado científico, Nobre ampliou o olhar para além da COP e trouxe um alerta estrutural. Ele destacou a criação do primeiro International Science Pavilion — um pavilhão científico internacional — durante a conferência. “Levamos aos negociadores uma mensagem clara: precisamos zerar o uso de combustíveis fósseis até 2040 ou, no máximo, 2045, e eliminar o desmatamento, especialmente nas florestas tropicais, até 2030”, disse. A proposta, segundo ele, não obteve consenso — um sinal de alerta.
Nobre também chamou atenção para a fragilidade do financiamento climático: apesar da criação de um conselho para adaptação e da meta mínima de US$ 300 bilhões por ano, os recursos prometidos ficaram aquém do necessário.
Ao falar da Amazônia, o cientista adotou um tom ainda mais direto. “Estamos muito próximos do ponto de inflexão. Se ele for ultrapassado, o Cerrado tende a se tornar um ecossistema semiárido, e o Brasil deixará de ser um grande produtor de alimentos”, afirmou.
Nobre destacou ainda iniciativas como o Arco da Restauração, apoiado pelo BNDES, que prevê a recuperação de 24 milhões de hectares de áreas degradadas na Amazônia até 2050. “Restaurar florestas não é só remover carbono da atmosfera. É evitar crises sanitárias, proteger o regime de chuvas e garantir estabilidade econômica”, disse.
No encerramento, ao discutir percepções equivocadas sobre soluções baseadas na natureza, os participantes convergiram em um ponto: o desafio não é mais medir impacto, mas escalar. Williams destacou avanços em tecnologias como drones e inteligência artificial. Nobre chamou atenção para o desprezo histórico ao conhecimento indígena. Santos, por sua vez, foi direta: “Precisamos acabar com a ideia de que a agricultura é vilã. Agricultores são famílias tentando sobreviver em um ambiente cada vez mais hostil.”