Parceiro institucional:
Usinas térmicas e nucleares também podem ser afetadas pela falta de volume d´água. Rio Reno, Oberwesel, Alemanha. (Thomas Lohnes/Getty Images)
Publicado em 8 de agosto de 2026 às 14h31.
A combinação de ondas de calor sucessivas, pouca chuva e menor quantidade de neve nos Alpes levou diversos dos principais rios da Europa a níveis excepcionalmente baixos neste verão. Em alguns pontos, a redução é tão expressiva que pode ser observada em imagens de satélite, que mostram margens expostas e grandes bancos de areia onde antes havia água.
A seca que reduziu o nível de importantes rios europeus não é apenas resultado da falta de chuva durante o verão. O cenário começou a ser construído ainda no inverno, com pouca neve nos Alpes, e foi agravado por sucessivas ondas de calor e pelo aumento da evaporação, segundo Pedro Luiz Cortes, professor titular da USP no Instituto de Energia e Ambiente.
Para o especialista, o ponto de atenção não é apenas a ocorrência de eventos extremos, que já era prevista pelos modelos climáticos, mas a velocidade com que eles estão acontecendo.
“A velocidade apontada nas previsões era menor do que realmente tem acontecido”, afirma Cortes em entrevista à EXAME.
Isso porque, a menor quantidade de neve também significa menos água disponível para alimentar os rios durante o período de derretimento. Ao mesmo tempo, as sucessivas ondas de calor aumentaram a evaporação.
O fenômeno atinge cursos d’água fundamentais para o continente, como o Danúbio e o Reno, e já produz efeitos sobre transporte, geração de energia, abastecimento e ecossistemas.
“É um cenário mais sistêmico do que uma ocorrência momentânea”, diz o especialista.
A situação também levanta uma questão que vai além da seca deste ano: episódios dessa intensidade podem deixar de ser excepcionais na Europa?
Para Cortes, a resposta é sim. Segundo ele, o continente está diante de uma nova realidade climática marcada pela combinação de ondas de calor recorrentes e redução persistente da precipitação.
“É uma nova realidade climática para a Europa, porque é o continente que mais aquece no planeta. As ondas de calor sucessivas, com falta persistente de chuva, transformam o que era um fenômeno sazonal, não tão intenso, em uma nova realidade climática”, afirma.
O professor destaca que o processo não começou agora. Secas pronunciadas e incêndios florestais registrados em anos anteriores já indicavam uma mudança no padrão.
A relação também ocorre porque períodos prolongados de calor e pouca chuva deixam maior quantidade de material combustível nas florestas, aumentando as condições para incêndios.
Segundo Cortes, a repetição desses eventos indica que a mudança pode ter caráter estrutural e se agravar nos próximos anos.
Entre os rios mais afetados está o Danúbio, segundo maior rio da Europa, que atravessa dez países entre a Alemanha e o Mar Negro.
Na Hungria, o nível chegou a aproximadamente 10 centímetros em Budapeste na segunda-feira, 3, abaixo do recorde anterior de cerca de 33 centímetros, registrado em 2018, segundo a Associated Press.
A situação ocorre enquanto uma nova onda de calor atinge partes da Europa Central e Oriental. A previsão de temperaturas superiores a 37,7°C em Budapeste aumenta a preocupação com uma nova redução do nível do rio.
O problema vai além da esfera ambiental. A usina nuclear de Paks, responsável por quase metade da eletricidade da Hungria, utiliza água do Danúbio para o resfriamento dos reatores. Com a redução do nível do rio, a unidade passou a operar com cerca de 10% da capacidade, após o desligamento de todos os reatores, com exceção de um.
Para Cortes, situações como essa evidenciam como a redução dos rios pode atingir diretamente a segurança energética.
“Você necessita de água para resfriar os reatores nucleares. Então, quando começa a faltar água, você tem que reduzir o nível de atividade dos reatores para reduzir a demanda de água ou mesmo interromper por falta de água para a refrigeração”, explica.
Os efeitos se estendem à logística. Os rios europeus são importantes corredores para o transporte de mercadorias, o que significa que níveis muito baixos podem dificultar a circulação fluvial.
O mesmo ocorre com a geração de eletricidade.
Além da energia hidrelétrica, que depende diretamente da disponibilidade de água, usinas térmicas e nucleares também podem ser afetadas quando os cursos d’água utilizados para resfriamento não apresentam volume suficiente.
“A queda do nível dos rios, além de prejudicar o transporte fluvial, prejudica o abastecimento de cidades, a geração de energia elétrica por fonte direta, fonte hidrelétrica, e também, no caso de usinas térmicas ou termonucleares, você perde capacidade de resfriamento também por falta de água”, afirma o professor.
A redução dos rios também pode afetar a irrigação de cultivos, além dos habitats utilizados pela vida selvagem.
Um dos pontos centrais da análise de Cortes é que o atual cenário não representa necessariamente uma surpresa quanto à direção das mudanças climáticas.
Segundo ele, situações desse tipo já estavam previstas nos modelos climáticos. O que chama atenção é a velocidade com que elas estão ocorrendo.
“O que continua muitas vezes causando um espanto nos cientistas, na comunidade acadêmica em geral, é a velocidade com a qual essas mudanças têm se manifestado”, afirma.
O professor lembra que, há cerca de uma década, havia críticas às projeções climáticas consideradas alarmistas ou excessivamente pessimistas.
Na avaliação dele, porém, parte dessas previsões pode ter sido conservadora quanto ao ritmo de ocorrência dos eventos.
“Os eventos climáticos, embora previstos, estão se manifestando a uma velocidade maior. Estão se apresentando antes do que originalmente previstos nos modelos climáticos”, diz.
Esse aspecto ajuda a diferenciar a situação atual de uma seca isolada. O problema, segundo o especialista, está na repetição e na intensificação dos eventos.
“Não dá para tratar como um evento esporádico, como algo que ocorreu esse ano, mas nos próximos anos vai ser diferente”, afirma.
A continuidade do calor e da baixa precipitação nas próximas semanas pode ampliar os impactos sobre os cursos d’água europeus.
Para Cortes, o cenário envolve uma combinação de riscos: queda dos níveis dos rios, prejuízos ao transporte fluvial, menor capacidade de geração de energia, impactos no abastecimento urbano e dificuldades para a irrigação.
A resposta, segundo ele, exigirá medidas estruturais dos governos.
“O que eu digo é: não conseguimos negociar com o clima. Quando muito, conseguimos nos adaptar ao clima”, afirma.
O problema é que medidas de adaptação podem exigir obras e planejamento de longo prazo. Isso inclui compreender quais cursos d’água tendem a ser mais afetados e como a redução da disponibilidade hídrica poderá alterar atividades econômicas e serviços essenciais.
Para o professor, a União Europeia precisará responder ao novo cenário, mas existe o risco de que as medidas não sejam implementadas na mesma velocidade em que as mudanças acontecem.
“Há uma tendência de progressão, tanto da frequência quanto da intensidade” dos eventos, afirma.