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Recado de saída: Guterres discursa no evento de clima e transição justa da ONU, em Nova York. (UN Photo/Laura Jarriel)
Editora ESG
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 17h42.
Nova York — A crise climática entrou na Semana de Alto Nível da ONU por três portas ao mesmo tempo, e as três mal conversam entre si.
De um lado, o secretário-geral, António Guterres, fez seu último apelo no cargo por uma virada rápida contra os combustíveis fósseis.
De outro, os Estados Unidos usaram o mesmo circuito de eventos para baixar a bola da urgência climática.
No meio, a Turquia cobriu a cidade de propaganda da COP31, que sediará em novembro, tentando fazê-la parecer mais relevante do que os indícios sugerem.
Nesta quarta-feira, 23, Guterres discursou no High-level Event on Climate Action and the Just Transition, reunião que a organização promove para cobrar dos países metas mais ambiciosas de corte de emissões e uma transição energética que não deixe para trás trabalhadores e nações mais pobres.
O evento reuniu poucos líderes como o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, e o secretário britânico de Energia, Ed Miliband, que anunciou 330 milhões de libras em iniciativas ambientais. Anfitrião da COP30, o Brasil não participou.
"Somos a primeira geração com as ferramentas para encerrar a era dos combustíveis fósseis e a última que pode evitar a catástrofe climática", disse Guterres, no mesmo tom duro que já adotara na véspera, durante a abertura do Debate de Alto Nível, quando acusou a indústria do petróleo de tratar a atmosfera como um "esgoto a céu aberto".
No discurso desta quarta-feira, pediu às nações um roteiro com prazos claros para deixar os fósseis e que o G20, responsável por cerca de 80% das emissões, puxasse a fila.
Por fim, defendeu triplicar a capacidade de renováveis e reforçou a meta de financiamento climático fixada na COP29, em Baku, que prevê US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, dos quais ao menos US$ 300 bilhões para os países em desenvolvimento.
Ainda que tenha ocorrido paralelamente à Semana do Clima de Nova York, um dos principais eventos da agenda ambiental, o encontro sobre clima da ONU teve repercussão modesta, ofuscado pelas discussões sobre as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e pela ascensão da inteligência artificial, que monopolizaram as atenções.
No mesmo circuito, o governo americano puxou na direção oposta. Na tribuna da Assembleia, na terça-feira, 22, o presidente Donald Trump quase não mencionou o clima, e a única referência ao tema foi para ironizá-lo, ao igualar quem alerta para o aquecimento global a quem teme a inteligência artificial.
"As mesmas pessoas que diziam que estaríamos todos mortos em 12 anos por causa do aquecimento global são as que agora dizem que a IA vai matar todos nós", afirmou.
Também na quarta-feira, 23, no Climate Forward, promovido pelo New York Times, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, rejeitou a ideia de uma proibição de exportação de diesel, cogitada em meio à disparada dos preços do combustível, e manteve o foco em oferta e preços, não em cortar emissões.
Em outro evento da semana, promovido pela revista The Economist e acompanhado pela EXAME, o secretário foi além ao relativizar os riscos do aquecimento global.
"Morre mais gente de frio do que de guerra", afirmou Wright, num eco do argumento que repete há meses, de que o frio mata mais do que o calor.
Anfitriã da COP31, marcada em Antália entre 9 e 20 de novembro, a Turquia espalhou pela cidade caminhões com telões de LED, da Times Square às imediações da Grand Central, estampando os lemas "O futuro do mundo está na Turquia" e "a Turquia, onde o mundo se une pelo clima".
Adicionalmente, diante da própria sede da ONU, um prédio inteiro amanheceu coberto por uma faixa com a imagem presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ao microfone e o slogan da presidência turca: "Diálogo, Consenso, Ação".
Propaganda da COP31 estampa a imagem de Erdogan em um prédio em frente à ONU, em Nova York. (Lia Rizzo/Exame)
O conteúdo por trás da campanha a Turquia já havia apresentado meses antes: a meta batizada de 35 por 35, que quer levar a eletricidade a 35% do consumo final de energia até 2035, ante pouco mais de 20% hoje, foi lançada pela presidência da COP31 em junho, na conferência de Bonn.
Alcançá-la exigiria eletrificar a um ritmo quase cinco vezes maior que o atual, e especialistas duvidam do alvo. Em Nova York, o ministro do Meio Ambiente e presidente-designado da COP31, Murat Kurum voltou a promovê-la e apresentou o Compromisso de IA de Antália, voltado ao uso de inteligência artificial na agenda climática.
A aposta na IA expõe, porém, a dimensão do desafio que a Turquia herda. O tema dominou a semana em Nova York e, mesmo na Assembleia, tomou boa parte do oxigênio político dos debates.
A corrida por data centers pressionou a demanda por energia e reacendeu a construção de usinas a gás, num descompasso entre a promessa de uma IA "verde" e a conta que não fecha.
O chefe de clima da ONU, Simon Stiell, chegou a advertir que as empresas do setor pisam em gelo fino quanto à licença para operar.
Resta saber se uma conferência que já desperta dúvidas sobre o próprio peso reunirá o quórum e a expertise para conduzir um debate que, por ora, se decide em outros palcos.
Na tribuna da Assembleia, contudo, Erdogan concentrou o discurso na reforma da ONU e no fim do poder de veto dos cinco permanentes, na pressão sobre Israel por um cessar-fogo em Gaza e na segurança regional, do Estreito de Ormuz ao programa de caças F-35.
O anfitrião que cobriu a cidade de propaganda climática, no fim, dedicou ao clima quase nenhum espaço no palco mais visível de todos. E a distância entre a campanha e a substância aparece também nos bastidores.
Apesar do otimismo estampado nos telões, cresce a expectativa de uma COP31 esvaziada, temor que já rondava a cúpula desde a Conferência de Bonn.
Fontes ouvidas pela EXAME afirmam que a delegação brasileira deve permanecer apenas na primeira semana da conferência, e que nem o presidente da COP30, o diplomata André Corrêa do Lago, com participação extensa em edições anteriores, deve ficar além desse período.