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Bioeconomia: iniciativas sustentáveis ampliam renda e mantêm a floresta em pé. (Ricardo Lima/Getty Images)
Colunista
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 11h06.
Existe um senso comum que precisa ser desmistificado de uma vez por todas quando falamos sobre a Amazônia, a necessidade de desmatar mais para desenvolver a região.
O problema nunca foi a falta de terras, mas sim a capacidade de produzir melhor com o que já foi desmatado. Estamos falando de mercado de mais de 230 bilhões de dólares de produtos da floresta, que não aproveitamos, porque a região possui uma economia viciada em um ciclo pobre baseado em invasão, grilagem e roubo de terras públicas sustentado por uma pecuária de baixíssima produtividade.
Conforme os pesquisadores do projeto Amazônia 2030, a Amazônia Legal possui aproximadamente 86 milhões de hectares já desmatados, muitos deles ocupados por pastagens de baixa produtividade ou simplesmente subutilizados e abandonados.
Ao mesmo tempo, a região apresenta indicadores de renda, emprego e qualidade de vida inferiores aos do restante do país. O resultado é um paradoxo: uma das regiões mais ricas do planeta em recursos naturais continua oferecendo poucas oportunidades econômicas para boa parte de sua população.
É nesse espaço que surge uma ideia ainda pouco conhecida fora dos círculos especializados: o rematamento produtivo. O conceito, apresentado pelo estudo Rematamento Produtivo, Conservação e Desenvolvimento Econômico na Amazônia Brasileira, propõe transformar áreas já abertas e degradadas em sistemas produtivos capazes de gerar renda, empregos e recuperação ambiental.
Isso inclui sistemas agroflorestais, cultivos perenes, florestas plantadas, produção de fibras, madeira e biomassa, além de projetos de restauração associados a mercados de carbono e agricultura de maior valor agregado.
O estudo explica que há uma diferença do rematamento para a restauração convencional, pois o objetivo não é somente recuperar uma área, e sim fazer com que ela volte a produzir valor econômico.
A análise também estima que os mercados relacionados a produtos como cacau, açaí, frutas tropicais e óleo de palma, que poderiam se beneficiar diretamente dessas áreas, movimentam cerca de US$ 230 bilhões por ano no Brasil e no exterior.
Empresas e produtores amazônicos já participam dessas cadeias, mas capturam uma parcela pequena desse mercado.
Conforme os pesquisadores, o problema não é a ausência de vocação econômica e sim a escala. A região produz, mas pouco e com baixa produtividade.
Em boa parte de suas áreas abertas enfrenta gargalos de infraestrutura, tecnologia, financiamento, regularização fundiária e acesso aos mercados. Enquanto isso, a pecuária extensiva continua ocupando grandes extensões de terra com produtividade ainda mais baixa.
O estudo aponta que a intensificação da produção pecuária nessas regiões poderia liberar 37 milhões de hectares, uma área maior do que todo o estado de Mato Grosso do Sul, para outros usos, sem reduzir a demanda de carne.
Por conta disso, os pesquisadores afirmam que o ativo mais subestimado da Amazônia pode ser justamente a terra que já foi degradada.
Mas, para isso é preciso repensar o atual modelo de desenvolvimento da região que se baseia mais na expansão agrícola do que na sua melhoria em si.
Em vez de perguntar onde ainda existe floresta disponível para ser convertida em produção, a pergunta passa a ser: como aumentar o valor econômico de cada hectare que já foi aberto?
Essa mudança tem implicações para o agronegócio, para a indústria, para o sistema financeiro e para as políticas públicas.
Uma pastagem degradada pode ser recuperada. Uma área pode receber sistemas agroflorestais. Espécies perenes podem criar cadeias de maior valor.
Florestas plantadas podem abastecer mercados de madeira, fibras e biomassa. Projetos de restauração podem combinar produção e geração de receita com carbono.
Ou seja, não se trata de escolher entre floresta e economia e sim em tornar economicamente mais interessante produzir melhor nas áreas que já foram abertas do que continuar avançando sobre a floresta.
Existe ainda uma dimensão que o debate amazônico frequentemente trata como consequência, quando deveria tratá-la como objetivo central, o emprego.
Não basta dizer que uma atividade é sustentável, ela precisa também oferecer uma alternativa econômica concreta para quem vive na região, o que de fato, não ocorre com a agropecuária de baixa qualidade.
O estudo mostra que o rendimento médio por pessoa na Amazônia Legal é muito inferior ao observado no restante do país.
Nesse ambiente, políticas de conservação que não estejam acompanhadas de oportunidades econômicas, dificilmente terão sucesso.
Pois, quando a economia formal não oferece alternativas, atividades de baixa produtividade ou ilegais continuam sendo economicamente atraentes. É por isso que o rematamento produtivo pode ser mais do que uma política ambiental e se transformar em uma política de desenvolvimento regional.
Os pesquisadores consideram que a restauração de dois hectares pode gerar, em média, um emprego direto, embora o resultado varie conforme o sistema produtivo.
Ou seja, o debate não deveria ser apenas quantos hectares podemos restaurar, mas sim quantos empregos podemos criar ao transformar esses hectares em ativos produtivos.
É importante ressaltar que a Amazônia não vai mudar de modelo econômico apenas com fiscalização ou transferência de recursos públicos.
Tampouco basta esperar que a chamada bioeconomia cresça espontaneamente. É necessário construir negócios capazes de acessar capital, tecnologia e mercados em escala.
Isso exige instrumentos financeiros adequados ao tempo de maturação de culturas perenes e sistemas agroflorestais.
Exige segurança jurídica, assistência técnica, infraestrutura logística, compradores dispostos a firmar contratos de longo prazo e uma mudança na forma como investidores olham para a região.
Em vez de enxergar a Amazônia apenas como um território de risco socioambiental, é possível enxergá-la também como um território de ativos produtivos subutilizados.
O Brasil já dispõe de instituições, empresas e instrumentos financeiros que poderiam participar dessa transformação.
Embrapa, BNDES, Finep, Fundo Clima, Plano Safra e outros mecanismos podem ajudar a construir uma agenda de escala, desde que sejam coordenados em torno de objetivos claros. O desafio é transformar iniciativas isoladas em um mercado.
Para isso, o estudo propõe quatro frentes: um ambiente regulatório adaptado à realidade amazônica, acordos comerciais que ampliem mercados para produtos associados ao rematamento, mobilização do sistema nacional de inovação e coordenação entre governo e empresas.
Ou seja, o Brasil pode continuar discutindo a Amazônia como problema. Ou pode tratá-la como oportunidade econômica.