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Dark silhouette of high voltage towers with electric power lines at sunrise. (PSR/Divulgação)
Bacharel em Engenharia Elétrica CEFET/RJ
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 17h48.
Última atualização em 28 de setembro de 2026 às 17h51.
A imagem mais visível da transição energética é uma turbina eólica ou um campo de painéis solares. Mas há uma infraestrutura menos evidente e igualmente decisiva: a rede de transmissão. Não basta produzir eletricidade limpa. É preciso transportá-la até onde será consumida.
Durante décadas, geração e transmissão foram analisadas em etapas relativamente separadas: primeiro se projetava quanto e onde gerar; depois, quais linhas seriam necessárias. Com a expansão das renováveis, essa lógica se tornou menos eficaz. A localização de uma usina influencia o custo da rede, enquanto a capacidade da rede influencia onde vale a pena instalar uma usina. Uma decisão depende da outra.
O sistema elétrico precisa ser observado hora a hora. A geração solar varia durante o dia; a eólica depende do vento; e o consumo também muda. Assim, uma linha que parece folgada em determinado momento pode se tornar um gargalo poucas horas depois.
Planejar apenas para o pico de demanda ou algumas situações representativas é cada vez menos suficiente. É preciso enxergar um filme, e não uma coleção de fotografias. Isso permite avaliar conjuntamente geração, demanda e capacidade da rede em diferentes horas e condições, preservando a confiabilidade quando a produção renovável varia.
Essa visão evita dois erros caros: construir transmissão de menos, limitando o aproveitamento das renováveis, ou construir demais, antecipando investimentos que talvez não sejam necessários.
A demanda também está mudando. Data centers, hidrogênio e eletrificação industrial podem criar grandes blocos de consumo em locais específicos e em prazos curtos — e nem todos os projetos anunciados se concretizam.
A resposta não é tentar prever com precisão um futuro incerto, mas planejar uma rede robusta para diferentes futuros. Isso significa testar cenários, coordenar decisões de geração, transmissão e demanda e preservar flexibilidade para adaptar os investimentos à medida que novas informações aparecem.
Baterias, tecnologias de controle de fluxo e monitoramento também podem reduzir congestionamentos e aproveitar melhor a infraestrutura existente. Não substituem novas linhas, mas podem tornar a expansão mais eficiente.
A Agência Internacional de Energia estima que o mundo precisará adicionar ou substituir mais de 80 milhões de quilômetros de redes até 2040. A transição energética depende não apenas de produzir energia limpa, mas também de conectá-la.
O bom planejamento combina geração e transmissão, considera o comportamento do sistema ao longo do tempo e incorpora a incerteza. O objetivo não é construir a maior rede possível, mas a rede certa: capaz de integrar renováveis, atender novas demandas e manter o fornecimento confiável e seguro, sem investimentos desnecessários.
O Brasil começa a avançar nessa direção. Em julho, a EPE lançou uma base integrada de geração e transmissão, com análises mensais e horárias. É um passo importante: geração e transmissão não são dois problemas separados, mas duas partes da mesma decisão.