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Os oceanos estão se tornando uma gigante 'bateria' de calor, afirma estudo

90% do excesso de calor do aquecimento global é absorvido pelos oceanos; em 2025, as concentrações de gases de efeito estufa atingiram níveis recordes

O calor oceânico recorde teve impactos devastadores ao redor do mundo em 2025 (AFP Photo)

O calor oceânico recorde teve impactos devastadores ao redor do mundo em 2025 (AFP Photo)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 16h02.

Um estudo acendeu o alerta vermelho: os oceanos do planeta atingiram o nível mais alto de aquecimento já registrado por instrumentos modernos. A pesquisa, liderada pela Academia Chinesa de Ciências e divulgada no periódico Advances in Atmospheric Sciences, trouxe números impressionantes sobre como os mares estão absorvendo o calor gerado pela queima de combustíveis fósseis — e os dados revelam uma aceleração perigosa desse processo.

O conteúdo de calor oceânico (OHC) — que mede a energia térmica acumulada até 2 mil metros de profundidade — nunca esteve tão alto. Entre 2024 e 2025, o oceano absorveu cerca de 23 zettajoules a mais de energia. Outros centros de pesquisa confirmam a tendência: o CIGAR-RT estima um aumento de 20 zettajoules e o Copernicus Marine indica um ganho de até 70 zettajoules.

Para ter uma ideia da escala desses números: 23 zettajoules representam quase 200 vezes toda a eletricidade gerada no mundo durante 2024 — uma quantidade de energia quase impossível de visualizar.

Mais preocupante ainda: o aquecimento está acelerando. A taxa de ganho de calor oceânico saltou de 0,14 watts por metro quadrado por década (no período 1960–2025) para 0,32 watts por metro quadrado por década (entre 2005–2025) — mais que o dobro. E 2025 marca o nono ano consecutivo de recordes de OHC, uma sequência que se estende desde 2017.

Superfície mais fria, profundezas mais quentes

A Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado para a temperatura da superfície do mar, com anomalia de 0,49°C acima da média histórica de 1981–2010. Curiosamente, a superfície oceânica em 2025 ficou 0,12°C mais fria que em 2024 — uma contradição explicada pelo desenvolvimento do fenômeno La Niña, que resfria as águas superficiais do Pacífico equatorial.

Mas esse resfriamento superficial esconde uma realidade mais sombria: enquanto a superfície esfria temporariamente, o calor continua sendo empurrado para as camadas mais profundas do oceano. O La Niña, com seus ventos fortes e processos de ressurgência (quando águas frias do fundo sobem à superfície), acaba facilitando que mais calor da atmosfera penetre nas profundezas oceânicas — um fenômeno que os cientistas chamam de "deepening" (aprofundamento) da termoclina, a camada invisível que separa águas quentes superficiais das águas frias do fundo.

A situação é crítica em escala global. Cerca de 14% da área oceânica do planeta atingiu seu estado mais quente já registrado em 2025. Aproximadamente 33% da superfície marinha viveu uma das três temperaturas mais altas desde o início dos registros em 1958, e mais da metade — 57% dos oceanos — ficou entre as cinco mais quentes da história.

Os pontos críticos de aquecimento em 2025 incluem o Oceano Atlântico tropical e Sul, o Mar Mediterrâneo, o Oceano Índico Norte e os oceanos austrais. Apenas algumas áreas registraram resfriamento localizado, como o Pacífico equatorial central (pelo La Niña) e o sudoeste do Índico (por processos de divergência de Ekman, onde ventos empurram águas superficiais para longe, permitindo a subida de águas frias do fundo).

O planeta está acumulando calor

A Organização Meteorológica Mundial reforçou um dado alarmante: 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global vai parar nos oceanos. Eles funcionam como uma espécie de "bateria" climática, mas com capacidade limitada. Em 2025, as concentrações de gases de efeito estufa atingiram níveis recordes, alimentando esse desequilíbrio energético da Terra — a diferença entre a energia solar que o planeta recebe e a que consegue devolver ao espaço. O saldo positivo significa que o sistema terrestre está acumulando calor de forma contínua.

Um fator adicional contribuiu para o aquecimento acelerado em 2025: a redução de aerossóis de sulfato na atmosfera. Essas pequenas partículas, geralmente provenientes da poluição industrial e da queima de combustíveis, refletem parte da luz solar de volta ao espaço, ajudando a esfriar o planeta. Com menos aerossóis no ar, mais calor penetra nos oceanos.

As consequências já são visíveis além dos mares. Em 2025, o Ártico atingiu sua menor extensão máxima de gelo marinho já registrada. A Antártida registrou a terceira menor extensão mínima e máxima anual desde o início da era satelital. As camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida alcançaram níveis recordes de baixa massa, contribuindo diretamente para o aumento do nível do mar.

Catástrofes em cadeia

O calor oceânico recorde teve impactos devastadores ao redor do mundo em 2025. No Sudeste Asiático — Indonésia, Sri Lanka, Tailândia e Vietnã —, enchentes catastróficas em novembro mataram mais de 1.350 pessoas. No Texas, inundações em julho causaram 138 mortes.

Na Europa, um domo de calor elevou as temperaturas acima de 48°C. No Canadá, incêndios florestais queimaram mais de cinco milhões de hectares. Na América do Norte, tempestades severas produziram mais de 150 tornados. Todos esses eventos extremos estão conectados ao calor acumulado nos oceanos, que influencia padrões atmosféricos e alimenta fenômenos meteorológicos cada vez mais intensos.

Mesmo que o mundo parasse de queimar combustíveis fósseis hoje, o calor já armazenado nos oceanos continuaria influenciando o clima por décadas. A água, quando aquecida, demora muito tempo para esfriar — os oceanos funcionam como uma enorme piscina térmica que libera energia gradualmente para a atmosfera.

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