Lençóis Maranhenses: aumento acelerado de turistas leva parque a discutir limite diário de visitas. (Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)
Redação Exame
Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 08h25.
Os Lençóis Maranhenses registraram um salto na visitação nos últimos anos e passaram a concentrar a atenção de gestores públicos e operadores de turismo. Entre 2019 e 2024, o número de visitantes cresceu 191%, movimento que levou autoridades a estudar a criação de um limite diário de entradas no parque nacional.
O debate ocorre em meio ao recorde de visitas aos Parques Nacionais do Brasil, que somaram 12,4 milhões de turistas em 2024, e ao recente reconhecimento dos Lençóis Maranhenses como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, título que ampliou a visibilidade internacional do destino.
Ainda não há definição sobre restrições de acesso. Os dados estão sendo analisados pelo ICMBio, responsável pela gestão do parque, em conjunto com as prefeituras dos municípios que compõem os Lençóis Maranhenses e representantes das comunidades locais.
A proposta, segundo os envolvidos, é identificar a capacidade ideal de fluxo antes de qualquer decisão sobre limitação de visitantes. A possibilidade de controle já aparece no edital que credencia operadores de turismo autorizados a atuar no parque.
"O desenvolvimento econômico da região é bem evidente, o turismo tem sido realmente motor de mudança dessa realidade regional. Mas os números vêm chamando a atenção, o que motivam a análise para entender capacidade de visitas ao parque. O risco de contaminação do lençol freático é a grande preocupação", afirma Matteo Soussinr, dono da pousada Ciamat Camp.
Soussinr chegou da Itália a Santo Amaro, uma das cidades que integram o parque, em 2013, quando abriu uma pousada voltada ao turismo sustentável, com incentivo à mão de obra local. Desde então, acompanhou a transformação do município, que hoje tem cerca de 20 mil moradores, mas recebe até três vezes esse número de visitantes durante a alta temporada, entre junho e agosto.
Segundo dados da prefeitura, Santo Amaro recebeu 61 mil visitantes em 2021, número que saltou para 297 mil em 2024. No parque como um todo, a visitação passou de 141 mil pessoas em 2019 para 440 mil em 2024.
Os números de 2025 ainda não foram consolidados, mas, entre janeiro e julho, o parque recebeu 381.131 visitantes, ante 277.091 no mesmo período do ano anterior — alta de 37,55%
"Houve uma mudança radical nos números, um crescimento exponencial", diz Soussinr, que afirma que Barreirinhas, maior cidade da região, como um alerta. "Barreirinhas tem fama de ter sido a primeira prova de que se não for feito planejamento prévio, gera-se problemas sérios, com crescimento desordenado, especulação imobiliária e lixo. Esses problemas começaram a aparecer em Santo Amaro".
Com o aumento da demanda, multiplicam-se nas redes sociais vídeos de turistas relatando surpresa com a superlotação de alguns atrativos. O circuito da Lagoa Bonita está entre os mais disputados, impulsionado por passeios bate-volta saindo diariamente de São Luís (MA).
Apesar disso, Soussinr afirma que, em comparação com a média do Maranhão, a qualidade urbana nos Lençóis Maranhenses ainda é satisfatória, destacando a conscientização da população local sobre a preservação ambiental.
Atualmente, visitantes que vão a Santo Amaro pagam uma taxa de R$ 10 válida por três dias, além de impostos cobrados sobre passeios turísticos.
O debate sobre controle de visitantes ocorre em paralelo ao avanço do turismo de massa predatório em diferentes regiões do país. Em 2025, o Brasil registrou 9,2 milhões de turistas internacionais, número comemorado pelo governo, mas que também expôs fragilidades em destinos com infraestrutura limitada.
Casos de agressões envolvendo barraqueiros em Porto de Galinhas (PE) e Balneário Camboriú (SC), às vésperas do ano novo, reforçaram o alerta sobre crescimento desordenado e ausência de políticas públicas adequadas.
Após os episódios em Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca (PE) proibiu a exigência de consumação mínima nas praias. Medidas semelhantes foram adotadas em outros destinos: Niterói (RJ) estabeleceu teto de R$ 22,85 para aluguel de barracas, enquanto Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) reforçaram a fiscalização.
Além das regras comerciais, o controle de visitantes também avança em áreas ambientais. Em destinos como Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ) e Morro de São Paulo (BA), a cobrança de taxas de visitação chegou a gerar disputas judiciais.
*Com informações do O Globo