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Minerais críticos: carros elétricos aceleram a demanda e pressionam as cadeias globais de oferta.
Colunista
Publicado em 14 de julho de 2026 às 15h30.
A transição energética global, frequentemente debatida sob a ótica de softwares avançados e políticas verdes, tem sua base fincada em algo muito mais tangível e pesado: a mineração. O avanço dos veículos elétricos e híbridos deixou de ser uma tendência de nicho para se tornar o motor principal da demanda mineral no planeta. Projeções atualizadas em 2026 indicam que os veículos eletrificados devem responder por cerca de metade do crescimento da demanda global por minerais críticos e terras raras até 2050, segundo a IEA, consolidando-se como o maior vetor de expansão desse setor.
O coração dessa mudança reside na bateria e nos sistemas de propulsão. Substâncias como lítio, cobalto e níquel não são apenas coadjuvantes; elas são o combustível da nova era. Estima-se que os carros elétricos serão responsáveis por mais de 80% da expansão da demanda por esses minerais nas próximas décadas. Contudo, esse apetite voraz encontra um mundo em desequilíbrio. A oferta primária tende a se tornar insuficiente já na próxima década, criando um cenário de escassez que pode gerar pressões inflacionárias severas e transformar a transição em uma disputa por recursos finitos.
No tabuleiro geopolítico atual, a concentração é preocupante, já que a China domina o processamento desses minerais. Esse monopólio cria gargalos de oferta e coloca o resto do mundo em posição de dependência. Em resposta, os EUA e a União Europeia firmaram em abril de 2026 um plano estratégico bilateral para diversificar cadeias, movimento ampliado após novos controles de exportação anunciados por Pequim. Para se ter dimensão dessa pressão, o setor automotivo responderá, sozinho, pela totalidade do crescimento da demanda por cobalto e grafite, além de quase toda a expansão necessária de manganês e terras raras. É uma transformação industrial sem precedentes em escala.
Para o Brasil, esse cenário é um convite e, ao mesmo tempo, um alerta urgente. O país é privilegiado por possuir vastas reservas minerais e uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, o que teoricamente permitiria uma mineração verde competitiva. No entanto, o risco de repetir erros históricos é latente.
Sem uma política nacional clara e integrada, o Brasil pode se ver relegado ao papel de mero exportador de rochas, enquanto importa a tecnologia de alto valor agregado contida nas células de bateria e nos semicondutores. O debate avançou com a aprovação pela Câmara, em maio de 2026, do Projeto de Lei dos Minerais Críticos, que cria o Fundo Garantidor da Atividade Mineral e contribuições setoriais para pesquisa e desenvolvimento, mas ainda envolve impasses sobre abertura a parceiros internacionais e incentivos à industrialização local. No momento, o projeto de lei encontra-se em tramitação no Senado.
Enquanto o tempo passa, a janela de oportunidade se estreita, sobretudo diante do avanço regulatório e dos acordos firmados por outros países sul-americanos. Se o Brasil não alavancar suas reservas pela inovação na produção e no refino, perderá o bonde do avanço industrial em curso.