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O desafio invisível dos grandes eventos: para onde vai o lixo do Carnaval?

Quando a música para, o que sobra não é apenas memória. São centenas de toneladas de resíduos espalhados pelas cidades em um intervalo de tempo extremamente curto

Eventos de grande porte não podem mais ser tratados como exceções operacionais, são parte do sistema e precisam funcionar dentro de uma lógica circular (Monobloco/Divulgação)

Eventos de grande porte não podem mais ser tratados como exceções operacionais, são parte do sistema e precisam funcionar dentro de uma lógica circular (Monobloco/Divulgação)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 às 08h00.

Última atualização em 18 de fevereiro de 2026 às 09h34.

*Por Irineu Bueno Barbosa Junior

Carnaval é celebrado como uma das maiores expressões culturais do Brasil. É festa, identidade, turismo e movimentação econômica em escala gigantesca. Mas existe uma pergunta que raramente recebe a mesma atenção: para onde vai o lixo produzido nesses dias de celebração coletiva? 

Quando a música para, o que sobra não é apenas memória. São centenas de toneladas de resíduos espalhados pelas cidades em um intervalo de tempo extremamente curto. No último ano, em São Paulo (SP), as equipes de limpeza recolheram 322,83 toneladas de resíduos; em Salvador (BA), foram 200 toneladas recolhidas; no Rio de Janeiro (RJ), mais de 100 toneladas.

Carnaval funciona como um teste de estresse do sistema de gestão de resíduos do país. E o resultado desse teste, muitas vezes, expõe uma realidade que preferimos não enxergar. 

Falamos cada vez mais sobre sustentabilidade, economia circular e responsabilidade ambiental. Mas basta observar o que acontece após grandes eventos para perceber o abismo entre discurso e prática.

Uma parcela significativa dos materiais que poderiam retornar à cadeia produtiva se perde por contaminação, descarte inadequado ou pura falta de infraestrutura. Em outras palavras: transformamos recursos em lixo — e fazemos isso em larga escala. 

O problema não é o volume em si. Grandes eventos sempre vão gerar resíduos. A questão é o que o sistema consegue — ou não — fazer com eles. Quando é feito um grande volume de descartes em poucos dias, ficam evidentes gargalos históricos: coleta seletiva insuficiente, triagem limitada, integração precária com cooperativas e ausência de planejamento estruturado.

Carnaval apenas acelera e concentra falhas que existem o ano inteiro. 

E é justamente por isso que ele deveria ser encarado como um laboratório obrigatório de economia circular. Se não conseguimos organizar fluxos eficientes de separação e reciclagem no momento de maior pressão, é ilusório acreditar que o sistema funciona no cotidiano.

O que está em jogo não é apenas a limpeza das ruas, mas a capacidade de o país tratar resíduos como ativos econômicos — e não como um problema a ser escondido em aterros. 

Há ainda um componente cultural que não pode ser ignorado. Em ambientes festivos, o comportamento tende a ser mais descuidado — mas isso não pode servir como justificativa permanente. Embalagens recicláveis descartadas junto a resíduos orgânicos perdem valor.

Materiais que poderiam retornar à indústria viram passivo ambiental. Cada falha de segregação é uma oportunidade desperdiçada — ambiental, econômica e social.

Assim, facilitar o descarte correto é uma decisão de planejamento urbano e de design logístico. Quando a infraestrutura convida ao erro, o erro se torna regra.  

Durante a folia, o público consome uma quantidade enorme de embalagens de variados tipos, e é necessário atenção para que cada um tenha seu destino adequado.

No caso de latas de alumínio e garrafas PET, o índice de reciclagem é alto e a remessa delas para as indústrias recicladoras é garantido.

Já sacolinhas, copinhos, caixinhas e outros, demandam mais atenção, pois tendem ao descuido que pode fazer com que percam a reciclabilidade. Por fim, embalagens de vidro devem ser descartados com maior cuidado, pois, caso estejam quebradas, se tornam extremamente perigosas se não forem manejados corretamente, devendo, inclusive, ser evitados em eventos dessa natureza.  

A responsabilidade por esse cenário é compartilhada. Não é razoável transferir o problema apenas para o poder público ou para as equipes de limpeza urbana.

Organizadores de eventos, patrocinadores, indústria e consumidores participam da equação.

Campanhas educativas para estimular os foliões a descartar os resíduos corretamente são necessárias, mas insuficientes enquanto não houver infraestrutura acessível nas ruas, como pontos de coleta bem distribuídos, logística dedicada, comunicação clara e integração efetiva com cooperativas de catadores. 

Quando essa coordenação existe, o impacto é visível. A atuação estruturada de catadores aumenta a recuperação de materiais, gera renda, promove inclusão produtiva e fortalece a base da cadeia de reciclagem. Não se trata apenas de limpar a cidade, mas sim de reconhecer que há valor econômico circulando no que insistimos em chamar de lixo. 

O momento regulatório reforça a urgência dessa discussão. As novas exigências quanto à logística reversa no Decreto do Plástico (nº 12.688/2025) sinalizam que resíduos precisam retornar à cadeia produtiva.

Isso significa que eventos de grande porte não podem mais ser tratados como exceções operacionais. Eles são parte do sistema — e precisam funcionar dentro de uma lógica circular. 

Se conseguimos estruturar soluções que funcionem durante o Carnaval — quando o sistema é levado ao limite — demonstramos que a economia circular é viável em larga escala.

Se falhamos, estamos apenas normalizando um modelo de desperdício incompatível com os desafios ambientais e econômicos do nosso tempo. 

Carnaval é, no fundo, um espelho. Ele revela como lidamos com consumo, responsabilidade e planejamento coletivo.

O lixo gerado na festa não desaparece quando os blocos se dispersam. Ele segue um caminho que expõe nossas prioridades como sociedade. 

A pergunta que permanece não é apenas para onde vai esse lixo. É se estamos dispostos a transformar esse fluxo em oportunidade ou se continuaremos tratando resíduos como um problema invisível, varrido para fora do campo de visão assim que a festa termina. 

*Irineu Bueno Barbosa Junior é CEO da Cirklo, uma das maiores recicladoras de PET do Brasil, especializada em soluções de economia circular

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