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Mundo deve ultrapassar limite de 1,5°C e corrida agora é para limitar danos, alerta ONU

Relatório do PNUMA mostra que planeta caminha para superar meta do Acordo de Paris nos próximos anos, mas afirma que ação rápida pode limitar impactos e reverter trajetória de aquecimento

A janela de ação está se estreitando: no cenário mais favorável, o aquecimento global chega a 1,8°C antes de recuar e o ritmo das medidas adotadas nesta década definirá o tamanho dos danos (Freepik)

A janela de ação está se estreitando: no cenário mais favorável, o aquecimento global chega a 1,8°C antes de recuar e o ritmo das medidas adotadas nesta década definirá o tamanho dos danos (Freepik)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 12h49.

Última atualização em 2 de setembro de 2026 às 12h59.

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O calor escaldante deste verão, os incêndios florestais devastadores e as enchentes mortais são um retrato do pior que está por vir.

A declaração é do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, em meio ao novo alerta de que o mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris, provavelmente nos próximos anos.

É o que revela o relatório “Limiting Overshoot” do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado nesta quarta-feira, 2, ao mostrar que o planeta está no caminho de entrar em uma fase de aquecimento acima do limite considerado seguro, com riscos potenciais para ecossistemas, economias e populações vulneráveis.

Mas, segundo a ONU, a ultrapassagem da meta não significa o fim da batalha climática. A nova corrida é reduzir o pico de aquecimento, limitar o período em que o planeta ficará acima desse patamar e tentar retornar a temperaturas inferiores até o fim do século.

A partir de agora, o tamanho do aquecimento adicional dependerá da velocidade e da intensidade das medidas adotadas pelos países. Cada fração de grau evitada reduz riscos e aumenta as chances de conter os efeitos mais graves da crise climática. 

"Precisamos tornar a ultrapassagem acima de 1,5 grau a menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem da nossa ambição”, afirmou Guterres, em nota.

A estratégia prevê uma rápida redução das emissões de gases de efeito estufa, incluindo metano, avanço rumo ao saldo líquido zero de emissões (net zero) e, posteriormente, emissões líquidas negativas com tecnologias de remoção de carbono da atmosfera.

O alerta chega a cerca de dois meses da COP31 na Turquia, maior conferência de clima do mundo que deverá testar a capacidade dos países de transformar compromissos climáticos em ações concretas.

Para o Brasil, que sediou a COP30 em Belém, o momento será uma oportunidade de apresentar avanços e resultados de implementação de soluções verdes, especialmente em áreas como natureza, bioeconomia, transição energética e financiamento climático.

A avaliação é compartilhada por especialistas. Para Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a mensagem é preocupante, mas também reforça que ainda existe espaço para ação.

“O overshoot nunca pode se tornar uma desculpa para desistirmos da meta de 1,5°C. Cada investimento que fazemos hoje em mitigação, adaptação e resiliência importa”, reagiu.

A especialista em política climática do Greenpeace Brasil, Anna Cárcamo, também afirmou que o cenário reforça a urgência de acelerar as medidas contra a crise climática e que “o tempo de esperar acabou”: governos ainda podem agir para reduzir impactos e proteger vidas.

“O aumento da temperatura global está ultrapassando cada vez mais o limite seguro, levando a desastres catastróficos", reiterou.

No Brasil, segundo ela, a resposta passa por manter os esforços para zerar o desmatamento, ampliar recursos para adaptação nos municípios e promover uma transição gradual dos combustíveis fósseis.

A nova era do “overshoot” climático

O conceito central do relatório é que o mundo pode entrar em uma fase de excesso temporário de aquecimento, na qual a temperatura global supera 1,5°C antes de atingir um pico e iniciar uma trajetória de queda.

A ONU destaca que o objetivo de longo prazo continua sendo limitar o aquecimento a 1,5°C, mas que a estratégia agora precisa ser adaptada a uma realidade em que essa marca deve ser ultrapassada.

O cenário mais otimista prevê que a temperatura global atingiria um pico de 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, enquanto outros mais perigosos indicam aumentos ainda maiores.

“Não existem bons resultados se permanecermos acima de 1,5°C. Em todo o mundo, os impactos climáticos chegarão mais rápido, serão mais intensos e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando rupturas mais profundas”, destacou Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA.

Cada fração de grau aumenta os riscos

Segundo o relatório, os impactos climáticos se intensificam a cada fração adicional de grau.

Entre os riscos estão o aumento de eventos extremos, perda de ecossistemas, elevação do nível do mar e danos à saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, infraestrutura e economias.

O documento também alerta para a possibilidade de ultrapassar pontos de inflexão climáticos, mudanças que podem se tornar difíceis ou impossíveis de reverter em escalas de tempo humanas.

Quanto ultrapassados, pode haver uma desestabilização de grandes camadas de gelo, alterações na circulação oceânica do Atlântico e a degradação da floresta Amazônica.

Na prática, a diferença entre um aquecimento de 1,8°C, 2°C ou patamares ainda maiores pode representar impactos muito diferentes.

Em cenários de aquecimento de até 3°C, por exemplo, geleiras podem perder mais de um quarto de sua massa até 2100, contribuindo para uma elevação do nível do mar entre 9 e 13 centímetros.

Na segurança alimentar, o relatório estima que a produção global de alimentos poderia cair até 14% até 2050 sem medidas eficazes de adaptação.

Um planeta em ebulição

O alerta climático ocorre em um momento em que cientistas também mostram uma pressão cada vez maior sobre outros sistemas naturais que sustentam o equilíbrio do planeta.

O conceito de limites planetários, desenvolvido pelo cientista renomado Johan Rockström, busca identificar fronteiras ambientais que mantêm a Terra em condições relativamente estáveis para a  humanidade.

As últimas atualizações desse modelo indicam que seis dos nove limites planetários já foram ultrapassados, incluindo mudanças climáticas, integridade da biosfera, alterações no ciclo da água, mudanças no uso da terra, fluxos de nutrientes e novas entidades químicas.

A ultrapassagem desses limites não significa um colapso imediato do planeta, mas indica aumento dos riscos de mudanças ambientais profundas e perda de estabilidade dos sistemas naturais.

Outro indicador reforça a pressão sobre os recursos do planeta: o Dia da Sobrecarga da Terra, calculado pela Global Footprint Network, marca a data em que a humanidade passa a consumir mais do que a Terra consegue regenerar em um ano.

Em 2026, a data chegou em 30 de julho, seis dias mais tarde do que no ano anterior, indicando uma melhora marginal, mas ainda mostrando que precisaríamos de 1,73 planetas para sustentar o ritmo atual de consumo. 

Ainda é possível retornar abaixo de 1,5°C?

Embora o retrato dos próximos anos não seja animador, o PNUMA mostra que ainda existe um caminho, mas ele depende de uma ação rápida e coordenada.

A estratégia proposta pela ONU combina três frentes: mitigar emissões para limitar o pico de aquecimento, adaptar sociedades aos impactos inevitáveis e ampliar a remoção de carbono no longo prazo.

Em 2025, o mundo bateu um recorde de emissões e cientistas já identificavam uma tendência de ultrapassagem do limite estabelecido pelo Acordo de Paris. 

“Agora é o momento de redobrarmos os esforços pela ação climática. Podemos e devemos seguir pelo caminho correto para que a ultrapassagem de 1,5°C seja a menor e mais curta possível”, complementa Andersen.

Remoção de carbono não substitui corte de emissões

Para retornar abaixo de 1,5°C, o mundo também precisará ampliar mecanismos de remoção de dióxido de carbono (CDR), como reflorestamento e outras tecnologias capazes de retirar o gás poluente da atmosfera.

Mas a ONU faz outro alerta: essas soluções devem complementar, e não substituir, cortes profundos nas emissões de gases de efeito estufa.

Outro destaque é que mitigação e adaptação precisam avançar juntas. Ou seja, o mundo deve continuar reduzindo emissões, mas também preparar cidades, infraestrutura, agricultura e comunidades para impactos que já não podem ser evitados.

A mensagem central é que ultrapassar 1,5°C não deve levar à resignação. A disputa agora é definir quanto o planeta vai aquecer, por quanto tempo ficará acima do limite e quais danos ainda poderão ser evitados.

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