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Gaya Herrington, econometrista: "Precisamos lutar por uma economia em que o crescimento está a serviço da vida, em vez do contrário" (Divulgação )
Repórter de ESG
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 19h00.
Última atualização em 1 de setembro de 2026 às 21h23.
Medimos o sucesso de um país pelo PIB e o de uma empresa, pelo lucro. Há décadas, essas duas métricas são tratadas como sinônimos de progresso ou como se mais riqueza significasse, necessariamente, mais felicidade. Mas e se essa conta estiver simplesmente errada, e o sistema atual estiver em colapso?
Essa é a pergunta que a econometrista Gaya Herrington, ex-pesquisadora do banco central da Holanda e hoje uma das vozes mais ouvidas sobre economia pós-crescimento, levou ao palco do Encontro Futuro Vivo, evento realizado pela Vivo nesta terça-feira, 1º de setembro, em São Paulo.
"Apesar de todo o nosso progresso e inovação, continuamos tendo os mesmos problemas persistentes", provocou logo no início.
A tese central de Gaya reconhece que crescer não é o mesmo que prosperar. "Não somos anticrescimento. É mais uma questão de: crescimento em quê, para quem, e a que custo, e arcada por quem?", refletiu. E se o crescimento, do jeito que perseguimos hoje, já não está entregando nem prosperidade nem bem-estar, a mudança de rota deixa de ser uma opção.
O último alerta mostra o senso de urgência: 6 dos 9 limites planetários já foram ultrapassados, o que colocaria em risco a estabilidade climática e levaria a humanidade ao "colapso".
Clima, biodiversidade, uso da terra, ciclos de nitrogênio e fósforo são elementos de um "mesmo sistema sob pressão", reiterou Gaya, apontando para o que chama de policrise: não uma crise, mas várias interligadas e que se retroalimentam.
Diante desse cenário, a economista defende trocar a métrica com que medimos progresso: se o crescimento não pode continuar sendo a meta final da economia, o bem-estar deveria ocupar esse lugar.
A ideia atravessa teorias como a economia donut, a economia indígena e a de pós-crescimento, que convergem para uma mesma direção.
"Uma economia norteada pela noção do bem-estar humano e ecológico, em que o crescimento está a serviço da vida, em vez do contrário", destacou Gaya.
O problema, segundo ela, está nas pontas mais ricas do sistema. Fala-se muito em “desvincular” o crescimento econômico das emissões de carbono, ou seja, fazer a economia crescer sem que a pegada ambiental avance na mesma proporção.
Na prática, isso ainda não aconteceu. “O que realmente se desacoplou não foi o carbono do PIB e sim a felicidade do PIB nessas nações mais ricas”, afirmou.
Ou seja: nas economias ricas, o PIB segue subindo, mas o bem-estar das pessoas parou de acompanhar esse crescimento há muito tempo.
Daí sua defesa de que a responsabilidade de reduzir a pegada de carbono recai, sobretudo, sobre esses países — justamente porque, nesse patamar, mais consumo já não se traduz em mais qualidade de vida.
Gaya também aponta uma falha estrutural do sistema atual: ao resolver um problema, ele pode criar outros.
“Onde essa economia faz seu trabalho erradicando a pobreza, faz outro verdadeiramente lamentável em atender nossas necessidades emocionais e espirituais. É uma economia em que você nunca pode ter o suficiente”, explicou.
A frase carrega um trocadilho que resume boa parte de sua tese: numa lógica de consumo sem limite, é fácil sentir que nós mesmos nunca somos suficientes.
“Produtos materiais podem ser um condutor de conexão. Mas, se você tem demais deles, o mundo simplesmente se transforma em coisas mortas, e não conseguimos mais encontrar pertencimento”, complementou.
Para a economista, é justamente aí que o PIB deixa de dar conta de medir progresso: a métrica ignora dimensões como comunidade, propósito e pertencimento e, passado certo nível de conforto material, mais riqueza deixa de significar mais satisfação.
Para Gaya, o erro nas empresas é medir sucesso apenas pelo lucro ou pela maximização trimestral. "Uma empresa pode, e deve, ser lucrativa, mas o resultado deveria estar a serviço de um propósito maior, e não ser o próprio propósito", reforçou.
A especialista usa a busca incessante pela eficiência como exemplo prático desse desvio. Estamos, segundo ela, em um momento de recordes históricos de emissões de carbono, mesmo com ganhos massivos de eficiência produtiva. Mas esses ganhos são sistematicamente reinvestidos em mais crescimento, não em menos impacto.
"Essa busca por mais eficiência tornou os negócios vulneráveis demais", alertou, citando as cadeias de suprimento globais como exemplo de um modelo otimizado para custo, mas frágil diante de choques geopolíticos, climáticos ou logísticos.
A alternativa que ela propõe tem nome: biorregionalismo. Em vez de organizar a produção por fronteiras administrativas ou pela teoria de menor custo global, a ideia é organizar cadeias produtivas em torno de ecossistemas reais como os biomas, e priorizar o fornecimento local.
Nesse sentido, o Brasil desponta pelo potencial para a bioeconomia e outras soluções baseadas na natureza.
É no conceito de resiliência ao colapso que a tese de Gaya fica mais provocadora e menos fatalista do que o nome sugere. Em sua fala, ela definiu colapso como "uma quebra do sistema existente" — social, governamental ou ecológico — reconhecendo que já houve colapsos ao longo da história, mas que o atual seria "o primeiro de escala verdadeiramente global".
Na leitura apresentada por Gaya, porém, o colapso não significa necessariamente um desfecho negativo. Citando o pesquisador de Cambridge Luke Kemp, ela o descreve, antes de tudo, como “um achatamento de hierarquias”: uma ruptura capaz de redistribuir estruturas de poder.
"Não devemos temer o colapso demais. Essa é, em grande parte, a visão do 1% que tem, de longe, mais a perder", destacou.
Para ela, o comportamento competitivo e acumulador que vemos hoje é menos sobre natureza humana e mais sobre o sistema em que estamos inseridos.
Mas afinal, como alcançar esse bem-estar? Segundo a economista, uma vez atendidas as necessidades básicas, o ser humano deixa de ser guiado pelo acúmulo e passa a buscar outra coisa: pertencimento.
"Precisamos de um senso de comunidade e de propósito. E você não consegue isso sem se conectar aos outros", concluiu, citando a estudiosa indígena que resume a ideia em uma frase: "toda prosperidade é mútua".
Gaya não garante que o mundo conseguirá mudar de rota a tempo. Mas, se o crescimento que perseguimos já não vem acompanhado de progresso ou felicidade, talvez a pergunta não seja mais como continuar crescendo apesar dos limites, e sim como viver bem dentro deles.