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Ignorar a natureza na gestão de risco pode custar US$ 15 trilhões por ano

Especialistas reunidos no evento da World Climate Foundation defenderam que a economia resiliente começa quando a biodiversidade passa a ser reconhecida como um ativo estratégico

Especialistas se reuniram no MASP, em evento da World Climate Foundation durante a São Paulo Climate Week, para debater biodiversidade, gestão de risco e resiliência econômica (Divulgação)

Especialistas se reuniram no MASP, em evento da World Climate Foundation durante a São Paulo Climate Week, para debater biodiversidade, gestão de risco e resiliência econômica (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 6 de agosto de 2026 às 15h22.

Última atualização em 6 de agosto de 2026 às 15h29.

A biodiversidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental e precisa entrar na estratégia, no balanço e na gestão de risco das empresas.

É o que defendem especialistas e executivos reunidos no evento da World Climate Foundation, nesta quinta-feira, 6, em painel sobre natureza como infraestrutura para uma economia resiliente, durante a programação da SP Climate Week. 

O economista-chefe da FAO, David Laborde, fez uma provocação: os custos ocultos do sistema agroalimentar chegam a US$ 14 a 15 trilhões por ano, considerando impactos ambientais, sociais e de saúde.

"Esse é o custo da inação e de ignorar a natureza na conta", resumiu. Para Laborde, o problema de fundo é que boa parte dos serviços ecossistêmicos prestados pela natureza como água limpa, solo fértil, polinização, seguem de fora do balanço das empresas simplesmente porque, enquanto não falta, ninguém precifica.

"São recursos naturais de graça", disse, ao explicar por que tantos atores destroem valor sem perceber. Ele defendeu ainda que florestas, manguezais e solo devem ser encarados como infraestrutura (hídrica, pesqueira, produtiva) e que só a cooperação entre entre setor público e privado permite administrar um capital natural que, segundo ele, "não liga para fronteiras".

A biodiversidade amadurece no debate um tema de estratégia empresarial, capaz de reduzir riscos, proteger cadeias produtivas e aumentar a resiliência frente a eventos climáticos extremos.

O Brasil ilustra bem essa urgência: o agronegócio responde por 25% do PIB nacional e é, ao mesmo tempo, a maior fonte de emissões e a maior oportunidade de transição climática do país.

Para Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú, justamente por o agro ser um dos setores que mais gera riqueza, mas também um dos que mais dependem e pressionam os recursos naturais, é "impossível seguir tratando agro e natureza como agendas separadas".

A especialista destacou que o Brasil tem condições de liderar simultaneamente nas frentes de segurança alimentar, energética e climática e um combo que, segundo ela, poucos países no mundo conseguem sustentar ao mesmo tempo.

Um estudo inédito do BCG já revelou que a agricultura regenerativa no Cerrado poderia adicionar cerca de US$ 100 bilhões ao PIB brasileiro, enquanto abioeconomia tem potencial para movimentar R$ 765 bilhões por ano até 2032.

A ideia é que conservar e recuperar ecossistemas também representa uma estratégia de desenvolvimento econômico.

Para Piazzon, não existe uma solução única capaz de resolver esse desafio: é preciso um leque de estratégias, olhando também para experiências e casos de sucesso globais como a da agricultura familiar na China.

Do lado da mineração, Letícia Guimarães, head de Biodiversidade da Vale, trouxe um exemplo prático de como esse cálculo muda quando o risco vira operacional.

A empresa só percebeu a real dependência hídrica do negócio depois de já estar instalada em Carajás, contou. Hoje, a companhia protege cerca de 1 milhão de hectares de floresta no entorno de suas operações, o que representa entre 2% e 3% de áreas protegidas.

"Precisamos olhar para os recursos naturais como parte do nosso negócio", afirmou, defendendo que biodiversidade, ainda uma pauta recente para o setor, já está sendo incorporada à gestão de risco corporativo.

Para ela, tão importante quanto restaurar áreas degradadas é proteger as florestas maduras que ainda restam. "A mineração precisa inovar para usar o solo de forma cada vez mais eficiente", destacou.

Já Laura Motta, gerente sênior de Sustentabilidade do Mercado Livre, puxou a discussão para a ponta da cadeia: as comunidades que tem o conhecimento ancestral e sabem, na prática, como preservar.

"É o patrimônio cultural e social que as pessoas do território conhecem sobre conservação ambiental", afirmou, citando iniciativas como o projeto Biomas a Um Clique, que usa a estrutura logística e comercial da gigante do e-commerce para escoar produtos da bioeconomia.

Da farinha de babaçu a outros insumos extrativistas, o objetivo da iniciativa é ir além do apoio logístico e usar a inteligência comercial para ajudar essas comunidades a chegar ao consumidor final. Para Motta, o desafio não é só logístico, mas cultural: falta construir demanda para que produtos da sociobiodiversidade ganhem espaço de fato no mercado tradicional.

O fio que atravessou o debate no MASP foi o mesmo: transformar em número aquilo que hoje ainda é um custo invisível.

Como resumiu o diretor da FAO, o desafio não é convencer ninguém a "gostar da natureza", e sim mostrar, com evidência, que ela já gera valor hoje, e que o preço de ignorá-la só aparece a longo prazo.

As soluções mostram que o ponteiro já começou a mudar e as empresas começam a incorporar a biodiversidade às decisões de investimento, operação e gestão de risco.

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