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IA em relatórios de sustentabilidade: empresas testam, mas uso ainda é limitado

Pesquisa recomenda adoção supervisionada da tecnologia e mostra que legitimidade das opiniões é prioridade para investidores

Estudo com empresas britânicas sobre IA para relatórios financeiros e de sustentabilidade: implementação prática permanece cautelosa, embora o interesse pela tecnologia seja crescente. (Freepik)

Estudo com empresas britânicas sobre IA para relatórios financeiros e de sustentabilidade: implementação prática permanece cautelosa, embora o interesse pela tecnologia seja crescente. (Freepik)

Lia Rizzo
Lia Rizzo

Editora ESG

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 06h40.

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A inteligência artificial ganha cada vez mais espaço nas corporações, mas seu uso na produção de relatórios anuais, financeiros e de sustentabilidade ainda é bastante restrito.

Foi o que mostrou um estudo realizado em conjunto pela Falcon Windsor e a Insig AI com 40 empresas do índice FTSE britânico, cinco investidores institucionais e uma agência de proxy.

A análise revelou um cenário de experimentação controlada, com governança limitada e preocupações significativas sobre precisão e autenticidade.

Para o levantamento foram analisados mais de 21 mil documentos publicados entre 2021 e 2024, além da realização de grupos focais com executivos responsáveis pela elaboração desses materiais entre junho e novembro de 2024.

Adoção ainda em estágio inicial

Durante o período investigado - de 2021 a 2024 -, o número de companhias que mencionam inteligência artificial mais que dobrou. Em 2024, 68% dessas empresas fizeram alguma referência à IA em seus documentos, percentual que sobe para 76% quando consideradas apenas as 100 maiores do índice.

Contudo, o estudo identificou apenas dois casos de uso de inteligência artificial na criação de imagens para relatórios. E nada relacionado ao processo de elaboração do conteúdo textual propriamente dito.

"A maioria das empresas está usando ou testando IA de alguma forma, mas quando se trata de relatórios corporativos e de sustentabilidade, o uso ainda é muito limitado", observa Claire Bodanis, fundadora da Falcon Windsor e líder da pesquisa, no documento.

Segundo sua avaliação, essa cautela reflete não apenas questões técnicas, como também sobre responsabilidade legal e confiança dos investidores.

A análise revelou ainda, que as discussões sobre IA nas empresas concentram-se principalmente em três áreas: riscos operacionais, estratégia corporativa e eficiência/automação.

Microsoft Copilot domina, mas treinamento é escasso

Entre as ferramentas, o Microsoft Copilot aparece como a opção predominante. Algumas empresas mais sofisticadas tem desenvolvido chatbots internos próprios.

A maioria, porém, tem incorporado a tecnologia através da solução da Microsoft, vista como relativamente segura por respeitar permissões de acesso a dados já definidas pela empresa.

Há também uma lacuna crítica: a maior parte das companhias não oferece treinamento formal sobre como usar essas ferramentas de forma eficaz, especialmente no contexto de informações confidenciais.

A pesquisa mostrou que apenas três empresas do FTSE 350 haviam atualizado seus Códigos de Conduta em 2024 para incluir orientações sobre o uso de IA. Esse número subiu para 17 em uma análise posterior realizada entre janeiro e março de 2025, um volume ainda tímido.

"Há uma variação impressionante entre as empresas em termos de adoção e governança de IA", ressalta o documento. "O único fator determinante parece ser a cultura organizacional, particularmente os interesses pessoais da liderança e do conselho."

E os investidores, o que pensam?

Do lado dos investidores, a pesquisa revelou um interesse significativo em como as empresas estão usando IA generativa, junto a preocupações sobre duas questões principais: a precisão das informações e a autenticidade das opiniões de gestão e conselho.

Todos os investidores consultados nos grupos focais concordaram que as visões e opiniões expressas nos relatórios devem ser genuinamente da administração e do Board.

A preocupação central é garantir que essas perspectivas reflitam o pensamento real dos executivos, e não sejam geradas pela IA. 

O debate entre estes participantes centrou-se em definir o limite aceitável sobre até que ponto a IA pode auxiliar na redação sem comprometer a legitimidade da opinião.

Eu seria muito cauteloso sobre o uso de IA em declarações prospectivas ou qualquer coisa baseada em opinião ou julgamento", comentou um dos investidores consultado.

Outro acrescentou: "Não estou muito preocupado se a IA foi usada no processo de coleta de dados ou rascunho do relatório. A única coisa que me importa é que realmente reflita as visões da administração."

O princípio do "estagiário precoce"

Para orientar o uso responsável da inteligência artificial em relatórios corporativos e de sustentabilidade, o documento propõe um princípio guia, tratando essas ferramentas como se fosse o que chamaram de um "estagiário precoce", brilhante, capaz e eficiente.

Mas considerando sua experiência limitada e um perfil propenso a excesso de confiança em suas próprias capacidades.

Na prática, isso significa que a IA  pode ser útil para tarefas administrativas, como resumir reuniões, criar transcrições, redigir atas, e para alguns tipos de edição e rascunho de conteúdo rotineiro. 

No entanto, há limites claros. A ferramenta não deve escrever opiniões de gestão nem fazer projeções sobre o futuro da empresa sozinha. E nenhuma seção pode ser finalizada sem verificação humana rigorosa.

Uso recomendado e áreas de risco

Com base nas entrevistas com executivos das 40 empresas participantes (incluindo 20 do FTSE 100), o estudo identificou alguns consensos sobre aplicações apropriadas e inadequadas da tecnologia.

Entre os fins para se usar, destacam:

  • Tarefas administrativas como resumos de reuniões e transcrições
  • Pesquisa inicial e análise de grandes volumes de informação
  • Rascunho e edição de material de divulgação que não envolve opinião
  • Criação de imagens temáticas ou abstratas como alternativa a fotos de banco de imagens
  • Verificação intermediária de estilo e consistência

Já entre o que evitar, pontuam:

  • Elaboração de briefings estratégicos
  • Declarações de opinião de executivos, análises narrativas ou projeções futuras
  • Fotos de pessoas e objetos reais (que devem ser fotografias autênticas)
  • Revisão e verificação final (que deve ser feita por responsáveis humanos)
  • Uso de chatbots externos para informações confidenciais

Governança e transparência são desafios que persistem

Apesar dos avanços potenciais, o documento alerta que as empresas precisam desenvolver estruturas mais robustas de governança antes que a IA possa ser plenamente integrada ao processo de elaboração de relatórios.

O que inclui políticas claras sobre quando e como usar essas ferramentas, treinamento adequado para equipes e mecanismos para documentar e verificar o uso.

Quanto à divulgação, quase todos os participantes da pesquisa acreditaram que seus públicos teriam menos confiança em relatórios criados por IA do que por pessoas.

Apesar disso, a maioria defendeu que o uso dessas ferramentas deveria ser divulgado nos relatórios anuais e de sustentabilidade, pelo menos nos estágios iniciais de adoção.

Os investidores foram os que apresentaram opiniões mais divididas sobre divulgação, sendo cerca de metade a favor e metade contra.

A maior parte, contudo, concordou que qualquer uso de IA em decisões estratégicas ou operacionais da empresa deve ser claramente comunicado, pois afeta a avaliação que fazem da companhia.

Orientação sim, regras rígidas não

Tanto empresas quanto investidores mostraram-se contrários à regulamentação rígida do uso de IA nos relatórios financeiros e de sustentabilidade.

Segundo os participantes, como a tecnologia é recente e evolui rapidamente, qualquer regulação ficaria obsoleta em pouco tempo.

Contudo, a maioria indicou que alguma orientação dos reguladores seria útil, mesmo que apenas para lembrar as empresas de que suas responsabilidades e deveres existentes não mudam com a introdução dessas ferramentas.

Para eles, "IA fez isso" não é desculpa quando se trata das responsabilidades legais dos diretores que aprovaram o relatório.

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