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Fafá de Belém, artista paraense: "A força é o que temos de mais feminino" (Patricia Devoraes / Divulgação)
Repórter de ESG
Publicado em 3 de junho de 2026 às 20h00.
Última atualização em 4 de junho de 2026 às 03h49.
Aos 69 anos, Fafá de Belém continua fazendo o que mais gosta: reunir pessoas. Em meio a retratos da Nossa Senhora de Nazaré, artefatos que remetem ao Pará e uma decoração com cores vibrantes, a artista abriu as portas da sua casa em São Paulo para anunciar a edição 2026 da Varanda de Nazaré e do Fórum Varanda da Amazônia.
Na cobertura onde mora há quatro décadas, o encontro na noite de terça-feira, 2, teve o clima intimista de uma conversa entre amigos, mas serviu para revelar os rumos de dois projetos que, há anos, conectam fé, cultura e identidade amazônica.
Desta vez, o centro da conversa foram as mulheres. A escolha estava refletida até mesmo na composição da mesa. Ao lado de Fafá estavam sua filha, Mariana, e as netas Laura e Julia, representantes de diferentes gerações de mulheres que hoje ajudam a dar continuidade ao grande projeto de sua vida.
Ao longo da noite, uma frase que ela repetiu inúmeras vezes resumiu bem o espírito deste ano: "Somos todas Beléns".
A expressão faz referência tanto à capital paraense que abriga o Círio de Nazaré quanto a todas aquelas que, segundo Fafá, mantêm vivas tradições, saberes ancestrais e formas de organização comunitária. Em 2025, a celebração reuniu cerca de 2,5 milhões de fiéis em Belém e é considerada a maior procissão católica do mundo.
Com o tema "Coragem que floresce na fé", a Varanda de Nazaré homenageará mulheres que sustentam famílias, tradições e comunidades na Amazônia.
Já o Fórum Varanda da Amazônia, que chega à quarta edição, terá como eixo "Amazônia: substantivo feminino", reunindo lideranças, empreendedoras, cientistas, representantes de povos tradicionais e personalidades da cultura para discutir o protagonismo delas na construção da região.
Ao explicar a escolha, Fafá fez uma reflexão sobre a força das mulheres amazônicas e sobre como, ao longo do tempo, elas foram sendo empurradas para papéis secundários.
"Qual foi o momento em que nós duvidamos da nossa força? Desde quando passamos a ser subjugadas?", refletiu em entrevista à EXAME. Para a cantora, a resposta pode ser encontrada justamente na história da Amazônia.
"É um bioma muito feminino. Você vê as mulheres do mel, do cacau, da juta. É uma resistência enorme", afirmou.
Para a paraense, a força é o que temos de mais feminino. "Não é a briga, não é a guerra. É o poder da mãe, aquela que abraça, orienta e dá rumo", disse.
A artista também aproveitou para defender que o interesse despertado pela Amazônia nos últimos anos não desapareça especialmente após a COP30, grande conferência climática da ONU que aconteceu no Brasil pela primeira vez em novembro de 2025.
"Espero que isso não tenha sido apenas fogo de palha porque a região estava na moda", afirmou.
Segundo ela, o desenvolvimento depende da combinação entre inovação e tradição.
"Podemos crescer dentro do nosso habitat, com uma tecnologia mais avançada, mas bebendo também do nosso conhecimento ancestral", lembrou.
Além do protagonismo feminino, a edição de 2026 traz uma novidade inédita: pela primeira vez, a Varanda de Nazaré atravessará o Atlântico e ganhará uma etapa internacional em Portugal.
O encontro será realizado durante as tradicionais Festas de Nossa Senhora da Nazaré, celebradas anualmente entre os dias 4 e 13 de setembro no município português de Nazaré.
A proposta é aproximar duas manifestações religiosas ligadas pela mesma origem histórica e fortalecer o intercâmbio cultural entre Portugal e o Pará.
"É fundamental que os brasileiros, especialmente os devotos, conheçam a origem dessa história, que nasce em Portugal e atravessa séculos movida pela fé", afirmou Fafá.
"Queremos promover um verdadeiro encontro das Nazarés, a de Belém e a de Portugal", vibrou.
Agora, ao colocar as mulheres no centro do evento e ampliar suas fronteiras para além do Atlântico, os projetos reforçam uma mensagem que ecoou diversas vezes ao longo da noite na casa da cantora: a Amazônia tem voz feminina.