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Gerir riscos climáticos é também gerir desigualdades

A catástrofe climática, como no Rio Grande do Sul, expõe simultaneamente as vulnerabilidades das mulheres diante da ruptura das redes de apoio e o seu papel fundamental na restauração social

Com os eventos climáticos extremos, as estruturas sociais de apoio à população feminina são desestruturadas (Carol Yepes/Getty Images)

Com os eventos climáticos extremos, as estruturas sociais de apoio à população feminina são desestruturadas (Carol Yepes/Getty Images)

Daniela Grelin
Daniela Grelin

Diretora Executiva do Instituto Avon

Publicado em 31 de maio de 2024 às 08h12.

À medida em que a catástrofe climática no Rio Grande do Sul inundava terras e cidades, desalojando regiões inteiras, emergia nitidamente uma realidade dramática: a vulnerabilidade social das mulheres diante daquele colapso generalizado. Enquanto as manchetes se concentram nos estragos materiais e na assistência emergencial, poucas vezes eram ouvidas as vozes das vítimas silenciadas pela violência de gênero e infantil que emergem da situação.

As denúncias de crimes sexuais dentro de abrigos, revoltantes como são, confirmam uma correlação perversa entre eventos climáticos extremos e o aumento da violência de gênero. Neste sentido, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2006, pela National Sexual Violence Resource Center, indicou que quase um terço das agressões sexuais relatadas durante o furacão Katrina e o furacão Rita, ambos em 2005, ocorreram em abrigos de evacuação de cidades predominantemente negras em Nova Orleans.

De acordo com o relatório “a violência contra mulheres e meninas no contexto da crise climática”, publicado em 2022 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o risco de morte de mulheres em catástrofes climáticas é 14 vezes maior que o dos homens.

No caso do Rio Grande do Sul, denúncias de crimes sexuais ocorridos dentro de abrigos alertaram as autoridades para criação de ambientes para acolher, exclusivamente, mulheres e crianças. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública já foram confirmados oito casos de importunação sexual, estupro e satisfação de lascívia – e esse número pode ser muito mais alto, considerando que nem sempre as vítimas conseguem ou podem recorrer a autoridades para realizar denúncias.

Além da perplexidade e repúdio que estas ocorrências suscitam, é preciso tentar entender por que elas acontecem e como podemos incluir, entre as estratégias de adaptação à crise climática, medidas voltadas especificamente para o fortalecimento daquela parcela da população que, embora desproporcionalmente vulnerabilizada, revela-se fator decisivo para a resiliência e restauração das comunidades.

Bem, com os eventos climáticos extremos, as estruturas sociais de apoio à população feminina são desestruturadas. O foco passa a ser a sobrevivência imediata e recursos disponíveis são prioritariamente direcionados à assistência humanitária generalizada, com foco em necessidades básicas, como alimentação e abrigo, em detrimento de demandas e pautas específicas, como as de gênero.

Muitas mulheres e meninas acabam separadas ou perdem seus familiares e amigos, dificultando ainda mais o suporte em casos de abusos e violências. Infraestruturas de saúde, acolhimento, proteção e transporte também são danificadas, dificultando o acesso a esses serviços.

Recorrer a políticas públicas e medidas emergenciais de segurança, portanto, torna-se um caminho ainda mais árduo para as vítimas. Neste cenário de extrema precariedade, as desigualdades sociais se traduzem em barreiras ainda mais agudas de acesso à informação e meios para que as mulheres busquem seus direitos.

Ao mesmo tempo, estudos de tragédias climáticas identificam uma correlação direta entre a variável “nível educacional das mulheres” e a capacidade de recuperação e restauração social das comunidades afetadas. Mulheres mais educadas, com melhor compreensão e acesso a informações sobre preparação para desastre, mitigação de risco, saúde e resposta a crises são capazes de alavancar os esforços de gestão da crise; tomar decisões melhores e mais assertivas em relação à própria saúde e de seus familiares; participar e liderar atividades e respostas comunitárias; e atuar como agentes de mudança em suas comunidades, promovendo a educação e sensibilização ambiental, a adoção de novas práticas sustentáveis e a adaptação às mudanças climáticas.

Os eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul não nos autorizam mais a pensar no Brasil como nos acostumamos: o perpétuo “país tropical, abençoado por Deus”, livre de todos os desastres. Eles são e serão cada vez mais frequentes – um dado desta nova realidade que temos que enfrentar por meio de múltiplas estratégias de adaptação. Para que cumpram o seu papel, é preciso que contemplem programas de redução de desigualdades, especialmente as de gênero, a fim de destravar o potencial restaurador das respostas articuladas pelas mulheres, para benefício de todos.

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