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Orquestrar capital não é substituir investidores. É criar infraestrutura de coordenação. É gerar inteligência sistêmica compartilhada, alinhar diferentes tipos de capital, estruturar portfólios estratégicos (Tirachard/Getty Images)
Publicado em 9 de março de 2026 às 11h04.
Por Marina Cançado (Converge Capital) e André Ticoulat (TransCap Initiative)*
Entramos na década da implementação. Depois de anos de negociações climáticas e de mobilização do setor privado na agenda de clima e natureza, o debate deixou de ser sobre ambição e passou a ser sobre capacidade de execução. A COP30 consolidou essa transição ao estabelecer que o legado da próxima década não será definido por declarações, mas pela capacidade real de implementação.
O Acordo de Paris foi decisivo para evitar um cenário ainda mais catastrófico. Sem ele, a trajetória de emissões provavelmente nos colocaria diante de um aumento de temperatura muito acima dos limites considerados minimamente seguros. Ainda assim, estamos longe de uma rota compatível com os limites de 1,5°C. A ciência é clara: a velocidade e a profundidade das mudanças necessárias superam o ritmo atual de transformação econômica.
Nos diversos debates e diálogos sobre como acelerar e escalar soluções, consolidou-se o consenso de que precisamos alcançar até 2035 o valor anual de US$ 1,3 trilhão para apoiar países em desenvolvimento na implementação de suas estratégias de redução de emissões e de adaptação. O chamado “investment gap” ou "missing trillions” tornou-se o eixo central das discussões internacionais e das articulações com o setor privado. Mas talvez a pergunta sobre como e de quais fontes iremos mobilizar esse volume de capital esteja incompleta.
O problema não é apenas quanto capital mobilizamos. É como esse capital é estruturado, coordenado e alocado.
Se ampliarmos o volume de recursos sem alterar a lógica que orienta sua aplicação, corremos o risco de produzir apenas incrementalismo. E incrementalismo não é suficiente diante da emergência climática, da erosão da biodiversidade e das desigualdades estruturais que atravessam economias como a brasileira. A década da implementação exige uma mudança estrutural na forma como o capital opera.
A raiz do problema é estrutural. Sistemas como energia, uso da terra, cidades e cadeias industriais operam como sistemas complexos e adaptativos. Sua transformação não decorre de iniciativas isoladas, mas da coordenação estratégica de múltiplas intervenções incidindo simultaneamente sobre diferentes alavancas sistêmicas.
Ainda assim, a prática dominante no mercado financeiro permanece essencialmente transacional e fragmentada. Investimentos são estruturados e avaliados de forma isolada sem necessariamente estarem inseridos em uma estratégia coordenada de transformação sistêmica.
Transformações sistêmicas não emergem da soma aritmética de projetos isolados. Elas emergem quando diferentes intervenções são desenhadas para se reforçarem mutuamente. É essa lógica que o conceito de systemic investing, desenvolvido no white paper Transformation Capital – Systemic Investing for Sustainability, procura operacionalizar.
A premissa é simples, mas profunda: para transformar sistemas, em vez de investir ativo por ativo, deve-se construir portfólios estratégicos. O valor não reside apenas em cada investimento individual, mas também nas sinergias que surgem quando eles atuam de forma coordenada - chamados efeitos combinatórios.
Considere-se, por exemplo, a expansão de sistemas agroflorestais. O financiamento a produtores individuais, embora necessário, é insuficiente se não estiver acompanhado de infraestrutura adequada de processamento e logística, mercados capazes de absorver produtos diferenciados, instrumentos de crédito compatíveis com ciclos produtivos mais longos, assistência técnica especializada e um ambiente regulatório coerente. Sem a integração dessas dimensões, o capital pode viabilizar experiências bem-sucedidas em escala local, mas dificilmente altera a trajetória dominante do sistema agroalimentar.
O investimento sistêmico começa com uma visão transformadora explícita, como descarbonizar uma cadeia produtiva, regenerar um território específico, reconfigurar a mobilidade urbana, e constrói uma teoria de mudança baseada em inteligência sistêmica. Mapeiam-se atores, fluxos de capital, gargalos institucionais, incentivos econômicos. Identificam-se alavancas estruturais.
A partir daí, desenha-se o capital necessário. Não apenas capital comercial, mas uma combinação deliberada de instrumentos ao longo do espectro: recursos filantrópicos para financiar condições habilitadoras, capital concessional para absorver riscos iniciais, financiamento público para infraestrutura estratégica, capital privado para escala. O objetivo deixa de ser adaptar o sistema às preferências de uma classe de ativos e passa a ser adaptar o capital às necessidades do sistema.
Essa abordagem é particularmente relevante no Brasil. Poucos países concentram desafios tão profundamente interconectados quanto o Brasil. O desmatamento na Amazônia, por exemplo, não é um fenômeno isolado, mas o resultado da interação entre múltiplos vetores estruturais: insegurança e disputas fundiárias, condições socioeconômicas locais marcadas por baixa renda e escassez de alternativas produtivas, pressões econômicas associadas à expansão agropecuária, assimetrias no acesso ao crédito, capacidade limitada de fiscalização ambiental, decisões de investimento em infraestrutura logística e a integração da região às cadeias globais de commodities, orientadas por padrões internacionais de consumo. Trata-se, portanto, de um problema sistêmico, sustentado por incentivos econômicos, fragilidades institucionais e dinâmicas de mercado que se reforçam mutuamente.
São problemas essencialmente complexos. Não podem ser resolvidos por meio de soluções isoladas ou instrumentos financeiros desconectados entre si. Se a década da implementação significa algo, é que precisamos sair da lógica da mobilização em torno de iniciativas individuais e avançar para a lógica da orquestração de um conjunto de iniciativas que atuam nos pontos-chave para a transformação de uma cadeia de valor, de um setor, de um sistema.
Esse ponto é aprofundado no framework de Financial Backbones – Capital Orchestration for Systems Transformation, que argumenta que hoje há um vazio institucional: faltam atores com mandato explícito para coordenar diferentes provedores de capital em torno de uma estratégia sistêmica comum. O resultado é fragmentação e frustração com os resultados. Iniciativas coexistem, mas raramente convergem e geram as transformações esperadas.
Orquestrar capital não é substituir investidores. É criar infraestrutura de coordenação. É gerar inteligência sistêmica compartilhada, alinhar diferentes tipos de capital, estruturar portfólios estratégicos e sustentar a colaboração no longo prazo. É reconhecer que transformar sistemas requer não apenas recursos, mas também arquitetura.
É com esse espírito que, em abril de 2026, a TransCap Initiative, em parceria com a Converge Capital, organização brasileira que há anos atua na articulação de diversos tipos de capital para transformações sistêmicas, realizará o Systemic Investing Summit 2026, nos arredores do Rio de Janeiro. Mais do que uma conferência, será uma experiência imersiva e colaborativa, reunindo investidores, filantropos e praticantes comprometidos em direcionar capital a transformações sistêmicas.
Ao longo de três dias, participantes irão aprofundar relações com lideranças internacionais do campo, explorar práticas de ponta que estão moldando o futuro do investimento sistêmico e cocriar soluções concretas capazes de gerar parcerias duradouras.
Se queremos que o Brasil lidere a década da implementação, precisamos de espaços onde capital deixe de ser apenas mobilizado e passe a ser estrategicamente orquestrado.
Transformações sistêmicas não acontecem por acidente. Elas são fruto da intenção, da coordenação e do compromisso de longo prazo.
Não temos tempo a perder. A hora de agir diferente para obter resultados diferentes é agora.